Há uma questão que tem acompanhado, com alguma persistência, a reflexão sobre o mundo dos blogues. O que torna os blogues apelativos para pessoas que não utilizam, habitualmente, formas de CMC (além, porventura, do correio electrónico)?
A resposta a essa questão não é simples e nem deve ser, parece-me, excessivamente "generalizante". Ou seja, em quem pensa os blogues e o blogging - onde me incluo - há, muitas vezes, a tentação de tomar a parte (que se conhece) pelo todo (que se deseja conhecer). Isso conduz, assiduamente, à construção "artificial" de grupos pretensamente homogéneos de agentes: "os bloggers", "a luso-blogosfera", "a comunidade dos bloggers", etc.
Questionar o que torna os blogues apelativos pode induzir análises, excessivamente imediatas, onde se desvelam as motivações que potenciaram (e potenciam) a criação e manutenção de um blogue. Contudo, é necessária alguma cautela face a essas interpretações. Com efeito, entre o universo dos bloggers encontramos um conjunto de motivações muito diversas. Importa, por isso, que essas generalizações sejam feitas com algumas reservas.
Não obstante, tenho arriscado defender que parte significativa do apelo dos blogues se encontra no facto de serem uma plataforma de comunicação entre o "eu" e o "outro" particularmente flexível em termos de composição da imagem que se deseja projectar. Consequentemente, os blogues são, quase sempre, espaços de mediação entre aquilo que fazemos e aquilo que gostaríamos de fazer e, portanto, entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. E é em parte aí que reside o fascínio pelos blogues e pelas possibilidades que apresentam. Isto não se aplica, obviamente, a todos os blogues. Apenas a parte deles e, sobretudo, aquela parte onde é possível desvelar mais formas, explícitas ou implícitas, de "auto-narrativização" e "auto-tematização".
Este argumento está longe de responder à questão acima enunciada. Porém, ajuda-nos a compreendê-la um pouco melhor. É que se esta hipótese é consistente então é provável que o apelo dos blogues esteja associado, de alguma forma, às suas vantagens em termos de "auto-tematização" face a outros meios.
Essa "auto-tematização" é, aliás, dos aspectos mais salientes em parte significativa dos blogues.Além do mais, ela conduz - porventura inexoravelmente - à formação de um novo espaço identitário para os autores dos blogues. Ou seja, conduz à geração de uma nova dimensão do "eu". De um novo "self". No mundo dos blogues estamos, parece-me, a assistir à constituição in vivo de "online selves". O discurso e as narrativas produzidas nos blogues encontram-se muito direccionados para a produção de "narrativas do eu" e essa auto-tematização tende a fazer dos blogues pilares da identidade dos seus autores.
Pensei nisto hoje quando, no decurso das minhas viagens matinais, me deparei com um novo texto sobre os blogues. Mais um. Ademais, este é, porventura, uma das análises mais relevantes produzidas sobre este tema. Pelo menos até agora. Trata-se de um pequeno paper exploratório da autoria de dois dos mais relevantes "blogging thinkers" - Lilia Efimova (Mathemagenic) e Sebastian Fiedler (Seblogging). Intitula-se "Learning Webs: Learning in Weblog Networks" (pdf, 48kb). O artigo explora, primacialmente, a forma como edublogs, klogs e blogues de investigação - ou, como dizem os autores, "professionally oriented weblog projects" - suportam a emergência de redes de aprendizagem/ redes em aprendizagem.
[A este texto retornarei mais tarde. A reflexão dos autores sobre as potencialidades dos blogues nos campos da investigação, educação e gestão do conhecimento é incontornável para quem, como eu, possui algum interesse no assunto.]
Embora não seja esse o principal objectivo do texto, a determinada altura, Efimova e Fiedler, sugerem que "[W]hat makes Weblogs different is not the publication of content per-se, but the personalities behind them. Weblogs are increasingly becoming on-line identities of their authors. Compared to topic-centred or community centred on-line discussions, a Weblog often provides a narration of someone's feeling, thinking, reading, and experiencing." (Efimova e Fiedler, 2003: 3). Essa passagem parece corroborar, de alguma forma, o argumento acima apresentado.
Por agora, há ainda alguma nebulosidade sobre este assunto - fruto, sem dúvida, da escassez de investigações de carácter empírico sobre o tema. Mas estas são, em meu ver, hipóteses de partida sólidas e pistas de investigação interessantes na abordagem a este tópico.
Não quero concluir este pequeno texto sem produzir uma nota adicional. Começa a intrigar-me uma questão que julgo ser necessário começarmos a reflectir. Quais os impactes da constituição destes "online selves" sobre os nossos "offline selves"? A interrogação pode parecer prematura e, talvez, um pouco despropositada. Mas não me parece que o seja.
Efimova, Lilia e Sebastian Fiedler (2003), «Learning Webs: Learning in Weblog Networks», To be presented at the IADIS International Conference " Web Based Communities 2004", Lisbon, Portugal, 25-26 March 2004 [pdf, 48kb].
Entre as inúmeras passagens que me cativaram a atenção no recente artigo de Sarah Roberts, «Campus Communications & the Wisdom of Blogging» (2003) [via B2OB], detenho-me numa. "[T]he number of uses for blogs are limitless", diz a autora ao comentar o potencial dos blogues na academia. Com efeito, assim é. Ou quase. Enquanto concebia a "linha editorial" e o "conceito" do novo Socio[B]logue debati-me, por diversas vezes, com uma questão a que nem sempre soube responder satisfatoriamente. Até que ponto é que o modelo que eu idealizava para o blogue ainda tinha algumas semelhanças com a definição convencional de blogues associada aos primeiros que surgiram? Essa interrogação não é particularmente relevante. Todavia, ela é bem demonstrativa da forma como as pessoas se apropriam (criativamente) das tecnologias que têm ao seu dispor. Na verdade, são deveras curiosos os múltiplos usos dados à "ferramenta" e as possibilidades e oportunidades que daí (e aí) têm surgido. Daí, também, a dificuldade que encontramos actualmente quando procuramos definir o que é um blogue. É que "blogue", hoje, é um termo polissémico. Um blogue, nos tempos que correm, pode ser muita coisa. E são-no, frequentemente.
Sarah Roberts (2003), «Campus Communications & the Wisdom of Blogging», Syllabus Magazine, Agosto de 2003.
Como já aqui fiz referência, foi recentemente criado um blogue, o Metablogue, destinado a ir registando e arquivando os textos e os debates sobre a blogosfera e o mundo dos blogues. Essa ideia pioneira foi, como já foi também aqui mencionado, do Joaquim Paulo Nogueira (Respirar o Mesmo Ar). Uma das principais virtualidades da existência do Metablogue consiste na possibilidade de se analisar o metabloguismo, isto é, a possibilidade de se formar um discurso meta-meta-bloguista. Essa interessante potencialidade possui tantos atractivos apelativos, como levanta problemas desafiantes. Se, por um lado, permite analisar algumas das características dos esforços de pensar o mundo dos blogues, por outro lado, levanta o problema da circularidade do objecto, isto é, levanta a questão da auto-referencialidade de todos os discursos (o perigo do meta-meta-meta-bloguismo, dos discursos sobre os discursos sobre os discursos).
Apesar de consciente dessas questões e dos pertinentes problemas a elas associados, não pude deixar de fazer algumas reflexões meta-meta-bloguistas à medida a que ía recolhendo alguns trechos textuais para eventualmente integrar no Metablogue. Era, talvez, inevitável. Nesse processo, pude constatar, inadvertidamente, a recorrência de asserções avaliativas sobre a blogosfera, implícitas ou explícitas, no quadro desses discursos.
Não resisti à pulsão analítica. Peguei então em alguns desses trechos textuais, provenientes de algumas das pessoas que mais produziram discursos metabloguistas (Avatares de Um Desejo; Aviz; Abrupto; Guerra e Pas; Socio[B]logue) e apliquei, ainda que de forma pouco controlada metodologicamente, um procedimento analítico de medida de atitudes: a EAA - Evaluative Assertion Analysis (Análise de Asserção Avaliativa).
A EAA é um tipo particular de análise de conteúdo avaliativa, desenvolvida, originalmente, pelo psicólogo social C. E. Osgood, cujo propósito consiste na medição de atitudes (cf. Bardin, 1977; Krippendorf, 1980; Ghiglione e Blanchet, 1991). "Uma atitude", como sublinha Laurence Bardin, "é uma pré-disposição, relativamente estável e organizada, para reagir sob forma de opiniões (nível verbal), ou de actos (nível comportamenteal) em presença de objectos (pessoas, ideias, acontecimentos, coisas, etc.) de maneira determinada." (Bardin, 1977: 155).
Neste caso tomei como objecto de atitude (elemento sobre o qual se debruça a avaliação) a blogosfera e anotei os termos avaliativos de significação comum sobre ela produzidos numa escala de Lickert (5 valores, dois positivos, dois negativos, um valor central neutro). Embora seja necessário repetir a análise em condições mais controladas metodologicamente e com um corpus analítico mais consistente e abrangente, alguns resultados desta análise são interessantes (ainda que - frise-se - pouco conclusivos).
O principal dado que me chama a atenção é o facto de existir, nestes blogues, uma grande inconstância e descontinuidade no que respeita às atitudes manifestas face à blogosfera. Isto é, existe uma grande oscilação entre valorações positivas e negativas da blogosfera no quadro dos discursos metabloguistas destes blogues: o Socio[B]logue e o Avatares de um Desejo, apesar de apresentarem alguma variabilidade, são os que menos oscilam; por outro lado o Aviz, o Abrupto e o Guerra e Pas são os que mais oscilam (embora com algumas diferenças: em termos médios as valorações do Abrupto são mais positivas e as do Guerra e Pas mais negativas). Se seria expectável a existência de alguma oscilação - afinal, a blogosfera vai mudando e, com ela, a percepção que dela se faz -, o que é mais interessante é que, em alguns casos, verifica-se uma oscilação assinalável com intervalos relativamente diminutos (dois dias). Essa informação, apesar de precária, leva-me a colocar algumas questões: Porquê a necessidade que sentimos de avaliar a blogosfera? A que se devem estas oscilações atitudinais? Como é que os sujeitos percepcionam essa inconstância atitudinal? São questões, parece-me, que importa explorar.
Bardin, Laurence (1977 [2000]), Análise de Conteúdo, Lisboa: Edições 70. Krippendorf,
Klaus (1980), Content Analysis. An Introduction to its Methodology,
London: Sage.
Ghiglione, Rodolphe & Alain Blanchet (1991), Analyse de contenu et contenus d'analyses, Paris: Dunod.
Nota Adicional: Estes dados não são fiáveis devido a potenciais enviesamentos do corpus analítico (além do mais, normalmente são utilizados três codificadores para diminuir o problema da subjectividade da codificação das asserções avaliativas). Pretendo, por isso, repetir a experiência analítica, em breve com um pouco mais de fiabilidade. Porém, não se deve ver nestes dados mais do que aquilo que eles são: uma experiência.
Caderno A6, num texto caracterizado por uma sobriedade analítica invejável, chama a atenção para o facto da discussão em torno dos blogues ser, em seu entender, excessivamente prematura. O autor atribui essa «volúpia reflexiva» ao período de euforia que parece caracterizar, tradicionalmente, a introdução e consolidação das inovações tecnológicas. Prematura, segundo o que sugere, devido ao facto de "estarmos em plena época de blogomania". E, como acrescenta, "a blogomania, pouco diz sobre os blogs". O problema deste debate - problema, aliás, ao qual o Socio[B]logue não será alheio - não é apenas o facto de ser algo prematuro. Mas o facto de se concentrar - em excesso - na forma, obnubilando, parcial ou totalmente, o conteúdo. Ou seja, parece haver, neste momento, uma preocupação maior com os blogues, enquanto forma, o que com aquilo de que os blogues falam. Há alguns dias atrás, Torill Elvira Mortensen (Thinking With My Fingers), num contexto diverso do nosso (europa do norte; onde existe uma comunidade de blogues de investigação impressionante), parecia reportar-se à mesma questão. Evocando McLuhan, manifestava alguma preocupação "about the focus being too much turned to the form itself. As if the fact that a message is communicated by way of a blog is more important than the message." [texto]. Relembremo-nos que foi o incontornável Marshall McLuhan quem, ainda em 1964, cunhou a expressão "the medium is the message", naquele que é, sem dúvida, um dos maiores textos clássicos no campo da sociologia da comunicação. Se é evidente que é importante compreender as características deste novo meio e os impactes pessoais e sociais associados à sua utilização, parece ser igualmente óbvio que isso não justifica a sobreposição da forma ao conteúdo. Fica, portanto, a nota de culpa.
McLuhan, Marshall (1964 [1994]), Understanding Media: The Extensions of Man, London: The MIT Press
Guerra e Pas disse também: "Ocorre-me que podemos mudar de pele. Deixar este e criar outro. Start all over.". Ler o que escreveu remeteu-me, automaticamente, para um pensamento que me acompanha há algum tempo. Já aqui mencionei as palavras de Ted Nelson quando este preconiza que somos prisioneiros das aplicações que usamos. Mas serão essas as únicas limitações? Creio que não. Cada blogue, cada bom blogue, parece caracterizar-se, também, por uma coerência (que pode assumir muitas formas: uma «linha editorial», um «conceito», uma «lógica interna», um «modelo», uma «identidade», um «ethos», um «projecto», um «estilo» ou uma «estilização»). Daí que alguns bloggers, como José Pacheco Pereira (Abrupto; Estudos Sobre O Comunismo), Ana Teles (Lua; A Girl's Thoughts) ou o incansável Pedro Fonseca (Contra Factos & Argumentos; Bolas; Tecnosfera - além do Blogs em pt, em período conturbado de existência) sintam a necessidade de se dividir (ou multiplicar) em dois, ou mais, preferindo várias linhas editoriais, complementares ou alternativas, mas coerentes, a uma única linha pouco consistente. Daí, também, que Jorge Candeias (Trilha de Möbius; Lâmpada Mágica) ou Nuno Jerónimo (Blogue dos Marretas; Diário Interior) possuam, além de um blogues colectivo, um pessoal. Essas opções relativas às linhas editoriais, feitas conscientemente ou não, circunscrevem-nos também a determinados limites. Poderão os blogues de humor sair das suas linhas humorísticas ou sentir-se-ão na obrigação de as respeitar? Poderão os espaços de ciberjornalismo sair dos seus limites auto-impostos? Será que os lugares confessionais e intimistas podem quebrar a sua lógica? Poderão os eruditos, diletantes e os que buscam o prazer da sabedoria (e, portanto, também a sabedoria do prazer), romper a sua coerência? E os fotoblogues? E os blogues literários? Enfim, poderei eu, fazer do Socio[B]logue algo mais que um blogue de observações, reflexões e interrogações sociológicas? Questiono-me, então, se não seremos também coarctados pelas nossas linhas editoriais e, portanto, «prisioneiros» dos limites que nós próprios impusemos aos nossos blogues? É aqui que se joga a ambivalência: se a tecnologia nos oferece oportunidades, também nos estabelece restrições; se o fechamento do ethos do nosso blogue nos abre possibilidades, também nos determina limites. A questão pode parecer anódina, todavia, esses limites parecem condicionar, de forma decisiva, a forma como nos relacionamos com os nossos blogues (e, portanto, as «ansiedades» a isso associadas).
Nota adicional: O conhecimento científico é, por natureza, «precário», «provisório». Existem, porém, situações onde essa precareidade é amplificada. O texto aqui apresentado é disso um bom exemplo. Estamos a caminhar em terreno pouco explorado e, por isso, os «recursos conceptuais interpretativos» são escassos, senão inexistentes. Devido a essa inusitada escassez, o texto acima reproduzido não passa, possivelmente, de uma "especulação sociologicamente informada". Em sociologia é utilizado um pequeno conjunto de expressões depreciativas para
designar esse tipo de incursões sociológicas pouco fundamentadas: "sociologia de bolso", "sociologia espontânea", "street corner sociology", etc. O apontamento apresentado parece, então, ser ainda mais «precário» que as reflexões e observações sociológicas que aqui têm sido habitualmente produzidas. Mas, muitas vezes, a precareidade parece ser a única opção. Como agora. Contudo, essa precareidade inicial parece ter sido mitigada pelo debate que foi tendo lugar nos comentários a este texto. Nesse espaço foram-se discutindo algumas questões que corrigem e completam o argumento acima apresentado. No quadro deste debate deveras produtivo, Jorge Candeias notou que "um blogue acaba por construir-se um pouco como uma história, ou um livro. Um livro deve ter uma qualquer coerência interna para resultar, e nem todas as ideias que o autor tem enquanto escreve podem ser utilizadas na sua construção.". Clara M. pareceu corroborar essa argumentação ao indicar que "[u]m blogue acaba por construir-se um pouco como uma história e, mesmo inconscientemente (em alguns casos, pelo menos), vamos "seleccionando" o que pensamos pertencer-lhe". Foi adicionalmente constatado, por parte do Bruno Sena Martins, que "a disposição dos links de outros blogs por temas poderá contribuir para operar uma cristalização identitária daqilo que venha a ser a sua produção". Luis N., por sua vez, fez notar que "a criatividade exerce-se melhor em limites estritos". Em suma, de acordo com os resultados provisórios do debate, é necessário notar que a «identidade» de um blogue não é um estado, mas um processo (vai-se constituindo aos poucos). Ademais, essa constituição depende tanto do blogueiro, como da imagem que o blogueiro julga que o «outro» tem de si (nesse sentido, a categorização do outro pode influenciar a auto-classificação do eu). E essa identidade-processo (constituída na dialéctica entre o eu e o outro) constitui tanto uma limitação (por circunscrever aquilo que é afixável e o que não o é), como uma oportunidade (por poder estimular a criatividade). O «esforço colectivo» para aqui chegar foi, a meu ver, entusiasmante.
Algures entre os seus trabalhos em torno da emergência histórica do cuidado de si ("le souci de soi"), Foucault debruçou-se, num pequeno texto sombrio e pouco conhecido, sobre a «l´écriture de soi», a escrita de si mesmo, na cultura greco-romana dos séculos I e II D.C.. A escrita de si mesmo caracteriza-se pela meditação, a reflexão, o pensar sobre si mesmo. Enfim, pela elaboração de um discurso sobre o eu. É por isso que Foucault lhe chama uma "écriture éthopoiétique" (2001: 1237): escrita etho-poiética significa que essa escrita é, também, uma forma de constituição do «eu». O «eu» nasce da escrita e do que se diz. São, sobretudo, duas as formas que a escrita de si mesmo assume na cultura greco-romana: a «correspondência» e os «hupomnêmata» (cadernos pessoais que servem e «aide-mémoire», contendo citações, fragmentos de obras, exemplos morais, pequenos pensamentos e reflexões, etc.).
É, aliás, curioso notar como os blogues parecem ser uma combinação dessas duas formas de escrita etho-poiética, articulando elementos da escrita para o outro e da escrita para si mesmo. Veja-se, por exemplo, como a descrição que Foucault faz da correspondência se encontra muito próxima de algumas coisas aqui discutidas a propósito da gestão de impressão e da preocupação em redor do modo como somos percepcionados pelo outro:
"Écrire, c.est donc «se montrer», se faire voir, faire apparaître son propre visage auprès de l.autre. Et, par là, il faut comprendre que la lettre est à la fois un regard qu.on porte sur le destinataire (par la missive qu.il reçoit, il se sent regardé) et une manière de se donner à son regard par ce qu.on lui dit de soi-même.. (Foucault, 2001: 1244)
Mas porquê retomar Foucault? Uma das coisas mais fascinantes no mundo dos blogues é o seu estilo retórico prevalecente, o tipo predominante de escrita etho-poiética (isto só se aplica, evidentemente, a blogues onde há um discurso sobre o eu; os fotoblogues ou os blogues de humor possuem lógicas próprias). Ler alguns blogues, não todos, lembra-me um estilo retórico característico quer dos relatos auto-biográficos, quer das entrevistas de história de vida. Quase como se estivéssemos a assistir a entrevistas imaginárias com interlocutores imaginários (o que foi, aliás, já mencionado pelo Bruno Sena Martins).
As pessoas projectam interrogações que gostariam que lhes fossem feitas sobre si e ensaiam respostas, mais ou menos elaboradas, a essas questões imaginárias ou projectadas. Mas o que estará por trás deste estilo discursivo? O que o justifica? Como interpretá-lo? Julgo que essa forma de escrever se deve, em parte, ao facto de existir, nas sociedades ocidentais contemporâneas, uma grande reflexividade das pessoas face ao seu «eu». E essa reflexividade tem sido muito marcada pela entrevista de cariz biográfico. Com efeito, o ser-se entrevistado hoje é um indicador muito forte de sucesso: de êxito. Secretamente, ou não, parte significativa dos blogueiros gostaria de ser entrevistada. Embora seja um fenómeno de interpretação complexa, não é difícil compreender este fascínio pela entrevista. Hodiernamente, as pessoas lêem e vêem muitas entrevistas. E, naturalmente, imaginam-se entrevistadas, projectam-se nos entrevistados e elaboram discursos sobre si mesmas nessas projecções. Há, obviamente, variações: há quem se imagine a conversar com a Ana Sousa Dias, com a Bárbara Guimarães, com a Judite de Sousa ou num confessionário com a Teresa Guilherme. Mas, de um modo geral, as pessoas gostam de falar de si e possuem discursos muito elaborados sobre si mesmas: o que são, o que gostam, as suas experiências de vida, os momentos marcantes, etc... O problema é que há um hiato, uma dissociação, entre os discursos que se elaboram e os meios para os exprimir ou comunicar. Nem todos têm acesso aos meios de comunicação. Nem todos possuem formas de explicitar os discursos elaborados. Parece-me, porventura erroneamente, que o sucesso dos blogues também estará relacionado com esse aspecto: as pessoas possuem, por meio de um blogue, a oportunidade de revelar os seus discursos sobre si mesmas... ou, pelo menos, sobre algo relacionado consigo mesmas. Mas, claro, isto é apenas uma hipótese. E, como tal, especulativa, pouco consistente e discutível.
Foucault, Michel (2001), «L´Écriture de Soi», Dits et Écrits, 1954-1988, Volume II (1976-1988), Paris: Gallimard, pp. 1234-1249.
Isabel Tilly ( href="http://www.isabeltilly.blogspot.com/">Monólogo) enviou-me um contributo inestimável para a interdisciplinarização do debate em torno da questão da «gestão de impressões». Ela propõe repensarmos o que até agora foi escrito à luz do trabalho do psicólogo social Leon Festinger (1919-1987) e, em particular, da sua teoria da comparação social. De acordo com ela, essa teoria "apesar de datada (tem sido reformulada e desenvolvida no quadro das relações intergrupais) parece-me manter pertinência, já que quando pensamos nos blogs, é impossível não pensar no carácter opinativo que esta forma de comunicação assume". Ocorreu-lhe o trabalho de Festinger quando começou a pensar "se a necessidade de recebermos feedbacks, não teria a ver com esta necessidade, que Festinger operacionaliza, de validarmos socialmente as nossas opiniões e aptidões ". Aqui fica um trecho textual da autoria de Doise, Deschamps e Mugny (1980), reproduzido pela Isabel, sobre Festinger e a teoria da comparação social.
"Se, para as nossas opiniões, atitudes, crenças, não possuímos a base objectiva (física) que lhes determine a validade, dependemos das outras pessoas para as validar. (...) Perante uma superfície, um indivíduo
pode pensar que ela é quebrável ou não; pode dar uma martelada nessa superfície e convencer-se de que a opinião que tinha era certa ou errada. Se uma pessoa lhe diz que a superfície é inquebrável depois de ele a ter quebrado, isso pouco efeito terá sobre a sua opinião. Inversamente, tomemos o exemplo duma pessoa que julga que se as eleições tivessem sido ganhas pela oposição no seu país, a vida seria bem melhor: se esta opinião é partilhada, então é válida, se não, não é. "Assim, onde a dependência da realidade física é baixa, a dependência da realidade social é, de modo correspondente, alta" (Festinger, 1971). Mas para validar a opinião de um indivíduo, não é necessário que toda a gente pense como ele; basta que as pessoas do grupo a que ele se refere partilhem a sua opinião. Na óptica de Festinger, quanto mais fraco é o poder da realidade física na validade das opiniões, mais aumentem importância do grupo e a pressão para comunicar. Festinger alargou a sua teoria, em 1954, integrando-lhe a avaliação das aptidões ou capacidades do indivíduo. Com efeito, as opiniões referem-se à situação em que se encontram os sujeitos e também à avaliação da sua capacidade de acção nessa situação, portanto, às suas aptidões. As aptidões de uma pessoa manifestam-se através da suas performances. Mas há casos em que não há qualquer critério objectivo de avaliação das performances. Nessas condições, a ideia que o indivíduo faz da sua aptidão depende dos outros: a ideia que um uma pessoa tem "do seu talento para escrever poesia" depende, em larga medida, da ideia que têm os outros acerca disso. Pelo contrário, a avaliação da aptidão para correr, faz-se comparando o tempo que levam várias pessoas a percorrer a distância. As principais proposições referentes às opiniões e às capacidades na teoria da comparação social, são as seguintes: 1. Existe em todos as pessoas uma tendência para avaliar as suas opiniões e as suas aptidões pessoais. 2. Na ausência de meios objectivos não sociais, as opiniões e aptidões próprias, são avaliadas, comparando-as com as opiniões e aptidões dos outros. 3. A tendência para se comparar com o outro, diminui à medida que aumenta a diferença entre o próprio e o outro, tanto nas opiniões como nas aptidões. Portanto, no interior de um determinado campo de comparação, escolhe-se de preferência, como termos de comparação, aqueles cuja aptidão ou opinião estão mais próximos..
Retirado de: Doise, W., Deschamps, J., Mugny, G. (1980). Psicologia Social Experimental. Lisboa: Moraes Editores. (trad. port)
«Tyler Durden» (EpiCurtas), alter-ego de outroblogueiro de formação sociológica, numa pequena nota, abordou a questão que anteriormente aflorei das particularidades da «gestão de impressão» no mundo dos blogues. Partindo do trabalho de Chris Argyris e Donald A. Schön, «Durden» propõe uma revisão e reformulação do meu argumento com recurso às noções de «presunções não testadas» e «ilusão do controlo». Quem desejar dissecar e aprofundar a questão encontra ali alguns pontos de problematização interessantes.
São, primacialmente, três os argumentos que avança: (1) segundo diz, parto do pressuposto que é .possível controlar a impressão que os outros constroem sobre o «eu»., acrescenta também ao meu argumento que .[o] que temos é menos uma gestão (mensurável e, consequentemente, controlável) da impressão dos outros sobre o «eu», mas apenas mais uma . entre tantas. -manifestação da «ilusão do controlo»., na medida em que os indivíduos partem de .uma análise subjectiva, assente em premissas sobre o .outro. não testadas.; (2) questiona ainda o facto de eu classificar este fenómeno como preocupante e não apenas interessante (crítica já implícita num comentário anterior do Mário do Retorta. se o interpretei correctamente .onde ele dizia que a dependência dos blogues não é diferentes de outras formas de dependência); (3) por último, e sem conexão directa com o argumento, preconiza que ao indicar existirem outros aspectos (além do receio de dar passos em falso e da ansiedade do feedback), sem os indicar, deixo o texto em aberto por razões «tácticas».
1. [gestão de impressão e premissas não testadas] Boa parte do que diz parece-me ser clarificador, de um ponto de vista conceptual, para o que escrevi. A clarificação que propõe, sendo pertinente, não me parece entrar em contradição com o conceito de gestão de impressão. E isso na medida em que a gestão de impressão é sempre um «esforço» ou uma «tentativa» (da parte de quem a tenta) e, por conseguinte, é também um "comportamento a partir de uma análise subjectiva, assente em premissas sobre o .outro. não testadas". Parece-me que as objecções que levanta se dirigem mais à designação do conceito (questão da nomenclatura goffmaniana: gestão de impressão ou administração de impressão), do que ao seu conteúdo. E discordar da designação de um conceito, parece-me, não é sinónimo de discordar do seu conteúdo. Logo, parece-me ser uma questão a um nível epistemológico diferente da que coloca. Conseguintemente, lendo o que escreveu fez-me colocar a questão da pertinência da designação seleccionada por Goffman. E, no que a isso diz respeito, julgo que, de facto, justificar-se-ía uma outra solução.
2. [interesse e preocupação] À questão de eu considerar o fenómeno em causa tanto interessante, de um ponto de vista sociológico, como preocupante, julgo, como disse, já ter respondido anteriormente em resposta a um comentário do Mário. Penso que o fenómeno é, sem dúvida, interessante de um ponto de vista sociológico. O seu interesse não é, todavia, exclusivamente sociológico. Em pessoas com sintomatologias depressivas (ou mesmo perturbações comportamentais e psicopatias), vulneráveis ao que em psicologia clínica se designa de .crises de ansiedade., a ansiedade do feedback pode ter efeitos nefastos, por amplificar os sintomas a ela associados. Mas, como também sublinhei nesse comentário, essa questão diz respeito à psicologia clínica (e, quiçá, à psiquiatria). Não à sociologia (quer dizer, poderá ser de interesse para algumas formas de sociologia clínica ou aplicada).
3. [tácticas e estratégias] Quando disse existirem outros aspectos além do receio de dar passos em falso e da ansiedade do feedback, estava a pensar designadamente naquilo que Goffman apelida de «perturbações de desempenho» (ele enumera os gestos involuntários, as intromissões inoportunas, as cenas, entre outros). Achei desnecessário mencioná-los, não por uma questão táctica (deixar «pontos de fuga» em aberto), mas para não perturbar a clareza e coerência do argumento. Por conseguinte, esse expediente foi mais uma estratégia de simplificação, do que uma táctica de defesa, por meio da colocação de eventuais «pontos de fuga argumentativos». Só me resta agradecer ao T. Durden pelos contributos interessantes e construtivos para o debate.
Nota Adicional: Inês Amaral (Conversas de Café) menciona uma notícia sobre um estudo de carácter médico-psiquiátrico em torno do problema do «uso compulsivo da Internet» e da «dependência motivada pela rede». As categorias bio-médicas são sempre de desconfiar... ainda para mais com a crescente «medicalização» das sociedades contemporâneas. Porém, é sempre interessante saber se o nosso comportamento pode ser classificado, ou não, enquanto patológico. E, não obstante a «desconfiança e cepticismo sociológicos», fica a preocupação, já reiterada, com os efeitos potencialmente disruptores da «ansiedade do feedback»...
Lembro-me de ouvir António Lobo Antunes - julgo que em entrevista com Ana Sousa Dias - dizer que não devíamos acreditar no que dizia nas suas entrevistas, na medida em que estas propiciavam, de uma forma geral, que o autor .posasse para a eternidade. (versão literária, sofisticada e erudita do .posar para a fotografia. futebolístico). "É uma vaidade", dizia, "a que poucos conseguem escapar". Há todavia, formas muito díspares de «posar». Lobo Antunes falava, claro, da «gestão de impressão»: conceito desenvolvido por Erving Goffman (1993) para se referir aos esforços das pessoas para gerirem a imagem que os outros têm de si, por meio do controlo das impressões que projectam no(s) outro(s).
A premissa fundamental desta noção é, como sugere o psicólogo social Barry Schlenker, a de que .conscientemente ou inconscientemente, as pessoas tentam controlar as imagens que projectam para as audiências, reais ou imaginadas. (Schlenker, 1980: 304). Julgo ser cada vez mais evidente a presença na blogosfera de dois fenómenos habitualmente associados à gestão de impressão. Falo, designadamente, da «ansiedade do feedback» e do receio de «faux pas». A «a ansiedade do feedback» refere-se ao facto das pessoas mostrarem alguma ansiedade, por vezes obsessiva, com o feedback que recebem dos outros. Não deixa de ser sintomático que não existam - eu, pelo menos, não encontro - blogues sem mecanismos de «feedback» ou «interacção»: os contadores, os sistemas de comentários, os endereços de correio electrónico, os message boards, etc. Aliás, seria interessante poder analisar quantas vezes por dia é que os bloggers verificam as suas caixas de correio, os comentários recebidos ou os contadores. Por sua vez, o receio de «faux pas» reporta-se a um temor face à possibilidade de projectar uma imagem de inconsistência e incongruência (receio de cometer gaffes, de denunciar falta de cultura, etc.) que coloque a própria pessoa em causa. Estes aspectos não são, evidentemente, exclusivos do mundo dos blogues. Pelo contrário. São aspectos habitualmente associados às relações interpessoais e à interacção. O que parece estar a tornar-se característico da blogosfera é a sua amplificação. Este fenómeno é tão interessante, de um ponto de vista sociológico, como preocupante.
Goffman, Erving (1993), A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, Lisboa: Relógio D.Água.
Schlenker, Barry R. (1980), Impression management, California: Brooks-Cole
No campo da sociologia do corpo tem sido produzido, em anos recentes, algum trabalho de análise e reflexão em torno do conceito de «sobre-consciência de si» («heightened self awareness»). Essa expressão foi primeiramente desenvolvida por Drew Leder, autor norte-americano de inspiração fenomenológica, em "The Absent Body" (1990), uma das obras de referência na recente literatura sobre o corpo. A noção de «sobre-consciência de si» refere-se ao facto do corpo deter, geralmente, uma presença invisível ou ausente na nossa vida quotidiana, permanecendo num estado de infraconsciência. Essa despresença, segundo Leder, apenas é suspensa em momentos muito específicos. Mais concretamente, quando o «eu» se sente escrutinado, julgado e avaliado nas suas acções pelo olhar do «Outro». Existem
alguns conceitos sociológicos próximos ou contíguos do enunciado: penso, nomeadamente, nas noções de «hiperobjectificação do corpo» (da antropóloga prisional Manuela Ivone Cunha) e de «auto-consciência epidérmica» (do semiólogo italiano Umberto Eco).
Esta referência poderá parecer inusitada e, porventura, um tanto ou quanto irrelevante. Todavia, julgo ser possível entrever um fenómeno não muito dissemelhante no mundo dos blogues (não, obviamente corporal, mas a nível do self). Processo a que podemos chamar «sobre-consciência do eu». Com efeito, entrevê-se em muitos blogues a existência de um estado de consciência psicológico alterado dos seus autores, motivado, talvez, por uma sensação de visibilidade permanente e por estes se sentirem alvo de observação e contemplação (e, em alguns casos, de escrutínio, análise e avaliação). José Xavier escreveu agora no Satyricon que as figuras públicas na blogosfera se sentem "condicionad[a]s a ser aquilo que todos esperam del[a]s.. Se é verdade que as ditas «figuras públicas» revelam uma forma de «sobre-consciência do eu», isso não parece ser um exclusivo delas. Com efeito, se há algo que parece transparecer de boa parte dos discursos presentes na blogosfera é o facto dos bloggers ficarem muito dependentes das expectativas que projectam no outro (isto é, das expectativas que julgam que os outros têm face a si e ao que escrevem). Existem marcas discursivas - aparentemente anódinas, insignificantes ou irrelevantes - que constituem indicadores deste fenómeno. A utilização de expressões como «não sei porque falo isto», «não sou um especialista nesta matéria» e de outras formas de «auto-justificação» representam, de forma mais ou menos directa, «mecanismos de defesa» gerados pela antecipação do olhar do «outro» e constituem, de algum modo, defesas perante o escrutínio esse olhar. Assim, esse olhar é, simultaneamente, «desejado» e «receado». No discurso sociológico estas marcas também existem. São apenas um pouco diferentes: repare-se, inclusivamente aqui no Socio[B]logue, na utilização de expressões como «mas, claro, seria preciso estudar com maior detalhe estas questões» ou «mas, obviamente, os estudos sociológicos nesta área são ainda escassos». A «sobre-consciência do eu» é, sem dúvida, um dos aspectos sociologicamente mais interessantes no mundo da comunicação mediada por computador, em geral, e no mundo dos blogues, em particular. E, também, dos aspectos menos estudados. ;)
Leder, Drew (1990), The Absent Body, London: Sage.
A tentação da simplificação poder-nos-ía levar a conceber o «genderlect» feminino como internamente homogéneo. Perante essa perspectiva convém esclarecer que não é. Com efeito, existe uma plêiade heterogénea de dialectos de género femininos. Embora, claro está, existam algumas características comuns e partilhadas entre si. O melhor exemplo disso é, porventura, a Ana Teles (como eu, estudante de sociologia e minha conhecida de outras andanças sociológicas). Analisar, judiciosamente, as diferenças entre os dois blogues que mantém, revela-nos, pelo menos, duas formas distintas do dialecto de género feminino e, por isso, duas formas diversas de «mostração» e de «presentação» do eu. O Lua apresenta um estilo confessional-poético. A Girl's Thoughts tem características mais descritivas-etnográficas, mais próximas do diário ou da auto-etnografia. Apresentando ambos as características que Tannen atribui ao dialecto de género tipicamente feminino, os blogues em causa revelam diferenças, no mínimo, assinaláveis. Assim, ler a(s) Ana(s), remete-me para um conhecido conceito de um dos founding fathers da fenomenologia, Alfred Schutz. Falo da noção de «finite provinces of meaning» (noção que José Machado Pais tem traduzido como «âmbitos de significado finito»). Os âmbitos de significado finito referem-se a mundos de percepção ou âmbitos de realidade (como, por exemplo, cada pessoa tem um mundo do trabalho, um mundo familiar e um mundo individual, em esferas mais ou menos isoladas entre si). Neste caso, cada blogue da Ana constitui um âmbito de significado finito; um mundo de vida com a uma «lógica interna», uma «identidade» e um «ethos». Passar de um blogue para outro implica, então, uma ruptura: um salto de descontinuidade de uma «realidade» para outra. De um âmbito de significado finito para outro. É engraçado observar a transformação ontológica entre o tom confessional-etnográfico da «Ana-A Girl's Thouhgts» e o estilo confessional-poético da «Ana-Lua». Este caso levanta-nos, assim, interrogações sociológicas importantes quanto à questão da identidade. De facto, além de haver potencialmente uma cisão entre um «online self» e um «offline self», podemos ter ainda «online selves» diversos: um «eu digital» múltiplo. Abrem-se, assim, novas perspectivas quanto à recorrente questão fragmentação do eu na tardo-modernidade. Voltando à Ana, esta constatação parece significar que numa mesma pessoa podem estar contidas formas diversas de ser feminina e de exprimir a feminilidade. A Ana dava um estudo sociológico interessante. Ou dois.
Em alguma literatura sociológica e sociolinguística fala-se, por vezes, da existência de «genderlects», «genderlect styles» ou «gender specific dialects» (dialectos de género) - penso designadamente na linguista Deborah Tannen da Georgetown University. Esse conceito remete, segundo Tannen, para a existência de modos de comunicação muito diferentes entre géneros. Os dialectos de género manifestam-se de muitas formas: pessoas do sexo feminino tendem a utilizar, profusamente, mecanismos linguísticos como o uso do condicional, circunlóquios protocolares («será que é possível», «seria possível», etc.), signos de deferência, um discurso confessional e intimista, uma estética da vulnerabilidade, etc... Isso deve-se, ainda de acordo com Tannen, ao facto da comunicação feminina ser despoletada por um desejo de proximidade, intimidade, comunhão (numa palavra: compreensão); e a masculina por um desejo de status, respeito, concretização (numa palavra: admiração). Daí que «as mulheres» se foquem mais na esfera privada e «os homens» na esfera pública.
Apesar das limitações da perspectiva da autora (porventura, os estereótipos de género não são adequadamente desmontados e as generalizações pouco rigorosas), o conceito é interessante. Eu acrescentaria, ao que a autora afirma, que o processo de construção social do género envolve, não só dialectos de género, mas a constituição de gramáticas emocionais distintas, de vocabulários «gendrificados» e de léxicos emocionais particulares. Lembrei-me dos dialectos de género ontem, depois de ter recebido uma mensagem de correio electrónico deveras atenciosa da autora de um dos blogues mais bonitos da blogosfera, a Isabel Tilly do Monólogo, significativamente sub-intitulado «acontecimentos significativos do meu dia a dia». É um espaço sublime: confessional, intimista, frágil, familiar, reservado, delicado, sensível, terno e afectuoso. Enfim, «feminino». Ela ontem escreveu o seguinte: "quem ler o meu blog percebe que pertenço ao "género feminino". tenho pena que a pertença me molde o discurso (e o pensamento). alguma vez o abrupto escreveria sobre sentimentos de desamparo, falta de auto-confiança, alterações de humor? não creio...".
Eu também não. O problema, na blogosfera, é que há um claro predomínio de um dialecto de género masculino. O tema por cá não tem tido impacte, mas lá fora muito se tem falado do «blog gender gap», do «gender gap in Blogville» ou do «Venus-Mars divide in Blogville» como lhe chama a jornalista-blogger Lisa Guernsey (Lisa Guernsey's Weblog) . autora de um artigo no The New York Times sobre o assunto intitulado «Telling all online: it's a man's world (isn't it?)» (tomei a liberdade de o disponibilizar online: vale a pena ler na totalidade). Diz a autora que: ."i>Women want to talk about their personal lives. Men want to talk about anything but. So far the people who have received the most publicity (often courtesy of male journalists) appear to be the latter". Por isso, segundo Guernsey, as mulheres tendem a escrever diários e os homens a falar de temas menos pessoais (de política, economia, literatura... e sociologia; não sendo generalizável, parece ser evidente que isto acontece, em grande medida, na lusosfera). Lisa Guernsey não é socióloga. Mas podia ser.
Deambular pela blogosfera permite-nos dar conta esta ser um espaço predominantemente masculino (Socio[B]logue incluído). Com efeito, o dialecto de género prevalecente (e hegemónico) na blogosfera está mais perto dos «Sopranos» do que do «Once and Again». Esse facto, não sendo surpreendente, não deixa - ainda assim - de ser curioso.
Obrigado Isabel. Pela mensagem atenciosa e pelo Monólogo.
Guernsey, Lisa (2002, 28 de Novembro), Telling all online: it's a man's
world (isn't it?), The New York Times. [html]
Apesar do pensamento e teoria sociais (ainda) ocuparem um espaço diminuto na blogosfera, regozijo com algumas das menções que por aí se fazem. João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos) fala em Roland Barthes; Almocreve das Petas em Michel Maffesolli, Pierre Bourdieu, Mike Featherstone (e tem ligações para materiais de e sobre Jean Baudrillard e Jürgen Habermas); Pedro Mexia (Dicionário do Diabo) refere Max Weber; Bruno Sena Martins (Avatares de um Desejo) e Tiago de Oliveira Cavaco (Voz do Deserto) mencionam Michel Foucault; Rui Grilo (5minutos) alude a Richard Sennett; Francisco José Viegas (Aviz) aflora George Steiner, Jürgen Habermas e Michel Foucault. Além de não faltarem, também por aí, pessoas associadas à esfera (campo, sistema ou arena, dependendo da escola de pensamento) das ciências sociais: investigadores, professores e estudantes (de história, psicologia social, sociologia e antropologia). Falo, designadamente, de Nuno Jerónimo (sociologia, Diário Interior, Blogue dos Marretas), Miguel Vale de Almeida (antropologia, Os Tempos que Correm), José Pacheco Pereira (história, Abrupto, Estudos sobre o Comunismo), Rui Branco (história, País Relativo), Pedro Adão e Silva (sociologia, País Relativo), Miguel Cabrita (sociologia, País Relativo), Filipe Nunes (sociologia, País Relativo), Bruno Sena Martins (antropologia, Avatares de um Desejo), Ana Teles (sociologia, A Girl's Thoughts, Lua), Isabel Tilly (psicologia social, Monólogo). O pensamento e teoria sociais não são uma ausência na esfera, são uma «ausência presente». Melhor: uma (des)presença. O fenómeno intriga-me. Talvez Jill Walker e Torill Mortensen, gestores de dois dos mais relevantes blogues de investigação (respectivamente o jill/txt e o thinking through my fingers), tenham razão quando sugerem que "[academics] are so used to studying new technologies as exotic objects that they fail to see that they could be useful within academia itself" (2002: 263) [eu substituiria o termo académicos por investigadores, que podem não o ser]. Ou, porventura, estarei, de facto, a cometer as ingenuidades que o Almocreve das Petas me parece apontar. Recordando o incontornável Herberto Hélder, não será despeciendo dizer que "talvez o senhor seja mais inteligente do que eu" (Os Passos em Volta, p.12).
Mortensen, Torill e Jill Walker (2002), «Blogging thoughts: personal publication as an online research tool», in Andrew Morrison (ed.) (2002), Researching ICTs in Context, Oslo: InterMedia Report, 3/2002 [disponível online em pdf]
Das primeiras vezes que entrevistei ex-reclusos deparei-me com aquilo a que chamei nas minhas notas de «síndroma Robinson Crusoe»: quando lhes é dada a oportunidade para falarem (e, mais concretamente, para falarem sobre si) é, geralmente, difícil «travá-los», na medida em que os seus discursos fluem de uma forma deveras impressionante. Sucedem-se, então, os episódios anódinos e as historietas (estorietas?) prisionais. Isso deve-se, segundo António Pedro Dores (sociólogo especializado nas questões da reclusão), ao estarem demasiado confinados às mesmas pessoas e às mesmas histórias e, por isso, quando encontram gente exótica que se interessa pelo que dizem (como eu), tendem a auto-tematizar-se e a desmultiplicar-se em palavras até terminarem. Normalmente por exaustão (do investigador ou dos próprios). É interessante constatar a presença do síndroma Robinson Crusoe na blogosfera desde as suas variantes mais simples («a minha vida dava um poste» [se blog é blogue, post é poste, não?] e «a minha vida dava um blogue»), até às suas variantes mais sofisticadas («a minha vida dava um estudo sociológico»). Não refiro, sequer, as variantes mais especializadas, desde as mais populares («a minha vida dava um canal de televisão da sic na tvcabo», «a minha vida dava um bar de alterne»), às mais eruditas («a minha vida dava uma peça de Schönberg», «a minha vida dava um filme de Bergman», «a minha vida dava uma obra de Beckett», «a minha vida dava um ensaio de Steiner», etc.). Fazendo uma autoscopia é forçoso reconhecer que eu próprio, nos primeiros dias (que ainda não terminaram) . e apesar do meu esforço deliberado de contenção . pareço ter sucumbido à tentação. Com efeito, julgo não ter resistido (suficientemente) ao inusitado fenómeno. Por conseguinte, interrogo-me: será que estive até agora encarcerado no meu «self offline»? Fica a pergunta.
Anne Galloway do «Purse Lip Square Jaw» - o blogue de investigação que já aqui mencionei - comentou o Socio[B]logue levantando algumas questões quanto aos limites da utilização dos blogues como instrumentos de pesquisa. Vale a pena ler o que diz com atenção, na medida em que apresenta algumas limitações técnicas associadas aos blogues (que ainda não tinha visto exploradas na blogosfera), mencionando outras ferramentas de potencial interesse, designadamente wikis, twikis, blikis ou plone [consultar os websites http://www.snipsnap.org/, http://www.wiki.org/ e http://www.wikipedia.org/].
"Since João Nogueira's very interesting Socio[B]logue showed up in my referrer logs, I have been thinking about the use of weblogs for research purposes. Like PLSJ, his blog serves as a type of field diary: "Observaçoes, Reflexoes e Interrogaçoes Sociologicas." And I would agree with him that the possibilities for blogging in social research remain underexplored. But I think that there are a few technical features built into common weblog applications that limit exploration, connection, expression and communication - all of which are integral to research. For example, Blogger doesn't offer the ability to organise posts into categories like Movable Type, but even so, that type of archiving does nothing to connect posts across boundaries. I'm with Ted Nelson on this one, we are prisoners of our applications and hypertext was originally conceived as something much more flexible and beautiful. Blogs make it difficult to understand connections that are not based on discrete categories, and I also fail to see the ability of temporally linear posting to forge new connections. And so I am going to experiment. Inspired by Kurzweil- never thought I'd say that! - when I have some free time next month, I plan to install The Brain here, and have it act as a means of connecting posts to each other, and to outside pages. We'll just have to see how it works..."
Enfim, parece haver um mundo por explorar - parafraseando Huxley, um admirável mundo novo - no que respeita à utilização de inovações tecnológicas como ferramentas de trabalho. Obrigado Anne.
As potencialidades de fertilização mútua entre blogues e as ciências sociais são animadoras. Direi mais: excitantes. Por um lado, os blogues constituem um objecto de estudo interessante no que respeita à chamada CMC (comunicação mediada por computador) no quadro da Sociologia da Comunicação (e, mais concretamente, naquilo que se vem designando de Sociologia dos Espaços Virtuais ou Sociologia do Ciberespaço). Daí se explica o surgimento de alguns blogues dedicados ao estudo sociológico e antropológico do fenómeno. Explore-se o PhD Weblogs para se aceder a alguns desses interessantes blogues. Destaco, a este respeito, o «Purse Lip Square Jaw» de Anne Galloway e «Life's A Blog» de Nurul Asyikin - este último já deu, inclusivamente, origem à tese «Blogging Life - An Inquiry into the Role of Weblogs in Community Building (pdf)». Mas os blogues não constituem apenas um objecto de investigação interessante, eles abrem também oportunidades e possibilidades animadoras para investigadores: falo, claro, dos os chamados «blogues de investigação» (research weblogs). Possibilidades animadoras, em primeiro lugar, para o debate científico (quer dentro de cada disciplina, quer multidisciplinar) e para a divulgação científica. Servem, ainda, como espaços de reflexão para lançar observações e pistas de pesquisa (normalmente perdidas em notas de rodapé ou em escritos de gaveta). Finalmente, abrem possibilidades - frise-se: ainda insuficientemente exploradas - enqaunto instrumentos de suporte ou apoio à pesquisa (fico deveras estimulado de pensar, por exemplo, na possibilidade de conduzir um exercício etnográfico, com recurso ao trabalho de campo ou metodologias contíguas utilizando, embora com algumas reservas, um blogue enquanto diário de campo). No campo dos blogues de investigação quero destacar, nas áreas da história, o «Estudos sobre o comunismo» (José Pacheco Pereira), da geografia, o «UrbanGeoBlog» (W. Scott Whitlock), da sociologia, o «Purse Lip Square Jaw» (Anne Galloway) da antropologia, o «Anthroblog» (R. S. P.) e o «Os Tempos Que Correm» (Miguel Vale de Almeida) (não sendo, propriamente, um blogue de investigação, estou certo que o autor não nos deixará de presentear esporadicamente com alguns apontamentos antropológicos). Uma palavra de apreço adicional para o projecto visionário PhD Weblogs gerido pelo atencioso António Granado,projecto que procura servir de espaço de referência para os «blogues de investigação».
Nota: No contexto científico, não quero deixar de mencionar adicionalmente o ABC - Arquivo Bibliográfico para publicações Científicas: que, não sendo um blogue, é um espaço virtual com... virtualidades assinaláveis (perdoe-se a redundância).