junho 27, 2003

Ana, Schutz e a Pluralidade dos «Genderlects» (act.)

A tentação da simplificação poder-nos-ía levar a conceber o «genderlect» feminino como internamente homogéneo. Perante essa perspectiva convém esclarecer que não é. Com efeito, existe uma plêiade heterogénea de dialectos de género femininos. Embora, claro está, existam algumas características comuns e partilhadas entre si. O melhor exemplo disso é, porventura, a Ana Teles (como eu, estudante de sociologia e minha conhecida de outras andanças sociológicas). Analisar, judiciosamente, as diferenças entre os dois blogues que mantém, revela-nos, pelo menos, duas formas distintas do dialecto de género feminino e, por isso, duas formas diversas de «mostração» e de «presentação» do eu. O Lua apresenta um estilo confessional-poético. A Girl's Thoughts tem características mais descritivas-etnográficas, mais próximas do diário ou da auto-etnografia. Apresentando ambos as características que Tannen atribui ao dialecto de género tipicamente feminino, os blogues em causa revelam diferenças, no mínimo, assinaláveis. Assim, ler a(s) Ana(s), remete-me para um conhecido conceito de um dos founding fathers da fenomenologia, Alfred Schutz. Falo da noção de «finite provinces of meaning» (noção que José Machado Pais tem traduzido como «âmbitos de significado finito»). Os âmbitos de significado finito referem-se a mundos de percepção ou âmbitos de realidade (como, por exemplo, cada pessoa tem um mundo do trabalho, um mundo familiar e um mundo individual, em esferas mais ou menos isoladas entre si). Neste caso, cada blogue da Ana constitui um âmbito de significado finito; um mundo de vida com a uma «lógica interna», uma «identidade» e um «ethos». Passar de um blogue para outro implica, então, uma ruptura: um salto de descontinuidade de uma «realidade» para outra. De um âmbito de significado finito para outro. É engraçado observar a transformação ontológica entre o tom confessional-etnográfico da «Ana-A Girl's Thouhgts» e o estilo confessional-poético da «Ana-Lua». Este caso levanta-nos, assim, interrogações sociológicas importantes quanto à questão da identidade. De facto, além de haver potencialmente uma cisão entre um «online self» e um «offline self», podemos ter ainda «online selves» diversos: um «eu digital» múltiplo. Abrem-se, assim, novas perspectivas quanto à recorrente questão fragmentação do eu na tardo-modernidade. Voltando à Ana, esta constatação parece significar que numa mesma pessoa podem estar contidas formas diversas de ser feminina e de exprimir a feminilidade. A Ana dava um estudo sociológico interessante. Ou dois.

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junho 26, 2003

«Genderlects» e a Blogosfera

Em alguma literatura sociológica e sociolinguística fala-se, por vezes, da existência de «genderlects», «genderlect styles» ou «gender specific dialects» (dialectos de género) - penso designadamente na linguista Deborah Tannen da Georgetown University. Esse conceito remete, segundo Tannen, para a existência de modos de comunicação muito diferentes entre géneros. Os dialectos de género manifestam-se de muitas formas: pessoas do sexo feminino tendem a utilizar, profusamente, mecanismos linguísticos como o uso do condicional, circunlóquios protocolares («será que é possível», «seria possível», etc.), signos de deferência, um discurso confessional e intimista, uma estética da vulnerabilidade, etc... Isso deve-se, ainda de acordo com Tannen, ao facto da comunicação feminina ser despoletada por um desejo de proximidade, intimidade, comunhão (numa palavra: compreensão); e a masculina por um desejo de status, respeito, concretização (numa palavra: admiração). Daí que «as mulheres» se foquem mais na esfera privada e «os homens» na esfera pública.

Apesar das limitações da perspectiva da autora (porventura, os estereótipos de género não são adequadamente desmontados e as generalizações pouco rigorosas), o conceito é interessante. Eu acrescentaria, ao que a autora afirma, que o processo de construção social do género envolve, não só dialectos de género, mas a constituição de gramáticas emocionais distintas, de vocabulários «gendrificados» e de léxicos emocionais particulares. Lembrei-me dos dialectos de género ontem, depois de ter recebido uma mensagem de correio electrónico deveras atenciosa da autora de um dos blogues mais bonitos da blogosfera, a Isabel Tilly do Monólogo, significativamente sub-intitulado «acontecimentos significativos do meu dia a dia». É um espaço sublime: confessional, intimista, frágil, familiar, reservado, delicado, sensível, terno e afectuoso. Enfim, «feminino». Ela ontem escreveu o seguinte: "quem ler o meu blog percebe que pertenço ao "género feminino". tenho pena que a pertença me molde o discurso (e o pensamento). alguma vez o abrupto escreveria sobre sentimentos de desamparo, falta de auto-confiança, alterações de humor? não creio...".

Eu também não. O problema, na blogosfera, é que há um claro predomínio de um dialecto de género masculino. O tema por cá não tem tido impacte, mas lá fora muito se tem falado do «blog gender gap», do «gender gap in Blogville» ou do «Venus-Mars divide in Blogville» como lhe chama a jornalista-blogger Lisa Guernsey (Lisa Guernsey's Weblog) . autora de um artigo no The New York Times sobre o assunto intitulado «Telling all online: it's a man's world (isn't it?)» (tomei a liberdade de o disponibilizar online: vale a pena ler na totalidade). Diz a autora que: ."i>Women want to talk about their personal lives. Men want to talk about anything but. So far the people who have received the most publicity (often courtesy of male journalists) appear to be the latter". Por isso, segundo Guernsey, as mulheres tendem a escrever diários e os homens a falar de temas menos pessoais (de política, economia, literatura... e sociologia; não sendo generalizável, parece ser evidente que isto acontece, em grande medida, na lusosfera). Lisa Guernsey não é socióloga. Mas podia ser.

Deambular pela blogosfera permite-nos dar conta esta ser um espaço predominantemente masculino (Socio[B]logue incluído). Com efeito, o dialecto de género prevalecente (e hegemónico) na blogosfera está mais perto dos «Sopranos» do que do «Once and Again». Esse facto, não sendo surpreendente, não deixa - ainda assim - de ser curioso.

Obrigado Isabel. Pela mensagem atenciosa e pelo Monólogo.

Guernsey, Lisa (2002, 28 de Novembro), Telling all online: it's a man's
world (isn't it?)
, The New York Times. [html]

Publicado por socioblogue em 01:51 PM | Comentários (1)