O «Princípio de Peter» foi primeiramente proposto por Laurence Johnston Peter (1919–1990). L. J. Peter, antigo professor na University of Southern California e na University of British Columbia, viria a tornar-se famoso com a edição de uma obra com o mesmo título, editada originalmente em 1969, e hoje considerada um clássico no campo da gestão.
De acordo com o autor, em organizações burocráticas hierarquicamente estruturadas os funcionários tendem a ser promovidos acima do seu "nível de incompetência". Passo a explicar, o autor, a partir de um conjunto de observações, mostra como os funcionários costumam começar em posições hierárquicas inferiores. Porém, quando se mostram competentes na tarefa que desempenham, normalmente, são promovidos para posições hierárquicas superiores. Esse processo mantém-se até atingirem uma posição onde já não são competentes. Isto é, uma posição onde as competências que despoletaram a sua ascensão já não são as necessárias para essa mesma posição. E, por isso, visto que a despromoção não é um mecanismo habitual, as pessoas mantém-se nessas posições prejudicando a organização onde se encontram. É isso que Peter designa por "nível de incompetência" - o grau a partir do qual as pessoas já não possuem competências para a posição que ocupam. Existe, inclusivamente, um aforismo tradicionalmente atribuído a Peter e utilizado para explicar este princípio. Diz assim: "In a hierarchy, every employee tends to rise to his level of incompetence”.
Este princípio é, obviamente, questionável. Em primeiro lugar, por ser culturalmente específico e apenas fazer sentido em organizações meritocráticas (ou minimamente meritocráticas). Com efeito, em determinados contextos sócio-culturais as promoções baseadas no mérito não são assim tão frequentes. Depois, por carregar algum determinismo teleológico na evolução das organizações. E os problemas associados ao "princípio de peter" não se esgotam aí.
Porém, não posso deixar de pensar no autor sempre que me deparo com algumas situações que parecem enquadrar-se, perfeitamente, no "princípio de peter". E, ultimamente, deparei-me com algumas.
No Sublinhar [via Icosaedro], evoca-se Dostoievsky e a sua reflexão sobre a escrita de um diário. Diz assim:
"Em 1876, Fiódor Dostoievsky começa a publicação de uma folha mensal que pretendia que fosse "um diário íntimo, em toda a acepção da palavra, isto é, um fiel relato do que mais me interessou pessoalmente." Ou seja, algo muito parecido com um blog. Mas três meses depois ele escreve: "Custa a crer, mas é verdade, ainda não encontrei a forma do Diário, e não sei se algum dia encontrarei... Assim, tenho 10 ou 15 assuntos (pelo menos) para tratar, quando me sento para escrever. Todavia, os meus assuntos preferidos, afasto-os involuntariamente. Ocupar-me-iam demasiado espaço, exigiriam demasiado ardor da minha parte... e, deste modo, não escrevo o que me agrada. Por outro lado, imaginei com demasiada ingenuidade que se trataria de um autêntico "Diário". Um verdadeiro "Diário" é impossível; só se pode fazer um diário artificialmente preparado para o público...".
Este trecho é, com efeito, uma passagem inolvidável. E, quando o leio, não deixo de me identificar com algumas das coisas que são ditas. Penso, designadamente, na forma como a temporalidade dos blogues difere daquela presente em outras escritas. A relevância deste aspecto, desta "dissociação de temporalidades", não deve ser desconsiderada. Com efeito, o tempo dos blogues pode aprisionar-nos e podemos tornar-nos, de forma inconsciente e involuntária, reclusos desse tempo.
Há uma questão que tem acompanhado, com alguma persistência, a reflexão sobre o mundo dos blogues. O que torna os blogues apelativos para pessoas que não utilizam, habitualmente, formas de CMC (além, porventura, do correio electrónico)?
A resposta a essa questão não é simples e nem deve ser, parece-me, excessivamente "generalizante". Ou seja, em quem pensa os blogues e o blogging - onde me incluo - há, muitas vezes, a tentação de tomar a parte (que se conhece) pelo todo (que se deseja conhecer). Isso conduz, assiduamente, à construção "artificial" de grupos pretensamente homogéneos de agentes: "os bloggers", "a luso-blogosfera", "a comunidade dos bloggers", etc.
Questionar o que torna os blogues apelativos pode induzir análises, excessivamente imediatas, onde se desvelam as motivações que potenciaram (e potenciam) a criação e manutenção de um blogue. Contudo, é necessária alguma cautela face a essas interpretações. Com efeito, entre o universo dos bloggers encontramos um conjunto de motivações muito diversas. Importa, por isso, que essas generalizações sejam feitas com algumas reservas.
Não obstante, tenho arriscado defender que parte significativa do apelo dos blogues se encontra no facto de serem uma plataforma de comunicação entre o "eu" e o "outro" particularmente flexível em termos de composição da imagem que se deseja projectar. Consequentemente, os blogues são, quase sempre, espaços de mediação entre aquilo que fazemos e aquilo que gostaríamos de fazer e, portanto, entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. E é em parte aí que reside o fascínio pelos blogues e pelas possibilidades que apresentam. Isto não se aplica, obviamente, a todos os blogues. Apenas a parte deles e, sobretudo, aquela parte onde é possível desvelar mais formas, explícitas ou implícitas, de "auto-narrativização" e "auto-tematização".
Este argumento está longe de responder à questão acima enunciada. Porém, ajuda-nos a compreendê-la um pouco melhor. É que se esta hipótese é consistente então é provável que o apelo dos blogues esteja associado, de alguma forma, às suas vantagens em termos de "auto-tematização" face a outros meios.
Essa "auto-tematização" é, aliás, dos aspectos mais salientes em parte significativa dos blogues.Além do mais, ela conduz - porventura inexoravelmente - à formação de um novo espaço identitário para os autores dos blogues. Ou seja, conduz à geração de uma nova dimensão do "eu". De um novo "self". No mundo dos blogues estamos, parece-me, a assistir à constituição in vivo de "online selves". O discurso e as narrativas produzidas nos blogues encontram-se muito direccionados para a produção de "narrativas do eu" e essa auto-tematização tende a fazer dos blogues pilares da identidade dos seus autores.
Pensei nisto hoje quando, no decurso das minhas viagens matinais, me deparei com um novo texto sobre os blogues. Mais um. Ademais, este é, porventura, uma das análises mais relevantes produzidas sobre este tema. Pelo menos até agora. Trata-se de um pequeno paper exploratório da autoria de dois dos mais relevantes "blogging thinkers" - Lilia Efimova (Mathemagenic) e Sebastian Fiedler (Seblogging). Intitula-se "Learning Webs: Learning in Weblog Networks" (pdf, 48kb). O artigo explora, primacialmente, a forma como edublogs, klogs e blogues de investigação - ou, como dizem os autores, "professionally oriented weblog projects" - suportam a emergência de redes de aprendizagem/ redes em aprendizagem.
[A este texto retornarei mais tarde. A reflexão dos autores sobre as potencialidades dos blogues nos campos da investigação, educação e gestão do conhecimento é incontornável para quem, como eu, possui algum interesse no assunto.]
Embora não seja esse o principal objectivo do texto, a determinada altura, Efimova e Fiedler, sugerem que "[W]hat makes Weblogs different is not the publication of content per-se, but the personalities behind them. Weblogs are increasingly becoming on-line identities of their authors. Compared to topic-centred or community centred on-line discussions, a Weblog often provides a narration of someone's feeling, thinking, reading, and experiencing." (Efimova e Fiedler, 2003: 3). Essa passagem parece corroborar, de alguma forma, o argumento acima apresentado.
Por agora, há ainda alguma nebulosidade sobre este assunto - fruto, sem dúvida, da escassez de investigações de carácter empírico sobre o tema. Mas estas são, em meu ver, hipóteses de partida sólidas e pistas de investigação interessantes na abordagem a este tópico.
Não quero concluir este pequeno texto sem produzir uma nota adicional. Começa a intrigar-me uma questão que julgo ser necessário começarmos a reflectir. Quais os impactes da constituição destes "online selves" sobre os nossos "offline selves"? A interrogação pode parecer prematura e, talvez, um pouco despropositada. Mas não me parece que o seja.
Efimova, Lilia e Sebastian Fiedler (2003), «Learning Webs: Learning in Weblog Networks», To be presented at the IADIS International Conference " Web Based Communities 2004", Lisbon, Portugal, 25-26 March 2004 [pdf, 48kb].
A partir dos trabalhos de Michel Foucault (1963) e de alguns autores pós-foucauldianos - a expressão não é a melhor, bem sei - sobre a medicina nas sociedades contemporâneas, generalizou-se, na literatura sociológica e historiográfica, o uso das expressões «le regard clinical» ou «le regard médical» - o olhar clínico. Penso, designadamente no trabalho de autores como Bryan S. Turner (1992, 1995), Deborah Lupton (1994), David Armstrong (1994), Paul Atkinson (1995) ou Nick Fox (1993) [consultar adicionalmente os interessantes volumes colectivos organizados por Colin Jones e Roy Porter (1994) e, pouco depois, por Alan Petersen e Robin Bunton (1997)].
Essas expressões são utilizadas, amiúde, com o propósito analítico de desmontar o dispositivo exegético bio-médico que permite o diagnóstico a partir de sintomas superficiais e irrelevantes. De acordo com essa literatura, esse olhar é, sobretudo, um olhar "objectificante". Um olhar que codifica os corpos e os reduz a objectos de observação.
O olhar sociológico não é diferente. Primeiro estranha-se. Depois, lentamente, entranha-se. E não é pouco. Onde eu via vizinhos, vejo hoje "relações sociais de vicinato". Onde eu observava ricos e pobres, observo hoje "sistemas e estruturas de classe" e "grupos de status". As conversas sobre afectos transformaram-se em "discursos da conjugalidade e de sexualidade". Para onde quer que olhe vejo uma realidade codificada: campos, sistemas, esferas, actores, sujeitos, agentes, discursos, narrativas, economias de bens simbólicos, etc. Enfim, uma construção sociológica da realidade: uma matriz de (re)interpretação dessa realidade.
E não é, advirto, apenas uma mera questão de substituição de "expressões". Longe disso. Sempre que entro no metro entretenho-me a analisar as "estruturas proxémicas e quinésicas" dos passageiros e a desconstruir os seus "projectos de corporeidade". Quando participo em conversas dedico-me a desmontar as "para-linguagens" e o uso de "recursos seguros" por parte dos meus interlocutores. São disposições incorporadas. Faço-o "automaticamente" e sem uma intenção deliberada de o fazer. E é nesses momentos que o meu superego sociológico - sim, ele existe - começa a actuar forçando a reflexividade sobre as minhas acções... É então que me ponho a pensar que este olhar não é menos objectificante que o olhar clínico e me apercebo das (muitas) similitudes entre os dois dispositivos exegéticos.
Este "olhar" é, ademais, quase omnipresente... e reflexivo (ou auto-reflexivo). Daí que produza, com inusitada frequência, textos como este em que desconstruo o "olhar sociológico" recorrendo, para o fazer, ao meu "olhar sociológico". Enfim, são, como diria Raymond Boudon, os "efeitos perversos" do meu processo de incorporação da sociologia.
Armstrong, David (1994), «Bodies of Knowledge/ Knowledge of Bodies», in Colin Jones e Roy Porter (eds.) (1994), Foucault: Power, Medicine and the Body, London: Routledge.
Atkinson, Paul (1995), Medical Talk and Medical Work: The Liturgy of the Clinic, London: Sage Publications.
Foucault, Michel (1963 [1993]), Naissance de la Clinique, Paris: Quadrige/ PUF .
Fox, Nick (1993), Postmodernism, Sociology and Health, Buckingham: Open University Press.
Jones, Colin e Roy Porter (eds.) (1994), Foucault: Power, Medicine and the Body, London: Routledge.
Lupton, Deborah (1994), Medicine as Culture: Illness, Disease and the Body in Western Societies, Londres: Sage Publications.
Petersen, Alan e Robin Bunton (eds.) (1997), Foucault, Health and Medicine, London: Routledge.
Turner, Bryan S. (1992), Regulating Bodies: Essays in Medical Sociology, London: Routledge.
Turner, Bryan S. (1995), Medical Power and Social Knowledge, London: Sage Publications.
Entre as inúmeras passagens que me cativaram a atenção no recente artigo de Sarah Roberts, «Campus Communications & the Wisdom of Blogging» (2003) [via B2OB], detenho-me numa. "[T]he number of uses for blogs are limitless", diz a autora ao comentar o potencial dos blogues na academia. Com efeito, assim é. Ou quase. Enquanto concebia a "linha editorial" e o "conceito" do novo Socio[B]logue debati-me, por diversas vezes, com uma questão a que nem sempre soube responder satisfatoriamente. Até que ponto é que o modelo que eu idealizava para o blogue ainda tinha algumas semelhanças com a definição convencional de blogues associada aos primeiros que surgiram? Essa interrogação não é particularmente relevante. Todavia, ela é bem demonstrativa da forma como as pessoas se apropriam (criativamente) das tecnologias que têm ao seu dispor. Na verdade, são deveras curiosos os múltiplos usos dados à "ferramenta" e as possibilidades e oportunidades que daí (e aí) têm surgido. Daí, também, a dificuldade que encontramos actualmente quando procuramos definir o que é um blogue. É que "blogue", hoje, é um termo polissémico. Um blogue, nos tempos que correm, pode ser muita coisa. E são-no, frequentemente.
Sarah Roberts (2003), «Campus Communications & the Wisdom of Blogging», Syllabus Magazine, Agosto de 2003.
Gosto de entrevistas. De as ouvir e, sobretudo, de as dissecar - coisa que faço frequentemente e, quase sempre, involutariamente. É difícil de evitar. Por vezes, vezes demais, quase impossível. E é também, julgo, um dos efeitos não intencionados da socialização sociológica. Mas não é disso que quero falar.
Por razões de índole diversa, tenho pensado bastante sobre entrevistas nas últimas semanas. Mais concretamente, sobre os discursos elaborados pelos entrevistados no contexto das entrevistas. Até agora, tenho pensado no assunto recorrendo a uma série de noções clássicas aplicadas nesse contexto: a "presentação do eu", a "mostração do eu", etc. São conceitos fundamentais na análise sociológica. Porém, por vezes, parecem-me insuficientes. Como agora. Todavia, no outro dia tive um momento de iluminação: um "aha-erlebnis". Acontece de quando em vez. A fonte de tal epifania foi, além do mais, inesperada. Também costuma acontecer.
Estava a ler um livro de Efrat Tseëlon, psicóloga social da Universidade de Oxford. Entre outras coisas, Tseëlon tem trabalhado a questão do género e as características da gestão de impressão feminina. O livro em questão intitula-se «The Masque of Femininity: The Presentation of Woman in Everyday Life» (1995). Trata, justamente, da temática que mencionei. A determinada altura - para se referir a uma questão muito específica - a autora sugere que "the presented self is not necessarily an improved self" (Tseëlon, 1995: 46). A frase, lapidar e assertiva, acompanhou-me o pensamento durante algum tempo. É daquelas coisas que me acontecem frequentemente com os jogos de palavras. Eles ficam ali a pairar dias, por vezes semanas inteiras, nos recantos da memória.
Não é fácil discordar da autora. Nem é, segundo me parece, particularmente correcto fazê-lo. Na verdade, a "presentação do eu" assume muitas formas, podendo, ou não, constituir um eu aperfeiçoado ou melhorado. Não obstante, parece-me ser necessário colocar a questão de outra forma. E, quiçá, colocar outras interrogações. Quais os impactes das entrevistas sobre a "presentação do eu" dos sujeitos? Ou seja, de que modo é que a própria forma-entrevista condiciona o tipo de mostração do eu que nelas acontece?
As interrogações parecem anódinas, bem sei. Mas não me parece que o sejam. Pelo menos não Aqui e Agora. As entrevistas generalizaram-se em grande parte das sociedades contemporâneas. É por isso natural que as pessoas se projectem na forma-entrevista quando produzem discursos e narrativas sobre si próprias. As entrevistas (biográficas) tornaram-se num quadro de referência que parece condicionar, de forma mais ou menos profunda, a forma como comunicamos.
Estou em crer que no decurso de momentos de entrevista se vai constituindo uma noção do eu muito particular - um "interviewed self" - que não é mais que o resultado da interacção entrevistador-entrevistado, da sua dinâmica relacional e das perguntas que vão sendo colocadas. Não se trata mais de uma mera "presentação do eu". Isto é, não se trata apenas disso. Esses elementos particulares típicos do contexto de entrevista parecem ter efeitos não negligenciáveis sobre a "presentação do eu" que ali se realiza. Dialecticamente, devo acrescentar. Mas o "interviewed self" não nasce da entrevista. Ele já lá está. Ele já nos habita quando, em silêncio, nos projectamos em conversas e entrevistas e nos colocamos a construir meta-narrativas explicativas da nossa vida e dos eventos que a marcam. Corrijo: que nos marcam.
Há pouco, enquanto observava a entrevista de António Lobo Antunes, dei comigo a pensar sobre estas questões. E apanhei-me a pensar, também, numa outra coisa. Enquanto via a entrevista, de vez em quando, comecei a projectar-me a mim próprio numa situação análoga. Como disse aqui em tempos, nós tendemos crescentemente a projectar interrogações que gostaríamos que nos fossem feitas sobre nós mesmos e a ensaiar respostas, mais ou menos elaboradas, a essas questões "imaginárias". Senti-o ontem quando, quase sem dar por isso, compreendi que possuo já um "interviewed self", embora quase nunca tenha sido entrevistado na minha vida. Encontro já em mim uma série de discursos, auto-narrativas elaboradas e disposições que julgo serem características da situação de entrevista. [E isso é tão mais estranho em mim quando penso na crónica relutância com que falo do meu eu e me materializo em narrativas face a outros. Inclusivamente, com as pessoas que me são mais próximas.]
Ademais, parece-me que o tipo de discurso que prevalece nos blogues também contribui para isso. E, sem dúvida, este texto é disso paradigmático...
Tseëlon, Efrat (1995), The Masque of Femininity: The Presentation of Woman in Everyday Life, London: Sage Publications.
Este meu retorno não significa, apenas, o regresso do Socio[B]logue. Representa, também, a reinvenção do Metablogue.
Na verdade, nas últimas semanas o projecto Metablogue sofreu algumas alterações. Melhor: cresceu. Desenvolveu-se. Com efeito, está hoje bem diferente daquilo que foi. Uma das principais diferenças entre o velho e o novo Metablogue consiste, fundamentalmente, na nova equipa de editores/ colaboradores: Joaquim Paulo Nogueira (Respirar o Mesmo Ar), Bruno Sena Martins (Avatares de Um Desejo), Pedro Fonseca (ContraFactos & Argumentos), Paulo Querido (o vento lá fora) e Ferran Moreno (Un Que Passava). Além, claro, de mim próprio. Mas há outras...
Um dos efeitos não intencionados e mais perniciosos da minha "ausência" da blogosfera foi, justamente, a paralização, ainda que parcial, do Metablogue. Facto que lamento. Profundamente.
Independentemente dessas considerações, olhando hoje para trás parece-me ser necessária uma saudação e um agradecimento especiais para quem teve, originalmente, a ideia do Metablogue e a procurou, laboriosamente, implementar. Falo, claro, do Joaquim. Fica aqui a manifestação possível de admiração, respeito e amizade.
O prometido é devido. Depois de um longo período de ausência o Socio[B]logue está, finalmente, de regresso. A casa ainda está em obras. Se é que alguma vez deixou de o estar. Existe, de momento, uma pequena dissociação entre o "backstage" e o "frontstage" do blogue. Ao blogue actual falta-lhe, ainda, o novo template; alguns elementos adicionais de natureza técnica; e, sobretudo, algumas componentes de gestão e organização da informação. Contudo, está prometida, para breve, a finalização (provisória) do novo template e a sua colocação em funcionamento.
Face ao antigo Socio[B]logue (http://www.socioblogue.blogspot.pt/) apresentam-se aqui algumas novidades: arquivos temáticos, trackback, um arquivo de documentos (directório), etc. A nível dos conteúdos introduzem-se, também, algumas alterações de relevo. Dessas destacam-se a existência de espaços regulares de carácter semanal ou quinzenal, colaborações, ciclos temáticos, entre outros.
Uma das inovações no Socio[B]logue - porventura, a principal - será a já referida existência de ciclos temáticos onde, durante alguns dias, geralmente uma semana, os textos do Socio[B]logue tratarão apenas um tema ou um campo de conhecimento. Esses ciclos contarão com a colaboração de alguns convidados especiais que irão apresentar contribuições sobre os temas em debate. No decurso desses ciclos temáticos tudo o que for publicado - textos, ensaios, bibliografias, biografias, recensões de obras, entradas de glossário, etc. - estarão, em princípio, em consonância com o tema ou campo focado.
Nos próximos dias a nova filosofia e a nóvel lógica de funcionamento do Socio[B]logue será explicada com maior detalhe.
Devo ainda, bem o sei, um sincero pedido de desculpas a todas as pessoas que me têm escrito. O Socio[B]logue afastou-se, um tanto ou quanto abruptamente, do mundo dos blogues. Causou, por isso, algumas desilusões, muitos desapontamentos e uma quantidade dificilmente contabilizável de impaciências. Fui vítima, posso dizê-lo, do incontornável "syndrome de chronos" (Ettighoffer e Blanc, 1998) e da minha crónica dificuldade em lidar com ambientes desestruturados. Este longo período de ausência deve-se, por isso e acima de tudo, à singular conjunção de um "schedule overload" com uma "info-overload" a que não soube responder convenientemente.
Por conseguinte, este regresso - ainda hesitante - é palco de algumas emoções difusas: a "angústia da ausência", o "medo da dependência", a "expectativa do segundo albúm". Enfim... as coisas do costume. Espero, por isso, que este retorno não defraude as expectativas de quem o esperava (com maior ou menor ansiedade).
Não quero, ainda, deixar de marcar este regresso com os meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que me foram escrevendo e encorajando a regressar. Nunca foi minha intenção abandonar, definitivamente, a blogosfera. Apesar da habitual relação de amor/ódio que quase todos nós bloggers mantemos com os nossos blogues sempre estive seguro de que queria regressar. E que iria regressar. Todavia, não queria fazê-lo sem que o Socio[B]logue pudesse ser aquilo que eu queria que ele fosse. E, não o sendo ainda e não tendo perspectivas de que a curto prazo o possa ser, ele está, ainda assim, um passo mais próximo de o ser.
Os blogues são sempre, quase sempre, espaços de mediação entre aquilo que fazemos e aquilo que gostaríamos de fazer. Entre aquilo que somos e aquilo que gostaríamos de ser. E este não é, seguramente, uma excepção.
É bom estar de volta.
Ettighoffer, Denis e Gérard Blanc (1998, Le Syndrome de Chronos: Du Mal Travailler au Mal Vivre, Paris: Editions Dunod.