O «Princípio de Peter» foi primeiramente proposto por Laurence Johnston Peter (1919–1990). L. J. Peter, antigo professor na University of Southern California e na University of British Columbia, viria a tornar-se famoso com a edição de uma obra com o mesmo título, editada originalmente em 1969, e hoje considerada um clássico no campo da gestão.
De acordo com o autor, em organizações burocráticas hierarquicamente estruturadas os funcionários tendem a ser promovidos acima do seu "nível de incompetência". Passo a explicar, o autor, a partir de um conjunto de observações, mostra como os funcionários costumam começar em posições hierárquicas inferiores. Porém, quando se mostram competentes na tarefa que desempenham, normalmente, são promovidos para posições hierárquicas superiores. Esse processo mantém-se até atingirem uma posição onde já não são competentes. Isto é, uma posição onde as competências que despoletaram a sua ascensão já não são as necessárias para essa mesma posição. E, por isso, visto que a despromoção não é um mecanismo habitual, as pessoas mantém-se nessas posições prejudicando a organização onde se encontram. É isso que Peter designa por "nível de incompetência" - o grau a partir do qual as pessoas já não possuem competências para a posição que ocupam. Existe, inclusivamente, um aforismo tradicionalmente atribuído a Peter e utilizado para explicar este princípio. Diz assim: "In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence”.
Este princípio é, obviamente, questionável. Em primeiro lugar, por ser culturalmente específico e apenas fazer sentido em organizações meritocráticas (ou minimamente meritocráticas). Com efeito, em determinados contextos sócio-culturais as promoções baseadas no mérito não são assim tão frequentes. Depois, por carregar algum determinismo teleológico na evolução das organizações. E os problemas associados ao "princípio de peter" não se esgotam aí.
Porém, não posso deixar de pensar no autor sempre que me deparo com algumas situações que parecem enquadrar-se, perfeitamente, no "princípio de peter". E, ultimamente, deparei-me com algumas.
Gosto de entrevistas. De as ouvir e, sobretudo, de as dissecar - coisa que faço frequentemente e, quase sempre, involutariamente. É difícil de evitar. Por vezes, vezes demais, quase impossível. E é também, julgo, um dos efeitos não intencionados da socialização sociológica. Mas não é disso que quero falar.
Por razões de índole diversa, tenho pensado bastante sobre entrevistas nas últimas semanas. Mais concretamente, sobre os discursos elaborados pelos entrevistados no contexto das entrevistas. Até agora, tenho pensado no assunto recorrendo a uma série de noções clássicas aplicadas nesse contexto: a "presentação do eu", a "mostração do eu", etc. São conceitos fundamentais na análise sociológica. Porém, por vezes, parecem-me insuficientes. Como agora. Todavia, no outro dia tive um momento de iluminação: um "aha-erlebnis". Acontece de quando em vez. A fonte de tal epifania foi, além do mais, inesperada. Também costuma acontecer.
Estava a ler um livro de Efrat Tseëlon, psicóloga social da Universidade de Oxford. Entre outras coisas, Tseëlon tem trabalhado a questão do género e as características da gestão de impressão feminina. O livro em questão intitula-se «The Masque of Femininity: The Presentation of Woman in Everyday Life» (1995). Trata, justamente, da temática que mencionei. A determinada altura - para se referir a uma questão muito específica - a autora sugere que "the presented self is not necessarily an improved self" (Tseëlon, 1995: 46). A frase, lapidar e assertiva, acompanhou-me o pensamento durante algum tempo. É daquelas coisas que me acontecem frequentemente com os jogos de palavras. Eles ficam ali a pairar dias, por vezes semanas inteiras, nos recantos da memória.
Não é fácil discordar da autora. Nem é, segundo me parece, particularmente correcto fazê-lo. Na verdade, a "presentação do eu" assume muitas formas, podendo, ou não, constituir um eu aperfeiçoado ou melhorado. Não obstante, parece-me ser necessário colocar a questão de outra forma. E, quiçá, colocar outras interrogações. Quais os impactes das entrevistas sobre a "presentação do eu" dos sujeitos? Ou seja, de que modo é que a própria forma-entrevista condiciona o tipo de mostração do eu que nelas acontece?
As interrogações parecem anódinas, bem sei. Mas não me parece que o sejam. Pelo menos não Aqui e Agora. As entrevistas generalizaram-se em grande parte das sociedades contemporâneas. É por isso natural que as pessoas se projectem na forma-entrevista quando produzem discursos e narrativas sobre si próprias. As entrevistas (biográficas) tornaram-se num quadro de referência que parece condicionar, de forma mais ou menos profunda, a forma como comunicamos.
Estou em crer que no decurso de momentos de entrevista se vai constituindo uma noção do eu muito particular - um "interviewed self" - que não é mais que o resultado da interacção entrevistador-entrevistado, da sua dinâmica relacional e das perguntas que vão sendo colocadas. Não se trata mais de uma mera "presentação do eu". Isto é, não se trata apenas disso. Esses elementos particulares típicos do contexto de entrevista parecem ter efeitos não negligenciáveis sobre a "presentação do eu" que ali se realiza. Dialecticamente, devo acrescentar. Mas o "interviewed self" não nasce da entrevista. Ele já lá está. Ele já nos habita quando, em silêncio, nos projectamos em conversas e entrevistas e nos colocamos a construir meta-narrativas explicativas da nossa vida e dos eventos que a marcam. Corrijo: que nos marcam.
Há pouco, enquanto observava a entrevista de António Lobo Antunes, dei comigo a pensar sobre estas questões. E apanhei-me a pensar, também, numa outra coisa. Enquanto via a entrevista, de vez em quando, comecei a projectar-me a mim próprio numa situação análoga. Como disse aqui em tempos, nós tendemos crescentemente a projectar interrogações que gostaríamos que nos fossem feitas sobre nós mesmos e a ensaiar respostas, mais ou menos elaboradas, a essas questões "imaginárias". Senti-o ontem quando, quase sem dar por isso, compreendi que possuo já um "interviewed self", embora quase nunca tenha sido entrevistado na minha vida. Encontro já em mim uma série de discursos, auto-narrativas elaboradas e disposições que julgo serem características da situação de entrevista. [E isso é tão mais estranho em mim quando penso na crónica relutância com que falo do meu eu e me materializo em narrativas face a outros. Inclusivamente, com as pessoas que me são mais próximas.]
Ademais, parece-me que o tipo de discurso que prevalece nos blogues também contribui para isso. E, sem dúvida, este texto é disso paradigmático...
Tseëlon, Efrat (1995), The Masque of Femininity: The Presentation of Woman in Everyday Life, London: Sage Publications.
Leio a coluna habitual do historiador José Medeiros Ferreira no Diário de Notícias. Fala de zapping. Retive, do texto, uma passagem curiosa. Falando da sua experiência, JMF confessa: "Nos filmes, sempre que prevejo a repetição de algum «encontro de corpos», lanço-me na aventura do canal após canal.". Estou longe de pensar que tal prática se trata de uma idiossincracia de JMF. Pelo contrário. Julgo ser uma atitude de desconforto frequente e que varia, significativamente, consoante o género, a idade e a classe social dos espectadores. Norbert Elias explica.
As dificuldades de transformação e a resistência à mudança estão ligadas a uma das propriedades habitualmente associadas à evolução dos sistemas sociais: a «auto-poiesis» (cf. Luhmann, 1995). O conceito «auto-poiesis» (proveniente do grego: «auto», por si mesmo; «poiesis», fazer) foi primeiramente trabalhado pelos biólogos chilenos H. Maturana e F. Varela e
posteriormente aplicado aos sistemas sociais através da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann (1995). Refere-se, sobretudo, às dinâmicas geradas num sistema que conduzem à sua circularidade, auto-produção, auto-sustentabilidade ou auto-referencialidade. Isto é, de acordo com o autor germânico, os sistemas sociais tendem a fechar-se sobre si, a criar e manter uma lógica de funcionamento virada para o interior e a reproduzir-se continuamente. Este é um problema que inúmeras organizações enfrentam. Muitas vezes, na prossecução das suas actividades uma organização desenvolve uma ritualização de práticas, uma reificação de processos, uma cristalização de procedimentos. Isso conduz, em última instância, a uma sobreposição dos «meios» face aos «fins». A organização existe com o fim de existir: a sua própria existência transforma-se no seu objectivo. Desse modo, num sistema auto-poiético «ser» e «fazer» tornam-se inseparáveis. O sistema tende a organizar-se de forma a que o seu produto seja ele mesmo. Isso não significa que esse fenómeno seja intencional, propositado ou desejado por alguns indivíduos ou grupos, embora o possa ser. Significa, apenas, que a lógica do seu funcionamento tende a sobrepor-se aos fins enunciados. A administração pública - leia-se a nossa administração pública - é a ilustração
típica de um sistema auto-poiético. Os discursos prevalecentes no debate in curso em redor do tema, mais ou menos elaborados e sofisticados, são disso um bom exemplo. Do lado dos apologistas da reforma proposta, a ênfase é colocada a nível da «racionalidade dos serviços». Do lado dos seus detractores, nota-se um centramento na questão dos «direitos dos trabalhadores». Poucos, quase nenhuns, enquadram nos seus discursos o problema dos utilizadores dos serviços públicos. Afinal, a razão destes existirem em primeiro lugar. Sintomático.
Luhmann, Niklas (1995), Social Systems, Stanford: Stanford University Press.
Nota Adicional 1: Esta observação em torno da «auto-poiesis» despertou alguns
apontamentos críticos de interesse sobre a questão. Tyler Durden, um dos cientistas sociais não praticantes no mundo dos blogues, avançou com uma nota empírica sobre o papel das fantasias de grupo em contexto de resistência à mudança organizacional [texto]. Por seu turno, Carlos de Abreu Amorim (Mata-Mouros) avança com uma análise de algumas características particulares da administração pública em Portugal à luz dos conceitos luhmannianos de .clausura organizacional. e de .lógica auto-referencial. [texto]. São dois pontos interessantes para a prossecução do debate (e vale a pena ler na medida em que são dois textos com uma profundidade analítica admirável).
Nota Adicional 2: Acabou de ser publicada uma colectânea de boas práticas e de estratégias de desenvolvimento e e-Government.
Nazaré, Luís (coord.) (2003), Mudar a Máquina: A Administração Pública na Sociedade de Informação, Lisboa: Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação [PDF (2,6Mb)]
Nas minhas viagens «arqueológicas» pelos arquivos de alguns blogues, apareceu-me um intrigante axioma: «o blog é o blogueiro» (Luis N., Ene Coisas). Esse apotegma lembrou-me uma passagem notável de Borges: «Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largo de los años puebla un espacio con imágenes de provincias, de reinos, de montañas, de bahías, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas. Poco antes de morir, descubre que ese paciente laberinto de líneas, traza la imagen de su cara.» (Jorge Luis Borges, El Hacedor).
Aquilo que se escolhe mostrar ou elidir, aquilo que queremos ser, é sempre um indicador, uma pista, daquilo que somos. Fica o apontamento.