julho 25, 2003

GLO: Intradução

Intradução. Os livros, como outros produtos culturais, podem ser exportados ou importados. Essa importação ou exportação pode ser feita por meio de originais ou através de tradução. Intradução refere-se à importação literária sob a forma de tradução. Inversamente, a extradução reporta-se à exportação sob a forma de tradução. Portugal, por exemplo, é, tradicionalmente, um país com uma elevada taxa de intradução, por oposição a países cujas taxas de intradução são exíguas como, por exemplo, o Reino Unido ou os Estados Unidos da América. Este termo é aplicado nos campos da sociologia da edição, do livro e da literatura e foi desenvolvido por autores como Pascale Casanova ou Joseph Jurt, entre outros.

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julho 12, 2003

A Indústria Cultural do Livro e o Campo da Edição (act.)

Nelson de Matos (Textos de Contracapa) e Manuel Alberto Valente (Oceanos), ambos editores, trocaram recentemente algumas observações insuspeitamente contundentes sobre a «indústria editorial». Ou melhor, sobre o estado da «indústria editorial» em Portugal. No contexto da análise sociológica, o tema está longe de ser recente e desenvolveu-se, sobretudo, a partir do trabalho seminal de Walter Benjamin em torno da "obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica" e das investigações de Theodor Adorno e Max Horkheimer em redor da questão das "indústrias culturais".

Na actualidade, o tema tem sido abundantemente trabalhado no campo da Sociologia da Cultura e, mais especificamente, em três dos seus sub-campos: a Sociologia do Livro e da Leitura, a Sociologia da Literatura e a Sociologia da Edição (esferas, entre nós, representadas por autores como Maria de Lourdes Lima dos Santos, Eduardo de Freitas, José Afonso Furtado ou Jorge M. Martins). Nesses estudos e investigações tem-se tratado, entre outros fenómenos, das transformações no «campo da edição» tenderem para a transição da hegemonia de um «mercado da oferta» para o predomínio de um «mercado da procura». Com efeito, como notava Fabrice Piault, com estas mudanças "[c]orremos o risco de passar de um «mercado da oferta», em que o espaço da criação se encontra cada vez mais reduzido pelas lógicas de mercado, para um «mercado da procura», que não significa exactamente que o mercado é comandado por uma «lógica» de necessidades efectivas da clientela, mas antes que os constrangimentos próprios dos circuitos comerciais se impõem cada vez mais aos produtores e criadores" (Piault in Furtado, 1995: 83).

De facto, se a ênfase na edição tradicional se encontrava no domínio da produção, hoje ela encontra-se claramente na esfera do consumo: a distribuição, a comercialização, o marketing, a promoção, a publicidade, etc. (cf. Martins, 1999; Furtado, 1995). Adicionalmente, convirá sublinhar que os impactes desse fenómeno sobre a própria actividade quotidiana de editores e escritores não são, obviamente, negligenciáveis. Nelson de Matos e Manuel Alberto Valente parecem viver, com apreensão, estas transformações que fazem com que o livro não seja já (apenas) uma forma de arte, mas também (ou sobretudo) uma mercadoria. É por isso que se referem, com insistência, à necessidade de corresponder às novas "regras da indústria editorial", sustentando economicamente, através da venda de best-sellers e/ou livros mediáticos, a publicação de obras mais «arriscadas» ou previsivelmente «menos rentáveis». "Publica-se o que dá", diz Manuel Alberto Valente com indisfarçável desencanto e desilusão, "para poder publicar-se o que não dá". Dinheiro, entenda-se. E, decerto, não será fácil conciliar uma linha editorial consistente, por um lado, com a exigência de rentabilidade, por outro (para uma compreensão das transformações no campo da edição, consultem-se os Nº126-127 de Março de 1999 e Nº130 de Dezembro de 1999 da revista «Actes de la recherche en sciences sociales», inteiramente consagrados a essa temática).

As palavras de Nelson de Matos e de Manuel Alberto Valente parecem ser, simultaneamente, indicadores de numerosos aspectos: de uma tensão entre uma «cultura cultivada» e uma «cultura de massas»; da reorganização da esfera editorial; da pericialização do campo da edição; do desaparecimento do papel tradicional do editor (hoje, o seu «métier» encontra-se disperso e desagregado por uma rede de actores especializados e há, além do mais, um pequeno conjunto dos chamados «novos intermediários culturais» - penso, designadamente, nos agentes). Parece-me, contudo, que há um aspecto singular - inadvertidamente escondido por detrás desse nostálgico «desencanto» - que tem sido algo negligenciado pela sociologia. Refiro-me ao «declínio da imagem tradicional da profissão de editor». Há não muitas gerações atrás, o trabalho da edição era representado quase como uma forma de arte pelos próprios editores, por leitores e por escritores. De facto, o trabalho laborioso da construção de uma «linha editorial» ou de um «projecto de edição», por meio de um esforço diligente, escrupuloso e minucioso de selecção de obras e de constituição de catálogos era, também, uma arte «nobre». De prestígio. Uma das consequências das transformações no campo da edição foi o declínio dessa representação da «edição-como-uma-arte» e a sua concomitante e progressiva «substituição» pela imagem da «edição-como-um-negócio». Será, talvez, algo abusivo falar de substituição, na medida em que a referida transição esteve, e está, longe de ser linear e absoluta. Na verdade, ambas as imagens co-existem. Mas parece, ainda assim, ser incontroverso constatar a consolidação dessa imagem da «edição-como-um-negócio» (imagem que envolve uma menor «distinção» a nível das representações colectivas, por aparentemente contaminar e poluir o ideal da arte pela arte). E, assim, essa transição parece ter retirado, de alguma forma, parte do «fascínio» e «sedução» usualmente associados à actividade editorial. Quando Nelson de Matos e Manuel Alberto Valente falam do estado da «indústria editorial» em Portugal é também nisso que parecem pensar. E, creio eu, é também disso que gostariam de falar.

Martins, Jorge M. (1999), Marketing do Livro: Materiais para uma Sociologia do Editor Português, Oeiras: Celta.
Furtado, José Afonso (1995), O que é o Livro?, Lisboa: Difusão Cultural
«Édition, Éditeurs» (1), Actes de la recherche en sciences sociales, Nº126-127, Março de 1999.
«Édition, Éditeurs» (2), Actes de la recherche en sciences sociales, Nº130, Dezembro de 1999.

Nota Adicional 1: Jorge Martins, docente do Instituto Politécnico de Tomar e investigador do CIES, encontra-se em fase de conclusão da sua tese de doutoramento no ISCTE, sob a orientação de António Firmino da Costa. "Sociologia do Livro: o Campo da Mediação na Era Digital" é o título provisório da mesma. Será, indubitavelmente, uma obra fundamental para a compreensão do campo da edição na era digital.

Nota Adicional 2: Em reacção a este texto, Manuel Alberto Valente publicou uma nota no Oceanos sobre o assunto. A essa nota seguiu-se um curioso diálogo entre o escritor Franciso José Viegas (Aviz) e o editor Nelson de Matos (Textos de Contracapa), precisamente, sobre as relações entre autores e editores. O diálogo é, de um ponto de vista sociológico, extremamente interessante, na medida em que permite ter uma visão prismática do «art world» literário (a noção de «art world» foi desenvolvida por Howard S. Becker, um dos incontornáveis da análise sociológica). Isto é, permite ter alguma noção das representações, disposições e redes relacionais entre a heterogénea constelação de agentes do campo literário: entre outros, editores, autores, agentes, livreiros (veja-se, já agora, o blogue do livreiro Vincent Bengelsdorf, Bicho Escala Estantes). Entre as mensagens de correio electrónico que recebi a propósito deste texto, quero destacar um comentário atencioso de um dos autores citados no mesmo: José Afonso Furtado, um dos principais investigadores em Portugal no(s) campo(s) em questão (e, actualmente, Director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e docente do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa). Para além de algumas observações, de carácter sociológico, sobre o texto que produzi, o autor menciona os posteriores desenvolvimentos ao seu trabalho na obra «Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação» (Lisboa: Livros e Leituras, 2000) e o seu trabalho mais recente em torno da "temática da edição em ambiente digital, a questão da edição electrónica, os problemas levantados pelas novas formas de relação com o texto e a com a leitura tradicional (...) e pelos novos suportes de leitura.". Existem dois artigos disponíveis online da sua autoria onde estas questões são desenvolvidas: «Livro e Leitura no novo Ambiente Digital» [PDF (302Kb)] e «O Papel e o Pixel» [PDF (3305Kb)] - este último desenvolvido no quadro do projecto ciberscopio.net. Para os interessados em aprofundar o tema e em compreender melhor as ameaças, oportunidades e desafios da edição na era digital são excelentes pontos de partida. Fica a sugestão.

Publicado por socioblogue em 05:50 PM | Comentários (6)

junho 20, 2003

Marcelo e o «Zapping Cultural»

Anda meio mundo na blogosfera fascinado com a intrigante «capacidade de leitura» do professor Marcelo Rebelo de Sousa (questiono-me se seleccionei o adjectivo adequado). Não constituo excepção. Depois de Ricardo de Araújo Pereira, José Pacheco Pereira, Francisco José Viegas, Nelson de Matos, Fernando Gouveia, quero também retomar o tema. Proponho, todavia, um ponto de vista diverso do que têm prevalecido. Considero que estamos perante um «facto sociológico» de relevo. MRS constitui, porventura, o ponto paroxal dos tempos de «zapping cultural» que estamos a viver (a expressão, segundo sei, é da socióloga Idalina Conde). Alguns sociólogos têm chamado a atenção para o facto da multiplicação das referências e a explosão da informação ter gerado um desconcertante efeito de «info-overload», cujas consequências imediatas seriam uma espécie, mais ou menos profunda, de «zapping cultural». Qualquer cientista social já o sentiu na pele. Com um número cada vez mais elevado de publicações disponíveis, a construção de quadros (teórico-conceptuais) de referência e a revisão do «state of the art» da literatura sobre um determinado tema, têm-se caracterizado por uma crescente diminuição da profundidade analítica, em detrimento da necessidade de cobrir a extensa pluralidade de referências e debates (a qualidade cede à quantidade, a extensividade sobrepõe-se à intensidade). A sociologia não é excepção. Neste caso, poder-se-ía mesmo arriscar dizer que a «sociologia» está a ser crescentemente substuída por uma «sociografia» (no sentido da perda de profundidade). Conseguintemente, o tempo ameaça transformar-se de «condição» num «problema». Não me desejo arvorar num crítico social (ao jeito de um «zeitdiagnostiker» alemão: Simmel, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Marcuse, Bauman...), nem num fazedor de «sociologia espôntanea», mas essa questão merece, pelo menos, alguma atenção sociológica. Ray Bradbury quando escreveu a sua notável obra distópica «Fahrenheit 451» não antecipou este problema: um mundo com livros demais para que cada «resistente» pudesse decorá-lo. Não será, quiçá, despiciendo dizer que a cultura de massas está a dar lugar a uma cultura em massa. Qual a relação deste fenómeno com MRS? Bem, MRS leva esta lógica às suas últimas consequências. Ele reduz as referências às obras ao título e a uma ou outra palavra (quando é generoso)... além de denunciar o tique (pós-modernista??) de indicar obras sem um nexo de ligação entre elas (aguardo com impaciência o dia em que iremos ser presenteados pelo desconcertante professor com listas de manuais escolares, livretes de aforismas, catálogos da «La Redoute», mapas, manuais de instruções e afins publicações). Num mundo tão cheio de informação, torna-se fundamental a «selecção» da informação... MRS limita-se a bombardear-nos com dados. É pena. Uma lista, uma boa lista (criteriosa e judiciosa), pode ser um «objecto» mobilizador. MRS não é, apenas, um (des)leitor famigerado. É, antes, uma imagem daquilo em que poderemos transformar-nos. Fica a preocupação. Apesar do apontamento sociológico não resisto a reproduzir dois comentários hilariantes sobre MRS. O primeiro é de Ricardo de Araújo Pereira (Gato Fedorento), e o segundo de José Pacheco Pereira (Abrupto).

Ricardo de Araújo Pereira
"Seja qual for a remuneração que o prof. Marcelo Rebelo de Sousa aufere pela coluna «Li e Gostei», que escreve na revista «Os Meus Livros», esse é o dinheiro mais bem ganho da imprensa portuguesa. E é uma quantia que, tenho a certeza, enfurece o pobre estagiário que passa a limpo a lista de títulos a lançar no mês em curso - aliás apropriadamente publicada ao lado da coluna do prof. Marcelo - e que é tão estimulante como o texto do professor. Na coluna deste mês (referente, portanto, às leituras que fez no mês passado), ficamos a saber que, nos 28 dias de Fevereiro último, o prof. Marcelo leu e gostou de (eu contei) 57 livros, uma revista e um calendário. E da coluna não constam, como se percebe pelo título, as obras que o professor leu e não gostou. (Ideias para crónicas do prof. Marcelo em futuros números da «Os Meus Livros»: "Li e Não Gostei", "Li Até Meio e Depois Acendi a Lareira Com Eles", "Vi na Livraria e Até Me Interessou Mas Não Me Dava Jeito Comprar Nessa Altura de Maneiras Que Ficou Para Uma Próxima".) Apesar das duas páginas a que tem direito, os títulos são tantos que o professor quase não diz uma palavra sobre os livros. E, quando diz, é mesmo só isso: uma palavra. Que, normalmente, tanto pode ser aplicada ao livro em causa como a outra coisa qualquer, tal como um vinho ou um frasco de perfume. São observações do género: «De Eça de Queirós, li "Os Maias" (excepcional); de Camilo, "O Esqueleto" (inebriante); e de Aquilino, "O Romance da Raposa" (fresquinho).» Um mérito ninguém tira ao professor: valoriza o trabalho das pequenas editoras, com particular destaque, é certo, para a editorial Minerva (arrisco dizer que o professor lê tudo o que esta editora publica), mas sem deixar de estar atento à actividade de uma Editorial Maresias, da O Mirante, da Liga dos Amigos de Sesimbra e da Paróquia da Maia (juro que é verdade). Mas nem tudo é aborrecido e inútil na coluna: no número de Setembro de 2002, o prof. Marcelo fez, na minha opinião, a sua melhor sugestão de leitura de sempre e, como assim era, dedicou, não uma, mas três palavras entre parêntesis à obra em apreço: «de Maria de Lourdes Brázio Tavares Monteiro, "A Mais Honrada Aldeia do Reino" (o Fundão intimista)». Já farto (como a generalidade dos leitores, suponho) de livros sobre a dimensão mais pública e mediática do Fundão, precipitei-me para as livrarias para adquirir a obra que dá a conhecer o lado mais intimista da localidade, antes que esgotasse. E depois, evidentemente, li e gostei."

José Pacheco Pereira.
"Só agora reparei que a coluna habitual de Marcelo Rebelo de Sousa na revista se chama "Li e gostei". Na lista dos "lidos" deste mês estão sessenta e cinco livros, mais de dois por dia, incluindo o Dicionário Prático para o Estudo do Português e Gestão de Serviços. A Avaliação de Qualidade. Isso é que é "ler"! A coluna devia era chamar-se "Faço listas de livros e gosto". Ele e Os Meus Livros. Depois queixem-se da banalização da leitura."

Publicado por socioblogue em 06:23 PM | Comentários (1)