julho 29, 2003

GLO: Rede

Rede. "O uso mais geral para o termo «rede» é para uma estrutura de laços entre os actores de um sistema social. Estes actores podem ser papéis, indivíduos, organizações, sectores ou estados-nação. Os seus laços podem basear-se na conversação, afecto, amizade, parentesco, autoridade, troca económica, troca de informação ou qualquer outra coisa que constitua a base de uma relação." (Nohria & Eccles, 1992: 288).

Nohria, Nitin e Robert G. Eccles (eds.) (1992), Networks and Organizations: Structure, Form, and Action, Boston: Harvard Business School Press.

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julho 09, 2003

A «Auto-Poiesis» (act.)

As dificuldades de transformação e a resistência à mudança estão ligadas a uma das propriedades habitualmente associadas à evolução dos sistemas sociais: a «auto-poiesis» (cf. Luhmann, 1995). O conceito «auto-poiesis» (proveniente do grego: «auto», por si mesmo; «poiesis», fazer) foi primeiramente trabalhado pelos biólogos chilenos H. Maturana e F. Varela e
posteriormente aplicado aos sistemas sociais através da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann (1995). Refere-se, sobretudo, às dinâmicas geradas num sistema que conduzem à sua circularidade, auto-produção, auto-sustentabilidade ou auto-referencialidade. Isto é, de acordo com o autor germânico, os sistemas sociais tendem a fechar-se sobre si, a criar e manter uma lógica de funcionamento virada para o interior e a reproduzir-se continuamente. Este é um problema que inúmeras organizações enfrentam. Muitas vezes, na prossecução das suas actividades uma organização desenvolve uma ritualização de práticas, uma reificação de processos, uma cristalização de procedimentos. Isso conduz, em última instância, a uma sobreposição dos «meios» face aos «fins». A organização existe com o fim de existir: a sua própria existência transforma-se no seu objectivo. Desse modo, num sistema auto-poiético «ser» e «fazer» tornam-se inseparáveis. O sistema tende a organizar-se de forma a que o seu produto seja ele mesmo. Isso não significa que esse fenómeno seja intencional, propositado ou desejado por alguns indivíduos ou grupos, embora o possa ser. Significa, apenas, que a lógica do seu funcionamento tende a sobrepor-se aos fins enunciados. A administração pública - leia-se a nossa administração pública - é a ilustração
típica de um sistema auto-poiético. Os discursos prevalecentes no debate in curso em redor do tema, mais ou menos elaborados e sofisticados, são disso um bom exemplo. Do lado dos apologistas da reforma proposta, a ênfase é colocada a nível da «racionalidade dos serviços». Do lado dos seus detractores, nota-se um centramento na questão dos «direitos dos trabalhadores». Poucos, quase nenhuns, enquadram nos seus discursos o problema dos utilizadores dos serviços públicos. Afinal, a razão destes existirem em primeiro lugar. Sintomático.

Luhmann, Niklas (1995), Social Systems, Stanford: Stanford University Press.

Nota Adicional 1: Esta observação em torno da «auto-poiesis» despertou alguns
apontamentos críticos de interesse sobre a questão. Tyler Durden, um dos cientistas sociais não praticantes no mundo dos blogues, avançou com uma nota empírica sobre o papel das fantasias de grupo em contexto de resistência à mudança organizacional [texto]. Por seu turno, Carlos de Abreu Amorim (Mata-Mouros) avança com uma análise de algumas características particulares da administração pública em Portugal à luz dos conceitos luhmannianos de .clausura organizacional. e de .lógica auto-referencial. [texto]. São dois pontos interessantes para a prossecução do debate (e vale a pena ler na medida em que são dois textos com uma profundidade analítica admirável).

Nota Adicional 2: Acabou de ser publicada uma colectânea de boas práticas e de estratégias de desenvolvimento e e-Government.
Nazaré, Luís (coord.) (2003), Mudar a Máquina: A Administração Pública na Sociedade de Informação, Lisboa: Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação [PDF (2,6Mb)]

Publicado por socioblogue em 10:47 AM | Comentários (1)