McDonaldização. Termo controverso originalmente cunhado e desenvolvido por George Ritzer, sociólogo norte-americano da Universidade de Maryland, para se referir à radicalização do processo de racionalização nas
sociedades contemporâneas. McDonaldização, diz-nos Ritzer, "é o processo pelo qual os princípios do restaurante de comida rápida estão a dominar cada vez mais sectores da sociedade norte-americana, bem como do resto do mundo" (Ritzer, 1993:1; nossa tradução). Esse processo assenta então, segundo o autor, na consolidação e generalização do modelo da indústria da "fast-food" enquanto paradigma organizacional e social predominante na contemporaneidade. Esse paradigma, crescentemente hegemónico, fundamenta-se em cinco princípios básicos: eficiência, calculabilidade, previsibilidade, controlo acrescido e substituição de tecnologia humana por tecnologia não-humana. Após a publicação da obra de Ritzer, um clássico da análise sociológica dos anos noventa, alguns autores procuraram reformular o argumento do autor recorrendo a termos não menos originais. Alan Bryman, por exemplo, tem proposto um conceito improvável e inaudito: a «disneyzação da sociedade».
Ritzer, George (1993), The McDonaldization of Society, Thousand Oaks: Pine Forge Press.
Como já aqui fiz referência, foi recentemente criado um blogue, o Metablogue, destinado a ir registando e arquivando os textos e os debates sobre a blogosfera e o mundo dos blogues. Essa ideia pioneira foi, como já foi também aqui mencionado, do Joaquim Paulo Nogueira (Respirar o Mesmo Ar). Uma das principais virtualidades da existência do Metablogue consiste na possibilidade de se analisar o metabloguismo, isto é, a possibilidade de se formar um discurso meta-meta-bloguista. Essa interessante potencialidade possui tantos atractivos apelativos, como levanta problemas desafiantes. Se, por um lado, permite analisar algumas das características dos esforços de pensar o mundo dos blogues, por outro lado, levanta o problema da circularidade do objecto, isto é, levanta a questão da auto-referencialidade de todos os discursos (o perigo do meta-meta-meta-bloguismo, dos discursos sobre os discursos sobre os discursos).
Apesar de consciente dessas questões e dos pertinentes problemas a elas associados, não pude deixar de fazer algumas reflexões meta-meta-bloguistas à medida a que ía recolhendo alguns trechos textuais para eventualmente integrar no Metablogue. Era, talvez, inevitável. Nesse processo, pude constatar, inadvertidamente, a recorrência de asserções avaliativas sobre a blogosfera, implícitas ou explícitas, no quadro desses discursos.
Não resisti à pulsão analítica. Peguei então em alguns desses trechos textuais, provenientes de algumas das pessoas que mais produziram discursos metabloguistas (Avatares de Um Desejo; Aviz; Abrupto; Guerra e Pas; Socio[B]logue) e apliquei, ainda que de forma pouco controlada metodologicamente, um procedimento analítico de medida de atitudes: a EAA - Evaluative Assertion Analysis (Análise de Asserção Avaliativa).
A EAA é um tipo particular de análise de conteúdo avaliativa, desenvolvida, originalmente, pelo psicólogo social C. E. Osgood, cujo propósito consiste na medição de atitudes (cf. Bardin, 1977; Krippendorf, 1980; Ghiglione e Blanchet, 1991). "Uma atitude", como sublinha Laurence Bardin, "é uma pré-disposição, relativamente estável e organizada, para reagir sob forma de opiniões (nível verbal), ou de actos (nível comportamenteal) em presença de objectos (pessoas, ideias, acontecimentos, coisas, etc.) de maneira determinada." (Bardin, 1977: 155).
Neste caso tomei como objecto de atitude (elemento sobre o qual se debruça a avaliação) a blogosfera e anotei os termos avaliativos de significação comum sobre ela produzidos numa escala de Lickert (5 valores, dois positivos, dois negativos, um valor central neutro). Embora seja necessário repetir a análise em condições mais controladas metodologicamente e com um corpus analítico mais consistente e abrangente, alguns resultados desta análise são interessantes (ainda que - frise-se - pouco conclusivos).
O principal dado que me chama a atenção é o facto de existir, nestes blogues, uma grande inconstância e descontinuidade no que respeita às atitudes manifestas face à blogosfera. Isto é, existe uma grande oscilação entre valorações positivas e negativas da blogosfera no quadro dos discursos metabloguistas destes blogues: o Socio[B]logue e o Avatares de um Desejo, apesar de apresentarem alguma variabilidade, são os que menos oscilam; por outro lado o Aviz, o Abrupto e o Guerra e Pas são os que mais oscilam (embora com algumas diferenças: em termos médios as valorações do Abrupto são mais positivas e as do Guerra e Pas mais negativas). Se seria expectável a existência de alguma oscilação - afinal, a blogosfera vai mudando e, com ela, a percepção que dela se faz -, o que é mais interessante é que, em alguns casos, verifica-se uma oscilação assinalável com intervalos relativamente diminutos (dois dias). Essa informação, apesar de precária, leva-me a colocar algumas questões: Porquê a necessidade que sentimos de avaliar a blogosfera? A que se devem estas oscilações atitudinais? Como é que os sujeitos percepcionam essa inconstância atitudinal? São questões, parece-me, que importa explorar.
Bardin, Laurence (1977 [2000]), Análise de Conteúdo, Lisboa: Edições 70. Krippendorf,
Klaus (1980), Content Analysis. An Introduction to its Methodology,
London: Sage.
Ghiglione, Rodolphe & Alain Blanchet (1991), Analyse de contenu et contenus d'analyses, Paris: Dunod.
Nota Adicional: Estes dados não são fiáveis devido a potenciais enviesamentos do corpus analítico (além do mais, normalmente são utilizados três codificadores para diminuir o problema da subjectividade da codificação das asserções avaliativas). Pretendo, por isso, repetir a experiência analítica, em breve com um pouco mais de fiabilidade. Porém, não se deve ver nestes dados mais do que aquilo que eles são: uma experiência.
Rede. "O uso mais geral para o termo «rede» é para uma estrutura de laços entre os actores de um sistema social. Estes actores podem ser papéis, indivíduos, organizações, sectores ou estados-nação. Os seus laços podem basear-se na conversação, afecto, amizade, parentesco, autoridade, troca económica, troca de informação ou qualquer outra coisa que constitua a base de uma relação." (Nohria & Eccles, 1992: 288).
Nohria, Nitin e Robert G. Eccles (eds.) (1992), Networks and Organizations: Structure, Form, and Action, Boston: Harvard Business School Press.
Na semana que passou foram divulgados alguns resultados de um estudo da autoria de José Murta Cadima, licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra e assistente graduado de Clínica Geral e Medicina Familiar, no âmbito da sua tese de mestrado de Sexologia na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Intitula-se «Estudo do Modo de Vida Swinger em Portugal» (consultar o artigo do Correio da Manhã intitulado Aumenta Troca de Casais, 21-07-2003).
As principais conclusões desse estudo apontam, segundo o que foi publicado, para o aumento da troca de casais, uma das formas de relacionamento sexual alternativo. Curioso é que muito pouco se disse acerca das pertenças sociais dos «swingers» (classes sociais, grupos de status, posições socio-económicas ou níveis de instrução; as informações publicadas indicam apenas que a maioria dos «swingers» inquiridos possui profissões nos domínios do trabalho intelectual, de investigação e de direcção). Tal "omissão", ainda que relativa, é tanto mais relevante quando os estudos sociológicos sobre a vida familiar, amorosa e sexual têm apontado para a prevalência de valores, atitudes e práticas hedonistas e experimentalistas - de que o «swinging» é uma expressão - sobretudo entre aqueles pertencentes a grupos socioeconómicos favorecidos e com níveis mais elevados de instrução e escolaridade (cf. Pais, 1998 e Vasconcelos, 1998).
Porém, mais importante do que a negligência das pertenças sociais dos inquiridos, é interessante analisar, ainda que superficialmente, os dados estatísticos avançados. De acordo com o estudo, a iniciativa para a troca de casais é, fundamentalmente, masculina. Os resultados do inquérito indicam que, entre os adeptos da troca de casais, cerca de 53,3 por cento das mulheres respondeu que a iniciativa partiu dos seus cônjuges e 46,7 por cento que foram ambos a sugeri-lo. Note-se que, segundo as respostas, nenhuma mulher o propôs. Por outro lado, quando a mesma questão é colocada ao género oposto, 66,7 assumiu a sugestão e 33,3 por cento atribuiu a ambos. Nenhum respondeu que a iniciativa tenha sido dos seus cônjuges. Apesar das diferenças de género (quiçá atribuíveis ao facto dos membros do género feminino desejarem, mais do que os membros do género oposto, passar uma imagem de mútuo acordo, reciprocidade e consenso) não deixa de ser relevante o facto de nos 54 «swingers» inquiridos - um terço do total de 162 inquiridos - não existir um único caso onde a iniciativa tenha sido primacialmente feminina.
Esta prevalência do primeiro passo masculino não é exclusiva do caso português, pois, como nota o psicanalista Willy Pasini referindo-se à realidade francesa, "[l]'initiative vient le plus souvent des hommes". Essa afirmação foi publicada na quinta-feira no novo número da revista Nouvel Observateur. A publicação em causa intitula-se «Sexe: Ces Français Qui Osent Tout...» e explora as questões do «echangisme», «mélangisme» e «triolisme», com contributos do sociólogo Daniel Welzer-Lang, do filósofo Dominique Folscheid, do psiquiatra Philippe Brenot, do sexólogo Jacques Waynberg e do próprio Willy Pasini, psicanalista. A interpretação do fenómeno e destes números não é fácil. Bem pelo contrário.
Se, por um lado, estas informações parecem sustentar a tese de Anthony Giddens de que as transformações da intimidade nas sociedades contemporâneas passam pela consolidação daquilo que designa de «relação pura», «amor confluente» e «sexualidade plástica» (Giddens, 1996); por outro lado não há dados que apontem para a generalização destas práticas. Pelo contrário. Apesar das induções e abduções abusivas de alguns investigadores, estas práticas parecem continuar circunscritas a grupos sociais bem delimitados tanto social, como culturalmente. Todavia, há pelo menos um dado que não oferece ambiguidades interpretativas. Os dados avançados, tanto em Portugal como em França, parecem apontar para a permanência daquilo que em Psicologia Social se costuma designar por «efeito Coolidge», isto é, "[a] importância que a variedade de parceiros sexuais (reais e imaginários) assume para o sexo masculino" (Alferes, 1997: 141). A predominância da iniciativa masculina é disso um indicador não menosprezável. A exegese destes dados é controversa: onde alguns vêm o copo meio cheio, outros vêm o copo meio vazio. Eu sou dos que vêm o copo meio vazio. Não deixa de ser curioso que mesmo entre os apologistas destas práticas - pessoas que preconizam uma ética experimentalista, baseada em valores modernizantes e anti-tradicionalistas, que manifestam uma aceitação de formas periféricas de sexualidade e que utilizam abundantemente palavras como igualdade e equidade nos seus discursos para caracterizar as suas relações - como dizia, não deixa de ser curioso que mesmo entre estas pessoas permaneçam indicadores a revelar assimetrias de género como estas. Sintomático.
Alferes, Valentim R. (1997), Encenações e Comportamentos Sexuais: Para Uma Psicologia Social da Sexualidade, Porto: Afrontamento.
Giddens, Anthony (1996), Transformações da Intimidade, Oeiras: Celta Editora.
Pais, José Machado (1998), «Vida Amorosa e Sexual», in José Machado Pais (coord.) (1998), Gerações e Valores na Sociedade Portuguesa Contemporânea, Lisboa: ICS, 407-468.
Vasconcelos, Pedro (1999), «Práticas e Discursos da Conjugalidade e de
Sexualidade dos Jovens Portugueses», in Manuel Villaverde Cabral e José Machado Pais (coord.) (1999), Jovens Portugueses de Hoje, Oeiras: Celta Editora.
Vasconcelos, Pedro (1998), «Vida Familiar», in José Machado Pais
(coord.) (1998), Gerações e Valores na Sociedade Portuguesa
Contemporânea, Lisboa: ICS, 321-406.
Credencialismo. Conceito de inspiração weberiana desenvolvido, primacialmente, por Frank Parkin para se referir à "utilização inflacionada dos certificados educacionais como meio de monitorizar a entrada para posições chave na divisão do trabalho" (Parkin, 1979: 54, nossa tradução).
Parkin, Frank (1979), Marxism and Class Theory: A Bourgeois Critique, Londres: Tavistock.
Foram recentemente publicitados os resultados do Estudo Global do Futebol Português realizado pela D&T (Deloitte & Touch) por encomenda da Liga de Clubes (como noticiado por vários órgãos de imprensa durante a semana e ontem no Expresso numa peça intitulada Futebol com Novo Guião).
Segundo se diz, o estudo é particularmente exaustivo e, embora não adiante nada que já não se saiba, estabelece-se como uma referência para a reorganização do mundo do futebol. O diagnóstico aponta para os problemas do costume: desequilíbrio financeiro; sistemas de controlo e gestão deficientes; desalinhamento entre as políticas salariais e a capacidade financeira dos clubes; hiato entre receitas e encargos; recorrentes incumprimentos salariais e fiscais; etc. A solução integrada proposta pela equipa de consultores da D&T passa pela potenciação de novas fontes de receitas; a reformulação do modelo desportivo; a adopção de políticas desportivas mais racionais; a adopção de tectos para as despesas; a aposta na formação; o investimento na especialização dos agentes; entre outros.
Num exercício hermenêutico notável, Valentim Loureiro, presidente da Liga de Clubes, veio ontem dizer a público que em virtude das "conclusões" apontadas no estudo (peso do futebol no PIB, no mercado de emprego e enquanto produto-bandeira nacional) era necessário que o Estado satisfizesse uma extensa lista de reinvindicações. Neste caso trata-se de uma empresa de consultoria e auditoria, mas episódios análogos ou similares são frequentes em estudos de carácter científico.
O episódio em questão parece irrelevante: inócuo. Não é. O episódio relatado é sintomático de uma determinada atitude face ao conhecimento produzido pelos «especialistas». Uma atitude - frise-se - particularmente frequente entre nós. Os sistemas abstractos como os saberes especializados e a ciência possuem, apesar de tudo, uma capacidade de legitimação considerável nas sociedades contemporâneas. Veja-se, a título exemplificativo, o próprio caso do Socio[B]logue na blogosfera e o modo como existe, por parte de algumas pessoas, alguma deferência face ao que aqui é escrito, apesar de todas as indicações face às suas limitações e carácter não científico. Apesar da presença de uma atitude ambivalente face à ciência nas sociedades contemporâneas - entre a reverência e a dúvida, como dizia Maria Eduarda Gonçalves (2002) -, os consultores científicos ocupam, ainda, uma posição priviligiada quando se trata de legitimar decisões e posições de índole política [para um entendimento da posição da ciência na contemporaneidade, consultar os volumes colectivos organizados por Maria Eduarda Gonçalves (1993, 1996, 2000, 2002) e João Arriscado Nunes e Maria Eduarda Gonçalves (2001)].
Mas não é a questão da legitimação de que me quero ocupar. É da atitude. Pela sua representação simbólica enquanto um saber independente, autónomo e neutral axiologicamente (resquícios positivistas), a ciência emerge como o parceiro ideal no processo de legitimação de decisões políticas. Isso faz com que existam, frequentemente, tentativas de apropriação abusivas desse conhecimento por parte de agentes políticos. A forma como Valentim Loureiro descartou o núcleo central da proposta da D&T para a reorganização da esfera do futebol e aproveitou alguns dados dispersos apresentados no estudo para apresentar as suas reinvidicações como se fossem esses os primaciais resultados do estudo é uma atitude comum entre nós. Excessivamente comum. Mas, de longe, o mais interessante sociologicamente é constatar como é frequente o silêncio dos «especialistas» face a essas apropriações abusivas e indevidas. Trata-se, porventura, um dos efeitos da dependência económica, bem o sei. E, levando isso em consideração, não é irrelevante que sempre que surgem estas «apropriações criativas», geralmente, pouco ou nada se ouve dos «especialistas» - e isto apesar do assinalável volume de produção no campo da sociologia da ciência, onde algumas destas questões são afloradas, com maior ou menor profundidade (cf. Gonçalves, 1993, 1996, 2000, 2002; Nunes e Gonçalves, 2001). É mais um daqueles silêncios ensurdecedores.
Gonçalves, Maria Eduarda (coord.) (1993), Comunidade Científica e Poder, Lisboa: Edições 70.
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (1996), Ciência e Democracia, Venda Nova, Bertrand.
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (2000), Cultura Científica e Participação
Pública, Oeiras, Celta.
Gonçalves, Maria Eduarda (org.) (2002), Os Portugueses e a Ciência: Entre a Reverência e a Dúvida, Lisboa: Dom Quixote.
Nunes, João Arriscado e Maria Eduarda Gonçalves (org.) (2001), Enteados de Galileu?: A Semiperiferia no Sistema Mundial da Ciência, Porto: Edições Afrontamento.
Intradução. Os livros, como outros produtos culturais, podem ser exportados ou importados. Essa importação ou exportação pode ser feita por meio de originais ou através de tradução. Intradução refere-se à importação literária sob a forma de tradução. Inversamente, a extradução reporta-se à exportação sob a forma de tradução. Portugal, por exemplo, é, tradicionalmente, um país com uma elevada taxa de intradução, por oposição a países cujas taxas de intradução são exíguas como, por exemplo, o Reino Unido ou os Estados Unidos da América. Este termo é aplicado nos campos da sociologia da edição, do livro e da literatura e foi desenvolvido por autores como Pascale Casanova ou Joseph Jurt, entre outros.
José Bragança de Miranda (Reflexos de Azul Eléctrico), autor consagrado no campo da Sociologia da Comunicação e blogger proeminente (e prolixo), dedicou, recentemente, algumas linhas esparsas a Michel Foucault. Mais especificamente, o autor debruçou-se sobre a conhecida analogia onde Foucault compara o seu trabalho com a construção de uma pequena «caixa de ferramentas» [texto].
Bragança de Miranda parece reportar-se a uma mítica entrevista do autor francês com R.-P. Droit, publicada no diário francês Le Monde, a 21 de Fevereiro de 1975. Foucault concluiu então essa entrevista sugerindo que "un livre est fait pour servir à des usages non définis par celui qui l'a écrit". Logo acrescentou: "tous mes livres (...) sont, si vous voulez, de petites boîtes à outils", exortando de seguida os seus leitores a "les ouvrir, se servir de telle phrase, telle idée, telle analyse" (Foucault, 1975: 1588).
Bragança de Miranda promove, a partir de Foucault, um exercício reflexivo onde explora essa analogia da relação entre as ferramentas (os instrumentos conceptuais ou as formulações teóricas) e os operários (os investigadores). E, como sublinha o autor, incisivamente, "há operários e operários". Concretizando: "Aqueles que estão de mãos à obra e têm a intuição suficiente para ir buscar a ferramenta certa na caixa que têm ao lado, e ao longo do trabalho vão desarrumando a caixa sem nunca perderem o sentido da ferramenta, indo com mão segura buscá-la, tacteando com certeza, sem precisar de olhar para ela. No fim do dia a caixa está toda desarrumada, e o servente de operário vai arrumar as ferramentas por espécies, tamanhos e funções, de modo a se poder continuar a trabalhar. Existem ainda outro tipo de operários que gastam o tempo a arrumar a caixa, são contra a desordem que baralha todas as ferramentas e criam sistemas para que o desarrumar seja controlado ou seja impossível. A caixa está bem arrumada... mas a obra não chega a começar. São operários... teóricos.".
As palavras de Bragança de Miranda não são somente significativas do ponto de vista da análise do trabalho dos investigadores. Com efeito, elas exemplificam, também, uma atitude que foi emergindo, sensivelmente, no último quarto de século do século XX. O que passou. Entre nós, o expoente máximo dessa atitude é, talvez, José Machado Pais, devido - primacialmente - à forma inovadora e original como utiliza as formulações teóricas e conceptuais de forma criativa enquanto instrumentos heurísticos de pesquisa. Assim, o autor contrapõe à convencional "cultura de finalidade" uma "cultura de recriação", isto é, ele suplanta a utilização da teoria numa "lógica demonstrativa (finalista)" por meio do seu uso numa "lógica de descoberta (criativa)" (Pais, 2001: 103). Essa postura «criativa» não é, todavia, pacífica. Longe disso. De facto, muitos autores olham com desconfiança para «apropriações excessivamente criativas» dos produtos do seu labor. Curiosamente, ou não, encontramos em Foucault o inverso dessa atitude. Disso é emblemática a sua célebre abertura do curso de 1976 no Collége de France, "Il Faut Defendre la Sociétè". Dizia então aos seus numerosos ouvintes: "...considero-os inteiramente livres para fazer, com o que eu digo, o que quiserem. São pistas de pesquisa, idéias, esquemas, pontilhados, instrumentos: façam com isso o que quiserem. No limite, isso me interessa, e isso não me diz respeito. Isso não me diz respeito, na medida em que não tenho de estabelecer leis para a utilização que vocês lhes dão. E isso não me interessa, na medida em que, de uma maneira ou de outra, isso se relaciona, isso está ligado ao que eu faço." (Foucault, 2000: 4) Bragança de Miranda, na sua análise dos «tipos de operários», esqueceu-se de mencionar aqueles que gostam de partilhar as suas caixas de ferramentas. Não é, porventura, difícil de perceber porquê. Não há muitos.
Foucault, Michel (1975), «Des supplices aux cellules» (Entrevista com R.-P. Droit), in Michel Foucault (2001), Dits et Écrits, 1954-1988, Volume I
(1954-1975), Paris: Gallimard, pp. 1584-1588.
Foucault, Michel (2000), Em Defesa da Sociedade, São Paulo: Martins Fontes.
Pais, José Machado (2001), Ganchos, Tachos e Biscates: Jovens, Trabalho e Futuro, Porto: Âmbar.
Nota Adicional 1: Bragança de Miranda (Reflexos de Azul Eléctrico) desenvolveu já o argumento que antes produzira. Voltando à caixa faz notar como esta "é ainda uma ilusão de coerência, pois a ter sentido acaba por se confundir com a totalidade da existência". Conclui dizendo: "Os que pensam poder compartilhar a caixa são teóricos da «caixa», sempre demasiado lentos quando a ocasião irrompe. Aqueles que, nesse preciso instante, estiverem juntos encontrarão as ferramentas de que estão precisados. Ou não...". É perante palavras como estas que o Socio[B]logue se sente
pequenino. Minúsculo.
Nota Adicional 2: Saiu agora o terceiro número da revista Surveillance
& Society. É um número temático intitulado «Foucault and Panopticism Revisited». Quem se interessa pelas questões do «controlo social», do «panopticismo» e da «vigilância» encontra ali alguns artigos interessantes.
Sociologia. "[Sociologia é] o que fazem os sociólogos" (Costa, 1992: 9).
Costa, António Firmino da (1992), Sociologia, Lisboa: Difusão Cultural.
O Socio[B]logue, depois de um breve interregno introspectivo, está de volta aos textos regulares. Regressa, também, com uma imagem renovada, uma nova filosofia e uma nóvel lógica de funcionamento. Além das reflexões e observações habituais, o Socio[B]logue inaugura, também, espaços novos. Regulares. Antes, porém, das novidades impõe-se uma clarificação daquilo que o Socio[B]logue é (ou melhor, daquilo que tem vindo a ser), na medida em que parece subsistir, em algumas das mensagens que recebo, alguma nebulosidade face aos propósitos deste blogue. O Socio[B]logue não é um espaço "científico". Está, na realidade, longe de o ser. A ciência rege-se por métodos, procedimentos e protocolos bem definidos que não se compadecem com imediatismos (neste caso não existem mecanismos de controlo metodológicos, o «peer review», etc.). O Socio[B]logue é, apenas, um espaço que procura produzir observações sociologicamente informadas sobre determinados fenómenos à medida das suas limitações. As minhas, entenda-se. O seu primacial propósito é, portanto, o de funcionar enquanto uma espécie de laboratório de experimentação sociológica. E não tem pretensões de ser algo mais do que isso. Essa opção implica, evidentemente, algumas reservas face ao que aqui é escrito, devido, primacialmente, à precareidade do conhecimento aqui produzido e apresentado. Por conseguinte, este espaço é apenas um albúm heterogéneo e assiduamente desordenado de reflexões, notas, apontamentos, notações, observações, considerações, impressões, comentários, indicações, pistas de pesquisa, interrogações, questões, problemas, curiosidades, informações, esboços, fragmentos, experiências, experimentações e escritos de gaveta sociológicos. Isto é, sociologicamente informados. Francisco José Viegas, em tempos, referiu-se a isso como «fazer sociologia em directo» [texto]. Em sociologia designamo-lo por «street corner sociology», «sociologia de bolso», «sociologia espontânea» (Pierre Bourdieu) ou «sociologia portátil» (Claude Javeau). A produção de conhecimento sociológico, científico, encontra-se nos antípodas do que aqui se faz. Demora, geralmente, longos meses ou anos a ser preparada e levada a cabo. Implica, por isso, um trabalho meticuloso, moroso, contínuo e aprofundado. Árduo. Envolve, também, um conhecimento muito especializado e extensivo sobre um determinado tema, um campo de saber e/ou um objecto de estudo. Todavia, no decurso desses longos processos de investigação vão sendo produzidas inúmeras observações sobre outros temas (contíguos, análogos, transversais, paralelos, marginais, etc.) que assumem a forma de pistas de pesquisa para projectos posteriores; observações esporádicas de interesse; curiosidades; etc. Essas impressões ficam, quase invariavelmente, perdidas na espuma dos dias, escondidas em gavetas sombrias ou relegadas para as margens e notas de pé de página das nossas vidas de todos os dias. Quase tudo o que publico no Socio[B]logue são observações dessa natureza - marginais e periféricas às minhas próprias preocupações sociológicas. Assim, quase tudo o que está contido no blogue são temas sobre os quais possuo um conhecimento algo limitado, tanto em termos de fundamentação teórica, como de conhecimento empírico. E essas limitações são devidas não somente à minha condição de aprendiz de sociólogo, mas também às próprias características deste espaço. Fica a clarificação. Como já foi referido, além das reflexões e observações habituais, o Socio[B]logue introduz agora alguns «aperfeiçoamentos».
*Glo [Glossário]: De periodicidade diária. Diariamente será afixada uma breve defiinção de um conceito sociológico ou antropológico. A fonte de inspiração para este espaço encontra-se num dos blogues no qual o Socio[B]logue se fundamentou inicialmente - sem dúvida, um dos melhores e um dos mais citados mundialmente. Falo de How to learn Swedish in 1000 difficult lessons do jornalista norte-americano Francis Strand. Actualmente a residir em Estocolmo na Suécia com o seu companheiro, Strand apresenta sempre, juntamente com os seus textos, a definição de uma palavra ou expressão sueca. Assim, não só reflecte a sua aprendizagem da língua, como vai partilhando esse processo com os seus leitores. Essa ideia parece ser, aliás, um óptimo veículo de aprendizagem (auto e hetero). E, por isso, o Socio[B]logue procura transpô-la para o campo sociológico. As definições apresentadas serão, habitualmente, retiradas de dicionários de sociologia, de glossários existentes ou consistirão em definições originais (sempre que não se tratarem de originais a fonte é, obviamente, indicada).
*Liv [Livro da Semana]: De periodicidade semanal. Será apresentado, todas as semanas, um livro no campo das ciências sociais, juntamente com uma breve recensão sobre o mesmo.
*Bib [Bibliografia]: De periodicidade quinzenal. De quinze em quinze dias será afixada uma pequena bibliografia sobre um tema, um objecto de estudo ou um campo sociológico.
*Bio [Biografia]: De periodicidade mensal. Todos os meses será exposta uma pequena biografia de um autor no campo das ciências sociais.
*De vez em quando existirão semanas temáticas onde se procurará que exista uma consistência e uma temática comum em parte significativa dos posts, livros recomendados, bibliografias e entradas do glossário. Será inusitado recordar que serão bem vindos quaisquer contributos e/ou sugestões para estes novos espaços.
Nota adicional 1: Joaquim Paulo Nogueira (Respirar o Mesmo Ar) criou agora um blogue intitulado Metablogue. O Metablogue pretende ser um observatório de discursos metabloguistas, ou melhor, uma espécie de arquivo do metabloguismo: um espaço que procurará ir registando e arquivando os textos e os debates sobre a blogosfera e o mundo dos blogues. O autor convidou-me para o ajudar - o que aceitei prontamente. Espera-se que seja uma ferramenta útil para quem deseja pensar sobre o mundo dos blogues.
Nota adicional 2: Nos próximos dias os textos terão uma cadência maior que a habitual de modo a colocar a escrita em dia (estou em dívida para com o Pedro Fonseca, a Isabel Tilly, o Pedro Sanches e o Mário Pires). Tenho, ainda, que desculpar por este período de maior inconstância e descontinuidade.
Já aqui falei, por mais de uma vez, do trabalho da antropóloga Manuela Ivone Cunha. A ela retorno. Não raramente, há palavras que ficam a pairar nas ruelas da nossa memória. Por vezes, muitas vezes, frases inteiras. Desde que terminei de ler «Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos» uma dessas frases recorrentes, enredantes, tem-me acompanhado. "[H]oje como outrora", diz Manuela Ivone Cunha, "é menos incisiva a fronteira entre os que se acham presos e os que estão em liberdade do que entre as populações que têm a prisão no horizonte e as que a não têm" (2002: 334). A asserção parece excessiva, bem sei. Talvez até hiperbólica. Não é. Praticamente todos os estudos sobre prisões em Portugal, quantitativos e qualitativos, têm apontado para essa crescente dualização entre os grupos sociais que têm a prisão no horizonte e aqueles que a não têm. Essa dualidade tem-se manifestado, fundamentalmente, na crescente uniformidade e homogeneidade do perfil sociográfico e penal da população prisional, a que se tem vindo a assistir nos últimos dez anos. Esse indicador, mais não é do que o reflexo daquilo a que se tem chamado, com menor ou maior rigor, de «nova penalogia» (Feeley e Simon, 1992), «pós-modernismo penal» (Garland, 1995) ou «nova razão penal» (Wacquant, 2000).
A frase de Manuela Ivone Cunha apareceu-me hoje, mais uma vez, depois de ler o artigo «Continuação de Kafka» (O Público, Sábado, 19 de Julho de 2003) do sociólogo Augusto Santos Silva acerca da singular situação em que se encontra o também sociólogo Paulo Pedroso. O artigo é, naturalmente, emotivo. E, também naturalmente, impressivo e inflamado. Não é, por isso, surpreendente que algumas das coisas sugeridas no artigo não sejam particularmente precisas. Santos Silva sustenta "que está a ser negado a Paulo Pedroso o seu direito à igualdade perante a lei. O direito a ser tratado como os outros: estar em liberdade enquanto é investigado, não ser prejudicado por iniciativas de terceiros, recorrer aos tribunais superiores.".
Esta alegação não é mais que uma variação de uma ideia que tem sido continuamente repetida por diversas pessoas: «as figuras públicas não têm mais direitos que os demais, mas também não podem ter menos». É difícil para um não-jurista, como eu, compreender se alguns direitos de Paulo Pedroso estão a ser «negligenciados». Mas é possível que sim. É provável que sim. Até a insinuação de que Paulo Pedroso não está a ser tratado como os outros também parece ser justa. Mas no sentido inverso ao que Santos Silva sugere. Nem todos os reclusos têm «direito», por exemplo, a visitas fora-de-horas, a estar na Ala F do EPL, a celas individuais com casa-de-banho pessoal e a outras simpatias da DGSP que estão longe, muito longe, de estar generalizadas no nosso sistema prisional e de beneficiar a maioria dos reclusos menos mediáticos. E Paulo Pedroso está, além do mais, longe de sentir os efeitos das elevadas taxas de sobrelotação prisional e das enormes taxas de densidade carcerária; as celas partilhadas; os baldes higiénicos; o bacilo de Kock; o risco de ser espancado ou «suicidado»; as arbitrariedades de alguns guardas; o despotismo e prepotência de alguns directores e chefes de guardas; os castigos ilícitos; etc. Não tenho dúvidas de que alguns aspectos do processo em questão possuem contornos «kafkianos». Mas também não tenho dúvidas de que entre os 3.859 presos preventivos muitos deles possuem processos igualmente «kafkianos».
Mas a questão central não está em perceber se há, ou não, igualdade de tratamento entre os presos preventivos mediáticos e os outros. Esta questão é, sobretudo, de índole política ou de âmbito jurídico. As questões sociológicas fundamentais estão, em primeiro lugar, em compreender porque é que o caso de Paulo Pedroso provoca tantas discussões em torno dos «problemas processuais». E, em segundo lugar, em perceber como é que problemas que eram anteriormente desvalorizados, secundarizados e negligenciados são agora classificados como essenciais e incontornáveis. Aplicando a tese da existência de uma divisão entre aqueles que não têm a prisão no horizonte e aqueles que a têm (Cunha, 2002) e o argumento da passagem de um «estado providência» para um «estado penitência» (Wacquant, 2000), este caso incomoda pelo efeito de identificação ou projecção. Habitualmente, estes «processos kafkianos» vitimam pessoas categorizadas como «marginais» (toxicodependentes, prostitutas, minorias étnicas estigmatizadas, etc.). Como o grau de identificação com a generalidade da opinião pública é, nesses casos, muito reduzido, o caso tende a não chocar e os «problemas judiciais», mais ou menos evidentes, tendem a ser negligenciados. Neste caso, acontece o contrário. Os «problemas judiciais» são, por isso, empolados e o incómodo é maior - precisamente por haver uma maior identificação com a pessoa em causa (note-se, todavia que estas reacções não são generalizáveis; outros grupos sociais minoritários na opinião pública parecem congratular-se por, finalmente, .a justiça ser igual para todos.).
O que mais me chama a atenção no texto de Augusto Santos Silva é, então, a ingenuidade - uma ingenuidade própria de quem vive no mundo daqueles que não têm a prisão no horizonte. Como a maioria de nós. Como eu. Normalmente estes problemas não nos chocam tanto. Podem incomodar-nos um pouco, envergonhar-nos até, mas não nos chocam. E por uma razão simples. A prisão acontece, normalmente, aos «outros». E, neste caso, os «outros» são grupos populacionais bem definidos. Poucos de «nós» têm familiares, vizinhos ou amigos presos. Poucos de «nós» visitaram estabelecimentos prisionais. Poucos de nós sabem o que é a «procissão matinal», o «fazer a barreira», o «fazer a cela», o «andar nos carimbos». Enfim, poucos de «nós» sabem o que é ter a prisão no horizonte. No quadro do meu projecto de investigação sobre a reclusão tenho estado a organizar um pequeno arquivo documental. Desse arquivo fazem parte dezenas de cartas de reclusos e familiares de reclusos a denunciar «problemas» dos sistemas judicial, penal e prisional não muito distantes daqueles agora evocados por Santos Silva (as arbitrariedades da investigação; as manipulações do direito de recurso; as justificações questionáveis para a prisão preventiva; as interpretações excessivamente subjectivas dos «factos» por parte dos magistrados; as diferenças entre a lei escrita e a lei na prática; a utilização de atalhos legais nebulosos; etc.). Por vezes, esses casos são noticiados nos media. Usualmente, são recebidos com alguma indiferença e, na melhor das hipóteses, resignação. Neste caso, não. Estas reacções incomuns são, talvez, o melhor indicador da divisão sublinhada por Manuela Ivone Cunha, na medida em que sublinham a excepcionalidade deste caso. E é, por isso, que sempre que leio ou ouço alguém a articular prisões, igualdade e direitos e a falar de problemas judiciais me reaparece a frase enredante de Manuela Ivone Cunha: "hoje como outrora é menos incisiva a fronteira entre os que se acham presos e os que estão em liberdade do que entre as populações que têm a prisão no horizonte e as que a não têm. (2002: 334).
Cunha, Manuela Ivone (2002), Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos, Lisboa: Fim de Século.
Feeley, Malcolm e Jonathan Simon (1992), «The New Penology: Notes on the Emerging Strategy of Corrections and Its Implications», Criminology, Vol.30, Nº4, pp. 449-474.
Garland, David (1995), «Penal Modernism and Postmodernism», in Thomas G. Blomberg e Stanley Cohen (eds.) (1995), Punishment and Social Control, New York: Aldinede. Gruyter, pp. 181-210.
Wacquant, Loïc (2000), Prisões da Miséria, Oeiras: Celta Editora.
Nota Adicional 1: Há cerca de dois anos e meio, quando comecei um período de trabalho de campo junto de um grupo de ex-reclusos, um deles - que eu então desconhecia . aproximou-se de mim. Chamava-se José. Quando me apanhou à parte disse-me assim: "Sabe, não precisa de se vestir assim e falar assim para estar connosco. Eu olho para si e percebo logo que não é deste mundo. Há dois mundos: o dos que podem ir dentro e o dos que não sabem que apenas alguns podem ir dentro. Quando olho para si sei logo qual é o seu.". Envergonhado com o meu desnudamento, engoli em seco. Hoje sei que há um terceiro grupo (aquele a fui pertencendo): o dos-que-não-têm-a-prisão-no-seu-horizonte-mas-que-sabem-que-apenas-alguns-a-têm.
Nota Adicional 2: A posição em que se está e de onde se olha altera muita coisa. Entre Fevereiro e Março de 2001 iniciaram-se - primeiro o EPL, depois Tires e Custóias - uma série de acções de protesto (greves de fome, levantamentos de rancho, etc.) contra a aplicação desmesurada da prisão preventiva e contra as condições de reclusão dos presos preventivos. A iniciativa foi então «apoiada» pelo então bastonário da Ordem dos Advogados, António Pires de Lima, pela Amnistia Internacional e, sobretudo, pela ACED . Associação Contra a Exclusão pelo Desenvolvimento. Na altura, o Ministro da Justiça, António Costa, recusou, com determinação, um encontro com os presos preventivos dizendo não conversar sob pressão e classificando de excessivos e exagerados os protestos (eventualmente veio a recebê-los, porém, minimizou os problemas existentes e defendeu as magistraturas). O sistema possui alguns problemas menores, dizia, mas é necessário aguardar com serenidade e confiar na justiça. Paulo Pedroso, Ferro Rodrigues e Augusto Santos Silva . então também no governo . nada disseram sobre o assunto na altura. Não era apenas um problema fora da esfera das suas competências. Era também um problema, como tantos outros, longe das suas preocupações. E, sobretudo, longe dos seus mundos de vida. Se o protesto fosse hoje, calculo, as reacções seriam diferentes. Se fossem hoje ministros, suponho, as políticas penais seriam distintas. Com efeito, a posição em que se está e de onde se olha altera muita coisa.
Um pouco por toda a blogosfera têm ecoado, nos últimos dias, rumores de indignação, mais ou menos enfáticos, devido à aparição de um deficiente mental no programa televisivo Herman SIC. Até agora, o que se disse sobre o tema tem secundarizado - e frequentemente omitido - duas questões de relevo.
1. Nos discursos de parte significativa das pessoas que se referiram ao tema é curioso encontrar, com uma frequência surpreendente, referências à existência, no passado, de episódios análogos a esse. Importa questionar, face a este paradoxo aparente, porque é que a indignação anteriormente sentida não foi (então) suficientemente forte para despoletar as reacções agora exteriorizadas? No campo da Sociologia, há em Portugal um investigador que tem procurado explorar estes «sobressaltos inesperados de indignação» e estas «alterações súbitas dos estados emocionais colectivos». Falo, designadamente, de António Pedro Dores, investigador do CIES/ ISCTE, e da sua tentativa de desenvolver um quadro de referência teórico-conceptual para enquadrar e interpretar estes fenómenos singulares. Com esse propósito, o autor tem vindo a elaborar, com base nas suas pesquisas sobre a questão prisional, uma proposta em torno do conceito de «estados-de-espírito». Segundo o autor, "[e]stados-de-espírito são sistemas de disposições alternativos e abstractos, ao mesmo tempo independentes e imanentes de pessoas, povoações e instituições (com os seus hábitos sociais particulares) adoptáveis temporariamente por qualquer dessas instâncias sociais, conscientemente ou não, intencionalmente ou não, em associação com sistemas de razões mais ou menos desenvolvidas, sólidas e abertas a novos desenvolvimentos." (nota: esta definição é provisória e, por isso, deve ser entendida como um «work-in-progress»; ela encontra-se num trabalho não publicado do autor, provisoriamente intitulado «Espírito Proibicionista»). Do confronto entre o problema referido e a conceptualização de António Pedro Dores resulta a colocação de algumas interrogações: Como compreender que estas ondas de indignação surjam apenas agora? De que modo interpretar a dissociação entre o silêncio pretérito e a actual explosão de interesse no tema? O que justifica a alteração súbita dos «estados emocionais colectivos» face a esta interrogação? Estas questões permanecem, por enquanto, sem respostas convincentes. É, decerto, possível encontrar alguns factores que justificam, ainda que de uma forma parcial, a modificação do estado-de-espírito dominante (a moralização do tema; a formação de um dinamismo de «pack mentality»; a inversão da imagem pública da pessoa em causa; etc.). Mais difícil, bem mais difícil, é explicar porque é que estes factores não surgiram antes.
2. Além do episódio relatado ser interessante do ponto de vista da formação súbita de «estados emocionais colectivos», ele possui também indícios, não negligenciáveis, dos discursos sobre a deficiência e as pessoas deficientes nas sociedades contemporâneas. Michel Foucault explorou esse tópico, ainda que de uma forma marginal, num dos seus famosos cursos no Collège de France: «Les Anormaux (1974-1975)» [Esses textos notáveis têm sido paulatinamente publicados nos últimos anos pela Gallimard/Seuil. Até agora foram editados três volumes: «Les Anormaux»; «L'Hermeneutique du Sujet» e «Il Faut Défendre la Société». Estes textos têm sido traduzidos para português pela editora brasileira Martins Fontes.] Na sua «archéologie de l'anormalité» (1975, 1999), Foucault havia já exposto a heterogeneidade e variabilidade histórica nas representações e discursos sobre a «anormalidade», as «doenças mentais» e as «deficiências» (embora - frise-se - isso ocupe um lugar relativamente marginal no seu argumento). Extrapolando o trabalho seminal de Foucault, é possível notar, na contemporaneidade, a coexistência de duas imagens ou representações da «anormalidade» diversas. Por um lado, a figura do deficiente é «desumanizada» (associada a uma imagem desagradável, ímpia e pérfida). E, por isso, alvo de escárnio, troça ou hostilidade. Por outro lado, subsiste a imagem inversa, assente numa representação vitimizada e infantilizada das pessoas deficientes (a que se associa uma imagem de inocência, inculpabilidade, ingenuidade, integridade e pureza). E, por conseguinte, alvos de pena, enternecimento e compaixão. Nos tempos que correm, a representação pública da anormalidade tende a oscilar entre estes dois pólos antagónicos. Essa tensão entre as duas extremidades tem sido explorada por uma série de autores que têm trabalhado a relação entre o humor e a deficiência, mostrando a tensão entre o cómico e o trágico. Veja-se, por exemplo, o número especial da revista Body & Society - publicação notável, editada por Mike Featherstone e Bryan S. Turner - dedicado ao tema da relação entre humor e deficiência (Vol.5, Nº4, 1995). Consultem-se, a este respeito, os textos de Ian Stronach e Julie Allan (1995), de Tom Shakespeare (1995), de Albert Robillard (1995), de Gary L. Albrecht (1995) e de Marian Corker (1995). Dessa dualização das imagens da deficiência são exemplificativas as palavras contundentes de Tom Shakespeare: "There is a tension, in the history of disability and comedy, between open amusement at the predicament of the physically different, and a civilizing process which would banish such voyeurism and prejudice." (1995: 48). O caso em causa é, talvez, o melhor exemplo desta coexistência tensa entre as duas imagens. O deficiente mental em questão possuiu, nos últimos meses, a imagem pública de um «perfeito anormal» (que lhe valeu o epíteto de «emplastro», um website, aparições em programas televisivos, um número dificilmente contabilizável de montagens fotográficas, etc.). A participação no Herman SIC parece ter invertido essa imagem, tornando-o, extemporânea e inesperadamente, uma vítima inocente - alvo incauto de aproveitamentos alheios (note-se a súbita alteração do logotipo do Blogue dos Marretas). Esta transformação abrupta da imagem pública da pessoa em causa, não deixa de ser curiosa de um ponto de vista sociológico. Há, todavia, um nexo comum entre as duas posições (a cómica e a trágica): ambas objectificam o deficiente. Ou seja, a pessoa deficiente é claramente definida como um Outro. Ela não é como nós e, portanto, ela não é um de nós. O que parece ir, de alguma forma, ao encontro do argumento de Tom Shakespeare: "The comic stereotype of the disabled fool or clown is part of a pattern of cultural representation which always maintains physically different people as other, as alien, as the object of curiosity or hostility or pity, rather than as part of the group. "We" are always laughing at "them" or "him/her" or even "it"." (Shakespeare, 1995: 49) [o argumento de Shakespeare dirige-se a deficientes físicos, mas o que diz pode ser alargado também a deficientes mentais]. Com efeito, quer seja alvo de troça ou de pena, a pessoa deficiente está, quase sempre, do outro lado.
Albrecht, Gary L. (1995), «Disability Humor: What's in a Joke?», Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 67-74 [ PDF (135Kb)]
Corker, Marian (1995), «'Disability' - The Unwelcome Ghost at the Banquet ... and the Conspiracy of 'Normality'», Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 74- [PDF (141Kb)]
Dores, António Pedro (2003), Espírito Proibicionista, (não publicado) Foucault, Michel (1975 [2001]), «Les Anormaux», Dits et Écrits,
1954-1988, Volume I (1954-1975) , Paris: Gallimard, pp. 1690-1696 Foucault, Michel (1999), Les Anormaux: Cours au Collège de France, 1974-1975, Paris: Gallimard/Seuil.
Robillard, Albert B. (1995), «Wild Phenomena and Disability Jokes», Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 61-66 [PDF (95Kb)]
Shakespeare, Tom (1995), «Joking a Part», Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 47-53 [ PDF (104Kb)]
Stronach, Ian e Julie Allan (1995), «Joking with Disability: What's the Difference between the Comic and the Tragic in Disability Discourses? », Body & Society, Vol.5, Nº4, pp. 31-46 [PDF (201Kb)]
Nota Adicional 1: Embora não esteja directamente relacionado com o tema em questão, Guerra e Pas produziu uma nota muito interessante sobre a romantização da doença mental e a estetização da loucura. Vale a pena ler com atenção.
Nota Adicional 2: Leiam o que escreve o Pedro (icosaedro) numa nota sobre este assunto. Sublinhe-se, primacialmente, a coragem do mea culpa. A sua observação é também interessante no sentido em que mostra como o programa Herman SIC e as reacções que provocou fizeram alterar publicamente a «natureza» da pessoa em causa - que de "deficiente" passou a deficiente (tópico abordado na segunda parte deste texto).
Nota Adicional 3: José Pacheco Pereira (Abrupto) interpela-me no sentido de mostrar como algumas formas de problematização sociológica, como a que ensaiei, podem ser desarmantes. E, neste caso, tem razão. Porém, gostaria de frisar que estamos a falar de «algumas formas de problematização sociológica» e não mais do que isso. Mas saindo do plano meta-discursivo para o plano ético ou político (em sentido abrangente), eu penso o seguinte: é lamentável o que aconteceu. Embora este caso tenha sido, por muitas pessoas, comparado com casos anteriores, julgo que é de natureza diferente. E por uma razão simples: nesses casos anteriores houve uma utilização recíproca (uma economia de bens simbólicos, um sistema social de dádiva/ contra-dádiva). Ou seja, as pessoas em causa (Linda Reis, José Esteves, Alexandrino, etc.) foram tão usadas pelo programa, como se aproveitaram dele. Há uma consciência evidente da troca. No caso em questão isso não acontece, na medida em que o deficiente mental em causa não parece ter noção da «troca» que lhe propõem. E isso deve ser, obviamente, condenado. Veementemente condenado. Mas não basta fazer de Herman José e do Herman SIC os bodes expiatórios da nossa indignação, quando o que ali aconteceu é a expressão pública, amplificada e distorcida, daquilo que se passa dentro de nós, de todos nós, e da ambivalência com que tratamos a «anormalidade». Sem uma auto-condenação pela objectificação e coisificação dos deficientes em geral (por via da troça ou da pena, as duas faces da moeda), de nada vale condenar um programa televisivo. Neste sentido o Pedro (icosaedro) foi a pessoa mais corajosa, pois não apenas condenou o outro, mas a si próprio. Ademais, convém notar que há uma linha muito ténue a separar o respeito e a pena. O respeito é desejável. A pena não. E pior: em casos como este constitui uma tarefa hercúlea evitar a pena (eu, pelo menos, acho que nunca o consegui fazer devidamente). Por conseguinte, fica a condenação... e a auto-condenação.
Nota Adicional 4: O meu amigo Bruno (Avatares de um Desejo) desenvolveu este tema num texto intitulado «Para além do "emplastro"», onde tece algumas considerações sobre a problemática geral da deficiência nas sociedades contemporâneas. Entre outros aspectos o Bruno faz notar que "[a] alusão à invisibilidade não equivale a dizer que as pessoas com deficiência não são evocadas na cultura mediática, mas sim que quando são, ocupam o lugar de signos, de mensagens que tomam a forma de estereótipos culturalmente sedimentados". Ademais, o Bruno mostra como o complexo encadeamento de efeitos resultantes desses estereótipos resultam numa espécie de auto-fechamento das pessoas deficientes. Como explica, a "projecção de tragédia e a sistemática asserção de incapacidade, de mãos dadas com a letra morta da igualdade de oportunidades, produzem uma meta-narrativa na vida da pessoa com deficiência, sujeitando-as ao fechamento da "narrativa da tragédia pessoal". Vale a pena ler.
Nelson de Matos (Textos de Contracapa) e Manuel Alberto Valente (Oceanos), ambos editores, trocaram recentemente algumas observações insuspeitamente contundentes sobre a «indústria editorial». Ou melhor, sobre o estado da «indústria editorial» em Portugal. No contexto da análise sociológica, o tema está longe de ser recente e desenvolveu-se, sobretudo, a partir do trabalho seminal de Walter Benjamin em torno da "obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica" e das investigações de Theodor Adorno e Max Horkheimer em redor da questão das "indústrias culturais".
Na actualidade, o tema tem sido abundantemente trabalhado no campo da Sociologia da Cultura e, mais especificamente, em três dos seus sub-campos: a Sociologia do Livro e da Leitura, a Sociologia da Literatura e a Sociologia da Edição (esferas, entre nós, representadas por autores como Maria de Lourdes Lima dos Santos, Eduardo de Freitas, José Afonso Furtado ou Jorge M. Martins). Nesses estudos e investigações tem-se tratado, entre outros fenómenos, das transformações no «campo da edição» tenderem para a transição da hegemonia de um «mercado da oferta» para o predomínio de um «mercado da procura». Com efeito, como notava Fabrice Piault, com estas mudanças "[c]orremos o risco de passar de um «mercado da oferta», em que o espaço da criação se encontra cada vez mais reduzido pelas lógicas de mercado, para um «mercado da procura», que não significa exactamente que o mercado é comandado por uma «lógica» de necessidades efectivas da clientela, mas antes que os constrangimentos próprios dos circuitos comerciais se impõem cada vez mais aos produtores e criadores" (Piault in Furtado, 1995: 83).
De facto, se a ênfase na edição tradicional se encontrava no domínio da produção, hoje ela encontra-se claramente na esfera do consumo: a distribuição, a comercialização, o marketing, a promoção, a publicidade, etc. (cf. Martins, 1999; Furtado, 1995). Adicionalmente, convirá sublinhar que os impactes desse fenómeno sobre a própria actividade quotidiana de editores e escritores não são, obviamente, negligenciáveis. Nelson de Matos e Manuel Alberto Valente parecem viver, com apreensão, estas transformações que fazem com que o livro não seja já (apenas) uma forma de arte, mas também (ou sobretudo) uma mercadoria. É por isso que se referem, com insistência, à necessidade de corresponder às novas "regras da indústria editorial", sustentando economicamente, através da venda de best-sellers e/ou livros mediáticos, a publicação de obras mais «arriscadas» ou previsivelmente «menos rentáveis». "Publica-se o que dá", diz Manuel Alberto Valente com indisfarçável desencanto e desilusão, "para poder publicar-se o que não dá". Dinheiro, entenda-se. E, decerto, não será fácil conciliar uma linha editorial consistente, por um lado, com a exigência de rentabilidade, por outro (para uma compreensão das transformações no campo da edição, consultem-se os Nº126-127 de Março de 1999 e Nº130 de Dezembro de 1999 da revista «Actes de la recherche en sciences sociales», inteiramente consagrados a essa temática).
As palavras de Nelson de Matos e de Manuel Alberto Valente parecem ser, simultaneamente, indicadores de numerosos aspectos: de uma tensão entre uma «cultura cultivada» e uma «cultura de massas»; da reorganização da esfera editorial; da pericialização do campo da edição; do desaparecimento do papel tradicional do editor (hoje, o seu «métier» encontra-se disperso e desagregado por uma rede de actores especializados e há, além do mais, um pequeno conjunto dos chamados «novos intermediários culturais» - penso, designadamente, nos agentes). Parece-me, contudo, que há um aspecto singular - inadvertidamente escondido por detrás desse nostálgico «desencanto» - que tem sido algo negligenciado pela sociologia. Refiro-me ao «declínio da imagem tradicional da profissão de editor». Há não muitas gerações atrás, o trabalho da edição era representado quase como uma forma de arte pelos próprios editores, por leitores e por escritores. De facto, o trabalho laborioso da construção de uma «linha editorial» ou de um «projecto de edição», por meio de um esforço diligente, escrupuloso e minucioso de selecção de obras e de constituição de catálogos era, também, uma arte «nobre». De prestígio. Uma das consequências das transformações no campo da edição foi o declínio dessa representação da «edição-como-uma-arte» e a sua concomitante e progressiva «substituição» pela imagem da «edição-como-um-negócio». Será, talvez, algo abusivo falar de substituição, na medida em que a referida transição esteve, e está, longe de ser linear e absoluta. Na verdade, ambas as imagens co-existem. Mas parece, ainda assim, ser incontroverso constatar a consolidação dessa imagem da «edição-como-um-negócio» (imagem que envolve uma menor «distinção» a nível das representações colectivas, por aparentemente contaminar e poluir o ideal da arte pela arte). E, assim, essa transição parece ter retirado, de alguma forma, parte do «fascínio» e «sedução» usualmente associados à actividade editorial. Quando Nelson de Matos e Manuel Alberto Valente falam do estado da «indústria editorial» em Portugal é também nisso que parecem pensar. E, creio eu, é também disso que gostariam de falar.
Martins, Jorge M. (1999), Marketing do Livro: Materiais para uma Sociologia do Editor Português, Oeiras: Celta.
Furtado, José Afonso (1995), O que é o Livro?, Lisboa: Difusão Cultural
«Édition, Éditeurs» (1), Actes de la recherche en sciences sociales, Nº126-127, Março de 1999.
«Édition, Éditeurs» (2), Actes de la recherche en sciences sociales, Nº130, Dezembro de 1999.
Nota Adicional 1: Jorge Martins, docente do Instituto Politécnico de Tomar e investigador do CIES, encontra-se em fase de conclusão da sua tese de doutoramento no ISCTE, sob a orientação de António Firmino da Costa. "Sociologia do Livro: o Campo da Mediação na Era Digital" é o título provisório da mesma. Será, indubitavelmente, uma obra fundamental para a compreensão do campo da edição na era digital.
Nota Adicional 2: Em reacção a este texto, Manuel Alberto Valente publicou uma nota no Oceanos sobre o assunto. A essa nota seguiu-se um curioso diálogo entre o escritor Franciso José Viegas (Aviz) e o editor Nelson de Matos (Textos de Contracapa), precisamente, sobre as relações entre autores e editores. O diálogo é, de um ponto de vista sociológico, extremamente interessante, na medida em que permite ter uma visão prismática do «art world» literário (a noção de «art world» foi desenvolvida por Howard S. Becker, um dos incontornáveis da análise sociológica). Isto é, permite ter alguma noção das representações, disposições e redes relacionais entre a heterogénea constelação de agentes do campo literário: entre outros, editores, autores, agentes, livreiros (veja-se, já agora, o blogue do livreiro Vincent Bengelsdorf, Bicho Escala Estantes). Entre as mensagens de correio electrónico que recebi a propósito deste texto, quero destacar um comentário atencioso de um dos autores citados no mesmo: José Afonso Furtado, um dos principais investigadores em Portugal no(s) campo(s) em questão (e, actualmente, Director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e docente do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa). Para além de algumas observações, de carácter sociológico, sobre o texto que produzi, o autor menciona os posteriores desenvolvimentos ao seu trabalho na obra «Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação» (Lisboa: Livros e Leituras, 2000) e o seu trabalho mais recente em torno da "temática da edição em ambiente digital, a questão da edição electrónica, os problemas levantados pelas novas formas de relação com o texto e a com a leitura tradicional (...) e pelos novos suportes de leitura.". Existem dois artigos disponíveis online da sua autoria onde estas questões são desenvolvidas: «Livro e Leitura no novo Ambiente Digital» [PDF (302Kb)] e «O Papel e o Pixel» [PDF (3305Kb)] - este último desenvolvido no quadro do projecto ciberscopio.net. Para os interessados em aprofundar o tema e em compreender melhor as ameaças, oportunidades e desafios da edição na era digital são excelentes pontos de partida. Fica a sugestão.
As dificuldades de transformação e a resistência à mudança estão ligadas a uma das propriedades habitualmente associadas à evolução dos sistemas sociais: a «auto-poiesis» (cf. Luhmann, 1995). O conceito «auto-poiesis» (proveniente do grego: «auto», por si mesmo; «poiesis», fazer) foi primeiramente trabalhado pelos biólogos chilenos H. Maturana e F. Varela e
posteriormente aplicado aos sistemas sociais através da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann (1995). Refere-se, sobretudo, às dinâmicas geradas num sistema que conduzem à sua circularidade, auto-produção, auto-sustentabilidade ou auto-referencialidade. Isto é, de acordo com o autor germânico, os sistemas sociais tendem a fechar-se sobre si, a criar e manter uma lógica de funcionamento virada para o interior e a reproduzir-se continuamente. Este é um problema que inúmeras organizações enfrentam. Muitas vezes, na prossecução das suas actividades uma organização desenvolve uma ritualização de práticas, uma reificação de processos, uma cristalização de procedimentos. Isso conduz, em última instância, a uma sobreposição dos «meios» face aos «fins». A organização existe com o fim de existir: a sua própria existência transforma-se no seu objectivo. Desse modo, num sistema auto-poiético «ser» e «fazer» tornam-se inseparáveis. O sistema tende a organizar-se de forma a que o seu produto seja ele mesmo. Isso não significa que esse fenómeno seja intencional, propositado ou desejado por alguns indivíduos ou grupos, embora o possa ser. Significa, apenas, que a lógica do seu funcionamento tende a sobrepor-se aos fins enunciados. A administração pública - leia-se a nossa administração pública - é a ilustração
típica de um sistema auto-poiético. Os discursos prevalecentes no debate in curso em redor do tema, mais ou menos elaborados e sofisticados, são disso um bom exemplo. Do lado dos apologistas da reforma proposta, a ênfase é colocada a nível da «racionalidade dos serviços». Do lado dos seus detractores, nota-se um centramento na questão dos «direitos dos trabalhadores». Poucos, quase nenhuns, enquadram nos seus discursos o problema dos utilizadores dos serviços públicos. Afinal, a razão destes existirem em primeiro lugar. Sintomático.
Luhmann, Niklas (1995), Social Systems, Stanford: Stanford University Press.
Nota Adicional 1: Esta observação em torno da «auto-poiesis» despertou alguns
apontamentos críticos de interesse sobre a questão. Tyler Durden, um dos cientistas sociais não praticantes no mundo dos blogues, avançou com uma nota empírica sobre o papel das fantasias de grupo em contexto de resistência à mudança organizacional [texto]. Por seu turno, Carlos de Abreu Amorim (Mata-Mouros) avança com uma análise de algumas características particulares da administração pública em Portugal à luz dos conceitos luhmannianos de .clausura organizacional. e de .lógica auto-referencial. [texto]. São dois pontos interessantes para a prossecução do debate (e vale a pena ler na medida em que são dois textos com uma profundidade analítica admirável).
Nota Adicional 2: Acabou de ser publicada uma colectânea de boas práticas e de estratégias de desenvolvimento e e-Government.
Nazaré, Luís (coord.) (2003), Mudar a Máquina: A Administração Pública na Sociedade de Informação, Lisboa: Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação [PDF (2,6Mb)]
Caderno A6, num texto caracterizado por uma sobriedade analítica invejável, chama a atenção para o facto da discussão em torno dos blogues ser, em seu entender, excessivamente prematura. O autor atribui essa «volúpia reflexiva» ao período de euforia que parece caracterizar, tradicionalmente, a introdução e consolidação das inovações tecnológicas. Prematura, segundo o que sugere, devido ao facto de "estarmos em plena época de blogomania". E, como acrescenta, "a blogomania, pouco diz sobre os blogs". O problema deste debate - problema, aliás, ao qual o Socio[B]logue não será alheio - não é apenas o facto de ser algo prematuro. Mas o facto de se concentrar - em excesso - na forma, obnubilando, parcial ou totalmente, o conteúdo. Ou seja, parece haver, neste momento, uma preocupação maior com os blogues, enquanto forma, o que com aquilo de que os blogues falam. Há alguns dias atrás, Torill Elvira Mortensen (Thinking With My Fingers), num contexto diverso do nosso (europa do norte; onde existe uma comunidade de blogues de investigação impressionante), parecia reportar-se à mesma questão. Evocando McLuhan, manifestava alguma preocupação "about the focus being too much turned to the form itself. As if the fact that a message is communicated by way of a blog is more important than the message." [texto]. Relembremo-nos que foi o incontornável Marshall McLuhan quem, ainda em 1964, cunhou a expressão "the medium is the message", naquele que é, sem dúvida, um dos maiores textos clássicos no campo da sociologia da comunicação. Se é evidente que é importante compreender as características deste novo meio e os impactes pessoais e sociais associados à sua utilização, parece ser igualmente óbvio que isso não justifica a sobreposição da forma ao conteúdo. Fica, portanto, a nota de culpa.
McLuhan, Marshall (1964 [1994]), Understanding Media: The Extensions of Man, London: The MIT Press
Guerra e Pas disse também: "Ocorre-me que podemos mudar de pele. Deixar este e criar outro. Start all over.". Ler o que escreveu remeteu-me, automaticamente, para um pensamento que me acompanha há algum tempo. Já aqui mencionei as palavras de Ted Nelson quando este preconiza que somos prisioneiros das aplicações que usamos. Mas serão essas as únicas limitações? Creio que não. Cada blogue, cada bom blogue, parece caracterizar-se, também, por uma coerência (que pode assumir muitas formas: uma «linha editorial», um «conceito», uma «lógica interna», um «modelo», uma «identidade», um «ethos», um «projecto», um «estilo» ou uma «estilização»). Daí que alguns bloggers, como José Pacheco Pereira (Abrupto; Estudos Sobre O Comunismo), Ana Teles (Lua; A Girl's Thoughts) ou o incansável Pedro Fonseca (Contra Factos & Argumentos; Bolas; Tecnosfera - além do Blogs em pt, em período conturbado de existência) sintam a necessidade de se dividir (ou multiplicar) em dois, ou mais, preferindo várias linhas editoriais, complementares ou alternativas, mas coerentes, a uma única linha pouco consistente. Daí, também, que Jorge Candeias (Trilha de Möbius; Lâmpada Mágica) ou Nuno Jerónimo (Blogue dos Marretas; Diário Interior) possuam, além de um blogues colectivo, um pessoal. Essas opções relativas às linhas editoriais, feitas conscientemente ou não, circunscrevem-nos também a determinados limites. Poderão os blogues de humor sair das suas linhas humorísticas ou sentir-se-ão na obrigação de as respeitar? Poderão os espaços de ciberjornalismo sair dos seus limites auto-impostos? Será que os lugares confessionais e intimistas podem quebrar a sua lógica? Poderão os eruditos, diletantes e os que buscam o prazer da sabedoria (e, portanto, também a sabedoria do prazer), romper a sua coerência? E os fotoblogues? E os blogues literários? Enfim, poderei eu, fazer do Socio[B]logue algo mais que um blogue de observações, reflexões e interrogações sociológicas? Questiono-me, então, se não seremos também coarctados pelas nossas linhas editoriais e, portanto, «prisioneiros» dos limites que nós próprios impusemos aos nossos blogues? É aqui que se joga a ambivalência: se a tecnologia nos oferece oportunidades, também nos estabelece restrições; se o fechamento do ethos do nosso blogue nos abre possibilidades, também nos determina limites. A questão pode parecer anódina, todavia, esses limites parecem condicionar, de forma decisiva, a forma como nos relacionamos com os nossos blogues (e, portanto, as «ansiedades» a isso associadas).
Nota adicional: O conhecimento científico é, por natureza, «precário», «provisório». Existem, porém, situações onde essa precareidade é amplificada. O texto aqui apresentado é disso um bom exemplo. Estamos a caminhar em terreno pouco explorado e, por isso, os «recursos conceptuais interpretativos» são escassos, senão inexistentes. Devido a essa inusitada escassez, o texto acima reproduzido não passa, possivelmente, de uma "especulação sociologicamente informada". Em sociologia é utilizado um pequeno conjunto de expressões depreciativas para
designar esse tipo de incursões sociológicas pouco fundamentadas: "sociologia de bolso", "sociologia espontânea", "street corner sociology", etc. O apontamento apresentado parece, então, ser ainda mais «precário» que as reflexões e observações sociológicas que aqui têm sido habitualmente produzidas. Mas, muitas vezes, a precareidade parece ser a única opção. Como agora. Contudo, essa precareidade inicial parece ter sido mitigada pelo debate que foi tendo lugar nos comentários a este texto. Nesse espaço foram-se discutindo algumas questões que corrigem e completam o argumento acima apresentado. No quadro deste debate deveras produtivo, Jorge Candeias notou que "um blogue acaba por construir-se um pouco como uma história, ou um livro. Um livro deve ter uma qualquer coerência interna para resultar, e nem todas as ideias que o autor tem enquanto escreve podem ser utilizadas na sua construção.". Clara M. pareceu corroborar essa argumentação ao indicar que "[u]m blogue acaba por construir-se um pouco como uma história e, mesmo inconscientemente (em alguns casos, pelo menos), vamos "seleccionando" o que pensamos pertencer-lhe". Foi adicionalmente constatado, por parte do Bruno Sena Martins, que "a disposição dos links de outros blogs por temas poderá contribuir para operar uma cristalização identitária daqilo que venha a ser a sua produção". Luis N., por sua vez, fez notar que "a criatividade exerce-se melhor em limites estritos". Em suma, de acordo com os resultados provisórios do debate, é necessário notar que a «identidade» de um blogue não é um estado, mas um processo (vai-se constituindo aos poucos). Ademais, essa constituição depende tanto do blogueiro, como da imagem que o blogueiro julga que o «outro» tem de si (nesse sentido, a categorização do outro pode influenciar a auto-classificação do eu). E essa identidade-processo (constituída na dialéctica entre o eu e o outro) constitui tanto uma limitação (por circunscrever aquilo que é afixável e o que não o é), como uma oportunidade (por poder estimular a criatividade). O «esforço colectivo» para aqui chegar foi, a meu ver, entusiasmante.
(título roubado de Al Berto)
Há uns dias atrás, (Guerra e Pas), um dos espaços mais notáveis da blogosfera, produziu um dos posts mais honestos e bonitos que tive o prazer de ler. Intitulava-se «O Temor». Falava, entre outras coisas, das angústias recorrentes dos blogueiros, daquilo que chamava de "malaise dos blogs" e do facto da "imediatez dos Posts faz[er] dos dias séculos.. Também o Luis N. (ENE Coisas) se referiu ao tema num post recente, ao dizer o seguinte: "não é fácil manter um blogue, e todos os blogueiros o sabem, os que continuam, e os que desistem". Argumento também reproduzido por José Xavier (Satyricon) ao dizer: "depois de algumas semanas na blogosfera, que parecem anos, o cansaço torna-se evidente" [post]. Apesar da sua raridade, existem alguns artigos científicos onde as mesmas questões são abordadas, no que respeita ao trabalho científico. Entre nós, lembro-me, por exemplo, de um texto notável da antropóloga Maria Cardeira da Silva (1991), justamente intitulado «A angústia do antropólogo no momento do trabalho de campo». E qualquer pessoa que já tenha realizado exercícios etnográficos, mais ou menos complexos e mais ou menos prolongados, sabe do que a autora fala: as hesitações, as incertezas, as dúvidas, as flutuações, as oscilações, etc. No caso do mundo dos blogues, a fenomenologia da experiência quotidiana de um blogueiro passa por questões como a ansiedade do feedback, a ansiedade do post seguinte, a ansiedade provocada pela sensação de incapacidade para exprimir uma determinada imagem imagem do «eu», entre outros. Estes comentários deixam entrever a existência de uma psicodinâmica particular em
determinados tipos de blogues (aparentemente, aqueles mais sujeitos à «ansiedade do post seguinte»). Isto é, parece ser possível determinar a existência de algumas regularidades na evolução das atitudes dos blogueiros face aos seus blogues. Ao entusiasmo inicial, parece suceder uma fase onde é visível uma maior ansiedade do post seguinte (devido quer às próprias expectativas, quer à internalização das expectativas do «outro» - ou atribuídas ao «outro»). É, aliás, curiosa a menção, nestes casos, ao facto do tempo passar «a voar» (os dias, de acordo com os posts referidos, parecem «anos» ou «séculos»). Apesar desta temática, por si só, merecer uma análise mais aprofundada, há um outro aspecto - menos evidente - que intriga a minha curiosidade sociológica. De facto, há, neste contexto, uma questão que é sociologicamente interessante, mas que parece passar despercebida. Não é curioso que, ao contrário de outras formas de comunicação mediada por computador (CMC), exista uma enorme reflexividade («pensar sobre si próprio») no mundo dos blogues? Isto é, na generalidade das outras formas de CMC não encontramos tanta discussão e reflexão sobre essas formas. Com efeito, nem em CMCs imediatas (IRC, ICQ, Messenger, Chat-Rooms, etc.) nem em CMCs diferidas (Mailing-Lists, Discussion Groups, etc.), encontramos uma reflexividade tão grande. Por vezes, ela nem sequer existe. Ou seja, não é frequente encontrarmos em mailing-lists, discursos sobre as suas potencialidades e limites, sobre os «temores» associados a essas formas, etc. Por conseguinte, resta explicitar que a menção à reflexão da antropóloga Maria Cardeira da Silva não foi arbitrária: aparentemente, a reflexividade nos blogues é de tal forma profunda que se aproxima mais da reflexividade científica do que de outras CMCs. Mas que particularidades terão os blogues, no quadro das CMCs, que justifiquem esta reflexividade? O fenómeno intriga-me.
Cardeira da Silva, Maria (1991), «A angústia do antropólogo no momento do trabalho de campo», Ethnologica, Nº5.
Algures entre os seus trabalhos em torno da emergência histórica do cuidado de si ("le souci de soi"), Foucault debruçou-se, num pequeno texto sombrio e pouco conhecido, sobre a «l´écriture de soi», a escrita de si mesmo, na cultura greco-romana dos séculos I e II D.C.. A escrita de si mesmo caracteriza-se pela meditação, a reflexão, o pensar sobre si mesmo. Enfim, pela elaboração de um discurso sobre o eu. É por isso que Foucault lhe chama uma "écriture éthopoiétique" (2001: 1237): escrita etho-poiética significa que essa escrita é, também, uma forma de constituição do «eu». O «eu» nasce da escrita e do que se diz. São, sobretudo, duas as formas que a escrita de si mesmo assume na cultura greco-romana: a «correspondência» e os «hupomnêmata» (cadernos pessoais que servem e «aide-mémoire», contendo citações, fragmentos de obras, exemplos morais, pequenos pensamentos e reflexões, etc.).
É, aliás, curioso notar como os blogues parecem ser uma combinação dessas duas formas de escrita etho-poiética, articulando elementos da escrita para o outro e da escrita para si mesmo. Veja-se, por exemplo, como a descrição que Foucault faz da correspondência se encontra muito próxima de algumas coisas aqui discutidas a propósito da gestão de impressão e da preocupação em redor do modo como somos percepcionados pelo outro:
"Écrire, c.est donc «se montrer», se faire voir, faire apparaître son propre visage auprès de l.autre. Et, par là, il faut comprendre que la lettre est à la fois un regard qu.on porte sur le destinataire (par la missive qu.il reçoit, il se sent regardé) et une manière de se donner à son regard par ce qu.on lui dit de soi-même.. (Foucault, 2001: 1244)
Mas porquê retomar Foucault? Uma das coisas mais fascinantes no mundo dos blogues é o seu estilo retórico prevalecente, o tipo predominante de escrita etho-poiética (isto só se aplica, evidentemente, a blogues onde há um discurso sobre o eu; os fotoblogues ou os blogues de humor possuem lógicas próprias). Ler alguns blogues, não todos, lembra-me um estilo retórico característico quer dos relatos auto-biográficos, quer das entrevistas de história de vida. Quase como se estivéssemos a assistir a entrevistas imaginárias com interlocutores imaginários (o que foi, aliás, já mencionado pelo Bruno Sena Martins).
As pessoas projectam interrogações que gostariam que lhes fossem feitas sobre si e ensaiam respostas, mais ou menos elaboradas, a essas questões imaginárias ou projectadas. Mas o que estará por trás deste estilo discursivo? O que o justifica? Como interpretá-lo? Julgo que essa forma de escrever se deve, em parte, ao facto de existir, nas sociedades ocidentais contemporâneas, uma grande reflexividade das pessoas face ao seu «eu». E essa reflexividade tem sido muito marcada pela entrevista de cariz biográfico. Com efeito, o ser-se entrevistado hoje é um indicador muito forte de sucesso: de êxito. Secretamente, ou não, parte significativa dos blogueiros gostaria de ser entrevistada. Embora seja um fenómeno de interpretação complexa, não é difícil compreender este fascínio pela entrevista. Hodiernamente, as pessoas lêem e vêem muitas entrevistas. E, naturalmente, imaginam-se entrevistadas, projectam-se nos entrevistados e elaboram discursos sobre si mesmas nessas projecções. Há, obviamente, variações: há quem se imagine a conversar com a Ana Sousa Dias, com a Bárbara Guimarães, com a Judite de Sousa ou num confessionário com a Teresa Guilherme. Mas, de um modo geral, as pessoas gostam de falar de si e possuem discursos muito elaborados sobre si mesmas: o que são, o que gostam, as suas experiências de vida, os momentos marcantes, etc... O problema é que há um hiato, uma dissociação, entre os discursos que se elaboram e os meios para os exprimir ou comunicar. Nem todos têm acesso aos meios de comunicação. Nem todos possuem formas de explicitar os discursos elaborados. Parece-me, porventura erroneamente, que o sucesso dos blogues também estará relacionado com esse aspecto: as pessoas possuem, por meio de um blogue, a oportunidade de revelar os seus discursos sobre si mesmas... ou, pelo menos, sobre algo relacionado consigo mesmas. Mas, claro, isto é apenas uma hipótese. E, como tal, especulativa, pouco consistente e discutível.
Foucault, Michel (2001), «L´Écriture de Soi», Dits et Écrits, 1954-1988, Volume II (1976-1988), Paris: Gallimard, pp. 1234-1249.
Isabel Tilly ( href="http://www.isabeltilly.blogspot.com/">Monólogo) enviou-me um contributo inestimável para a interdisciplinarização do debate em torno da questão da «gestão de impressões». Ela propõe repensarmos o que até agora foi escrito à luz do trabalho do psicólogo social Leon Festinger (1919-1987) e, em particular, da sua teoria da comparação social. De acordo com ela, essa teoria "apesar de datada (tem sido reformulada e desenvolvida no quadro das relações intergrupais) parece-me manter pertinência, já que quando pensamos nos blogs, é impossível não pensar no carácter opinativo que esta forma de comunicação assume". Ocorreu-lhe o trabalho de Festinger quando começou a pensar "se a necessidade de recebermos feedbacks, não teria a ver com esta necessidade, que Festinger operacionaliza, de validarmos socialmente as nossas opiniões e aptidões ". Aqui fica um trecho textual da autoria de Doise, Deschamps e Mugny (1980), reproduzido pela Isabel, sobre Festinger e a teoria da comparação social.
"Se, para as nossas opiniões, atitudes, crenças, não possuímos a base objectiva (física) que lhes determine a validade, dependemos das outras pessoas para as validar. (...) Perante uma superfície, um indivíduo
pode pensar que ela é quebrável ou não; pode dar uma martelada nessa superfície e convencer-se de que a opinião que tinha era certa ou errada. Se uma pessoa lhe diz que a superfície é inquebrável depois de ele a ter quebrado, isso pouco efeito terá sobre a sua opinião. Inversamente, tomemos o exemplo duma pessoa que julga que se as eleições tivessem sido ganhas pela oposição no seu país, a vida seria bem melhor: se esta opinião é partilhada, então é válida, se não, não é. "Assim, onde a dependência da realidade física é baixa, a dependência da realidade social é, de modo correspondente, alta" (Festinger, 1971). Mas para validar a opinião de um indivíduo, não é necessário que toda a gente pense como ele; basta que as pessoas do grupo a que ele se refere partilhem a sua opinião. Na óptica de Festinger, quanto mais fraco é o poder da realidade física na validade das opiniões, mais aumentem importância do grupo e a pressão para comunicar. Festinger alargou a sua teoria, em 1954, integrando-lhe a avaliação das aptidões ou capacidades do indivíduo. Com efeito, as opiniões referem-se à situação em que se encontram os sujeitos e também à avaliação da sua capacidade de acção nessa situação, portanto, às suas aptidões. As aptidões de uma pessoa manifestam-se através da suas performances. Mas há casos em que não há qualquer critério objectivo de avaliação das performances. Nessas condições, a ideia que o indivíduo faz da sua aptidão depende dos outros: a ideia que um uma pessoa tem "do seu talento para escrever poesia" depende, em larga medida, da ideia que têm os outros acerca disso. Pelo contrário, a avaliação da aptidão para correr, faz-se comparando o tempo que levam várias pessoas a percorrer a distância. As principais proposições referentes às opiniões e às capacidades na teoria da comparação social, são as seguintes: 1. Existe em todos as pessoas uma tendência para avaliar as suas opiniões e as suas aptidões pessoais. 2. Na ausência de meios objectivos não sociais, as opiniões e aptidões próprias, são avaliadas, comparando-as com as opiniões e aptidões dos outros. 3. A tendência para se comparar com o outro, diminui à medida que aumenta a diferença entre o próprio e o outro, tanto nas opiniões como nas aptidões. Portanto, no interior de um determinado campo de comparação, escolhe-se de preferência, como termos de comparação, aqueles cuja aptidão ou opinião estão mais próximos..
Retirado de: Doise, W., Deschamps, J., Mugny, G. (1980). Psicologia Social Experimental. Lisboa: Moraes Editores. (trad. port)
«Tyler Durden» (EpiCurtas), alter-ego de outroblogueiro de formação sociológica, numa pequena nota, abordou a questão que anteriormente aflorei das particularidades da «gestão de impressão» no mundo dos blogues. Partindo do trabalho de Chris Argyris e Donald A. Schön, «Durden» propõe uma revisão e reformulação do meu argumento com recurso às noções de «presunções não testadas» e «ilusão do controlo». Quem desejar dissecar e aprofundar a questão encontra ali alguns pontos de problematização interessantes.
São, primacialmente, três os argumentos que avança: (1) segundo diz, parto do pressuposto que é .possível controlar a impressão que os outros constroem sobre o «eu»., acrescenta também ao meu argumento que .[o] que temos é menos uma gestão (mensurável e, consequentemente, controlável) da impressão dos outros sobre o «eu», mas apenas mais uma . entre tantas. -manifestação da «ilusão do controlo»., na medida em que os indivíduos partem de .uma análise subjectiva, assente em premissas sobre o .outro. não testadas.; (2) questiona ainda o facto de eu classificar este fenómeno como preocupante e não apenas interessante (crítica já implícita num comentário anterior do Mário do Retorta. se o interpretei correctamente .onde ele dizia que a dependência dos blogues não é diferentes de outras formas de dependência); (3) por último, e sem conexão directa com o argumento, preconiza que ao indicar existirem outros aspectos (além do receio de dar passos em falso e da ansiedade do feedback), sem os indicar, deixo o texto em aberto por razões «tácticas».
1. [gestão de impressão e premissas não testadas] Boa parte do que diz parece-me ser clarificador, de um ponto de vista conceptual, para o que escrevi. A clarificação que propõe, sendo pertinente, não me parece entrar em contradição com o conceito de gestão de impressão. E isso na medida em que a gestão de impressão é sempre um «esforço» ou uma «tentativa» (da parte de quem a tenta) e, por conseguinte, é também um "comportamento a partir de uma análise subjectiva, assente em premissas sobre o .outro. não testadas". Parece-me que as objecções que levanta se dirigem mais à designação do conceito (questão da nomenclatura goffmaniana: gestão de impressão ou administração de impressão), do que ao seu conteúdo. E discordar da designação de um conceito, parece-me, não é sinónimo de discordar do seu conteúdo. Logo, parece-me ser uma questão a um nível epistemológico diferente da que coloca. Conseguintemente, lendo o que escreveu fez-me colocar a questão da pertinência da designação seleccionada por Goffman. E, no que a isso diz respeito, julgo que, de facto, justificar-se-ía uma outra solução.
2. [interesse e preocupação] À questão de eu considerar o fenómeno em causa tanto interessante, de um ponto de vista sociológico, como preocupante, julgo, como disse, já ter respondido anteriormente em resposta a um comentário do Mário. Penso que o fenómeno é, sem dúvida, interessante de um ponto de vista sociológico. O seu interesse não é, todavia, exclusivamente sociológico. Em pessoas com sintomatologias depressivas (ou mesmo perturbações comportamentais e psicopatias), vulneráveis ao que em psicologia clínica se designa de .crises de ansiedade., a ansiedade do feedback pode ter efeitos nefastos, por amplificar os sintomas a ela associados. Mas, como também sublinhei nesse comentário, essa questão diz respeito à psicologia clínica (e, quiçá, à psiquiatria). Não à sociologia (quer dizer, poderá ser de interesse para algumas formas de sociologia clínica ou aplicada).
3. [tácticas e estratégias] Quando disse existirem outros aspectos além do receio de dar passos em falso e da ansiedade do feedback, estava a pensar designadamente naquilo que Goffman apelida de «perturbações de desempenho» (ele enumera os gestos involuntários, as intromissões inoportunas, as cenas, entre outros). Achei desnecessário mencioná-los, não por uma questão táctica (deixar «pontos de fuga» em aberto), mas para não perturbar a clareza e coerência do argumento. Por conseguinte, esse expediente foi mais uma estratégia de simplificação, do que uma táctica de defesa, por meio da colocação de eventuais «pontos de fuga argumentativos». Só me resta agradecer ao T. Durden pelos contributos interessantes e construtivos para o debate.
Nota Adicional: Inês Amaral (Conversas de Café) menciona uma notícia sobre um estudo de carácter médico-psiquiátrico em torno do problema do «uso compulsivo da Internet» e da «dependência motivada pela rede». As categorias bio-médicas são sempre de desconfiar... ainda para mais com a crescente «medicalização» das sociedades contemporâneas. Porém, é sempre interessante saber se o nosso comportamento pode ser classificado, ou não, enquanto patológico. E, não obstante a «desconfiança e cepticismo sociológicos», fica a preocupação, já reiterada, com os efeitos potencialmente disruptores da «ansiedade do feedback»...
Lembro-me de ouvir António Lobo Antunes - julgo que em entrevista com Ana Sousa Dias - dizer que não devíamos acreditar no que dizia nas suas entrevistas, na medida em que estas propiciavam, de uma forma geral, que o autor .posasse para a eternidade. (versão literária, sofisticada e erudita do .posar para a fotografia. futebolístico). "É uma vaidade", dizia, "a que poucos conseguem escapar". Há todavia, formas muito díspares de «posar». Lobo Antunes falava, claro, da «gestão de impressão»: conceito desenvolvido por Erving Goffman (1993) para se referir aos esforços das pessoas para gerirem a imagem que os outros têm de si, por meio do controlo das impressões que projectam no(s) outro(s).
A premissa fundamental desta noção é, como sugere o psicólogo social Barry Schlenker, a de que .conscientemente ou inconscientemente, as pessoas tentam controlar as imagens que projectam para as audiências, reais ou imaginadas. (Schlenker, 1980: 304). Julgo ser cada vez mais evidente a presença na blogosfera de dois fenómenos habitualmente associados à gestão de impressão. Falo, designadamente, da «ansiedade do feedback» e do receio de «faux pas». A «a ansiedade do feedback» refere-se ao facto das pessoas mostrarem alguma ansiedade, por vezes obsessiva, com o feedback que recebem dos outros. Não deixa de ser sintomático que não existam - eu, pelo menos, não encontro - blogues sem mecanismos de «feedback» ou «interacção»: os contadores, os sistemas de comentários, os endereços de correio electrónico, os message boards, etc. Aliás, seria interessante poder analisar quantas vezes por dia é que os bloggers verificam as suas caixas de correio, os comentários recebidos ou os contadores. Por sua vez, o receio de «faux pas» reporta-se a um temor face à possibilidade de projectar uma imagem de inconsistência e incongruência (receio de cometer gaffes, de denunciar falta de cultura, etc.) que coloque a própria pessoa em causa. Estes aspectos não são, evidentemente, exclusivos do mundo dos blogues. Pelo contrário. São aspectos habitualmente associados às relações interpessoais e à interacção. O que parece estar a tornar-se característico da blogosfera é a sua amplificação. Este fenómeno é tão interessante, de um ponto de vista sociológico, como preocupante.
Goffman, Erving (1993), A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias, Lisboa: Relógio D.Água.
Schlenker, Barry R. (1980), Impression management, California: Brooks-Cole