julho 28, 2003

A Igualdade, o «Swinging» e o «Efeito Coolidge»

Na semana que passou foram divulgados alguns resultados de um estudo da autoria de José Murta Cadima, licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra e assistente graduado de Clínica Geral e Medicina Familiar, no âmbito da sua tese de mestrado de Sexologia na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Intitula-se «Estudo do Modo de Vida Swinger em Portugal» (consultar o artigo do Correio da Manhã intitulado Aumenta Troca de Casais, 21-07-2003).

As principais conclusões desse estudo apontam, segundo o que foi publicado, para o aumento da troca de casais, uma das formas de relacionamento sexual alternativo. Curioso é que muito pouco se disse acerca das pertenças sociais dos «swingers» (classes sociais, grupos de status, posições socio-económicas ou níveis de instrução; as informações publicadas indicam apenas que a maioria dos «swingers» inquiridos possui profissões nos domínios do trabalho intelectual, de investigação e de direcção). Tal "omissão", ainda que relativa, é tanto mais relevante quando os estudos sociológicos sobre a vida familiar, amorosa e sexual têm apontado para a prevalência de valores, atitudes e práticas hedonistas e experimentalistas - de que o «swinging» é uma expressão - sobretudo entre aqueles pertencentes a grupos socioeconómicos favorecidos e com níveis mais elevados de instrução e escolaridade (cf. Pais, 1998 e Vasconcelos, 1998).

Porém, mais importante do que a negligência das pertenças sociais dos inquiridos, é interessante analisar, ainda que superficialmente, os dados estatísticos avançados. De acordo com o estudo, a iniciativa para a troca de casais é, fundamentalmente, masculina. Os resultados do inquérito indicam que, entre os adeptos da troca de casais, cerca de 53,3 por cento das mulheres respondeu que a iniciativa partiu dos seus cônjuges e 46,7 por cento que foram ambos a sugeri-lo. Note-se que, segundo as respostas, nenhuma mulher o propôs. Por outro lado, quando a mesma questão é colocada ao género oposto, 66,7 assumiu a sugestão e 33,3 por cento atribuiu a ambos. Nenhum respondeu que a iniciativa tenha sido dos seus cônjuges. Apesar das diferenças de género (quiçá atribuíveis ao facto dos membros do género feminino desejarem, mais do que os membros do género oposto, passar uma imagem de mútuo acordo, reciprocidade e consenso) não deixa de ser relevante o facto de nos 54 «swingers» inquiridos - um terço do total de 162 inquiridos - não existir um único caso onde a iniciativa tenha sido primacialmente feminina.

Esta prevalência do primeiro passo masculino não é exclusiva do caso português, pois, como nota o psicanalista Willy Pasini referindo-se à realidade francesa, "[l]'initiative vient le plus souvent des hommes". Essa afirmação foi publicada na quinta-feira no novo número da revista Nouvel Observateur. A publicação em causa intitula-se «Sexe: Ces Français Qui Osent Tout...» e explora as questões do «echangisme», «mélangisme» e «triolisme», com contributos do sociólogo Daniel Welzer-Lang, do filósofo Dominique Folscheid, do psiquiatra Philippe Brenot, do sexólogo Jacques Waynberg e do próprio Willy Pasini, psicanalista. A interpretação do fenómeno e destes números não é fácil. Bem pelo contrário.

Se, por um lado, estas informações parecem sustentar a tese de Anthony Giddens de que as transformações da intimidade nas sociedades contemporâneas passam pela consolidação daquilo que designa de «relação pura», «amor confluente» e «sexualidade plástica» (Giddens, 1996); por outro lado não há dados que apontem para a generalização destas práticas. Pelo contrário. Apesar das induções e abduções abusivas de alguns investigadores, estas práticas parecem continuar circunscritas a grupos sociais bem delimitados tanto social, como culturalmente. Todavia, há pelo menos um dado que não oferece ambiguidades interpretativas. Os dados avançados, tanto em Portugal como em França, parecem apontar para a permanência daquilo que em Psicologia Social se costuma designar por «efeito Coolidge», isto é, "[a] importância que a variedade de parceiros sexuais (reais e imaginários) assume para o sexo masculino" (Alferes, 1997: 141). A predominância da iniciativa masculina é disso um indicador não menosprezável. A exegese destes dados é controversa: onde alguns vêm o copo meio cheio, outros vêm o copo meio vazio. Eu sou dos que vêm o copo meio vazio. Não deixa de ser curioso que mesmo entre os apologistas destas práticas - pessoas que preconizam uma ética experimentalista, baseada em valores modernizantes e anti-tradicionalistas, que manifestam uma aceitação de formas periféricas de sexualidade e que utilizam abundantemente palavras como igualdade e equidade nos seus discursos para caracterizar as suas relações - como dizia, não deixa de ser curioso que mesmo entre estas pessoas permaneçam indicadores a revelar assimetrias de género como estas. Sintomático.

Alferes, Valentim R. (1997), Encenações e Comportamentos Sexuais: Para Uma Psicologia Social da Sexualidade, Porto: Afrontamento.
Giddens, Anthony (1996), Transformações da Intimidade, Oeiras: Celta Editora.
Pais, José Machado (1998), «Vida Amorosa e Sexual», in José Machado Pais (coord.) (1998), Gerações e Valores na Sociedade Portuguesa Contemporânea, Lisboa: ICS, 407-468.
Vasconcelos, Pedro (1999), «Práticas e Discursos da Conjugalidade e de
Sexualidade dos Jovens Portugueses», in Manuel Villaverde Cabral e José Machado Pais (coord.) (1999), Jovens Portugueses de Hoje, Oeiras: Celta Editora.
Vasconcelos, Pedro (1998), «Vida Familiar», in José Machado Pais
(coord.) (1998), Gerações e Valores na Sociedade Portuguesa
Contemporânea
, Lisboa: ICS, 321-406.

Publicado por socioblogue em 07:11 PM | Comentários (1)