Nas minhas viagens «arqueológicas» pelos arquivos de alguns blogues, apareceu-me um intrigante axioma: «o blog é o blogueiro» (Luis N., Ene Coisas). Esse apotegma lembrou-me uma passagem notável de Borges: «Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largo de los años puebla un espacio con imágenes de provincias, de reinos, de montañas, de bahías, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas. Poco antes de morir, descubre que ese paciente laberinto de líneas, traza la imagen de su cara.» (Jorge Luis Borges, El Hacedor).
Aquilo que se escolhe mostrar ou elidir, aquilo que queremos ser, é sempre um indicador, uma pista, daquilo que somos. Fica o apontamento.
Num post anterior produzi algumas observações em redor da sobre-consciência do eu no mundo dos blogues. Essas observações suscitaram o interesse do Bruno Sena Martins (Avatares de um
Desejo), meu interlocutor para as questões antropológicas. O Bruno, partindo de um quadro de referência fenomenológico, questiona algumas das minhas reflexões e reformula alguns dos argumentos que avancei. Reproduzo aqui o que diz:
"Em relação à introdução em que o João reflecte sobre o corpo, gostaria apenas de acrescentar que essa «heightened self awareness» do corpo que temos/somos, não resulta apenas de processos de escrutínio por «outros relevantes» produtores de olhares passíveis de resgatar o corpo à sua costumeira infra-consciência. Na realidade, e numa perspectiva eminentemente fenomenológica, importa que o corpo possa ser analiticamente acolhido fora dos processos de apresentação do self. É nesse sentido que faço notar que, ao falarmos de eventos fomentadores de uma consciência do corpo (ou sobre-consciência), não estaremos necessariamente (ou apenas) perante uma sobre-consciência de si. Parece- me também instigante que possamos dar conta da centralidade que o corpo adquire em experiências de dor/sofrimento somático, prazer, ou experiências de privação corporal, que colocam questões que vão muito para além das construções identitárias. (Haveria ainda a considerar, como refere Miguel Vale de Almeida (1996), as evidências etnográficas em relação às distinções entre corpo e pessoa). Mas, como a introdução se dirigia para o fenómeno da apresentação do eu nos blogs em face das expectativas que sobre alguns recaem (figuras públicas), vamos a isso! Concordo quando assinalas a tensão entre um olhar do outro que é simultaneamente desejado e receado, e dos mecanismos de defesa que se concretizam em algumas expressões recorrentes. Eu apenas acrescentaria que esses mecanismos de defesa não poderão ser entendidos fora de uma articulação com aquilo que eu chamaria de Écriture blogiste. Refiro-me a um discurso dominante de matriz falocêntrica (como tu já referiste), em que um distanciamento crítico com o mundo da vida, a ironia e a auto-ironia (a que se acrescenta uma pujante e selectiva intertextualidade, que, também ela, fomenta alguma auto-referencialidade na blogoesfera ) emergem como estratégias privilegiadas. Daí, em meu ver, decorre o facto dos discursos de direita, menos comprometidos com a transformação social, se sentirem mais em casa no registo/regime dominante na blogoesfera. Um discurso distanciado e irónico é já um discurso que cria as condições da sua própria defesa.
Recomenda, ainda, para os interessados em explorar estas questões as seguintes obras:
Good, Mary-Jo e Brodwin, Paul e Good, Byron e Kleinman, Arthur, 1992, Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective, University of California Press, Berkeley.
Lakoff, George e Johnson, Mark, 1999, Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought, Basic Books, Nova Iorque.
Almeida, Miguel Vale de, 1996, Corpo presente: Antropologia do Corpo e da Incorporação, in Almeida, Miguel Vale de (org.), Corpo Presente: Treze Reflexões Antropológicas Sobre o Corpo, Celta, Oeiras.
Saiu hoje no jornal «O Público» um artigo da jornalista Ana Cristina Pereira sobre a reclusão feminina. Intitula-se «Portugal é o País da União Europeia Que Mais Encarcera Mulheres». O artigo contém, entre outras coisas, menções à antropóloga Manuela Ivone Cunha (Universidade do Minho) e à socióloga Anália Cardoso Torres (CIES/ISCTE).
"(...)Portugal tem a mais alta taxa de encarceramento de mulheres, a representar 8,5 por cento do sistema prisional. Só Espanha, segundo dados do Conselho da Europa, se lhe aproxima. Os restantes países da União Europeia ficam-se abaixo dos seis por cento. Anália Cardoso Torres, co- autora da obra "Drogas e Prisões em Portugal", do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, aponta o dedo aos baixos índices de rendimento e de protecção social para justificar esta especificidade dos países do Sul. A população prisional feminina homogeneizou-se, ao longo da última década. Há uma obesa maioria unida por penas superiores a cinco anos. Não por acaso. Chegam quase todas "por droga". Contudo, "não dependem, na sua larga maioria, e ao contrário dos homens, do consumo de substâncias ilícitas", sublinha Anália Cardoso Torres. No diagnóstico publicado o ano passado, podia ver-se que mais de metade responde por tráfico (53 por cento), um crime severamente sancionado pela moldura penal. Somando os crimes de tráfico e consumo com os de consumo (já despenalizado) obtém-se outros 18, 7 por cento. O perfil social destas mulheres tem um rosto paupérrimo. Não são baronesas da droga. São mais do género de "esconder a droga no cinto do avental". Fracas qualificações escolares e profissionais desenham o seu perfil, havendo mesmo uma forte incidência de analfabetismo. As baixas habilitações limitam muito as oportunidades de trabalho, motor de inserção. E a actividade ilícita, embora arriscada, lembra Anália Cardoso Torres, surge-lhes como uma saída à miséria. O grosso das reclusas encerra histórias de vida que parecem ter saído de um livro de Charles Dickens. Vêm de bairros degradados, barracas ou acampamentos, bem batidos pelas rusgas policiais, onde o tráfico surge numa lógica de organização de sobrevivência. E, mais do que estar fechadas, como mostra a condenada por tráfico Maria Augusta, custa-lhes estar longe dos filhos, dos maridos, da família. Custa-lhe estar longe de quem, muitas vezes, desempenhou um papel decisivo na sua entrada para o crime. Identificam-se sempre de uma forma relacional - 81,6 por cento são mães. O mercado da droga não parece desdenhar das mulheres, como alguns sectores laborais. Elas entram, muitas vezes, em redes de vizinhos e de parentes. Há as que trabalham por conta própria, explica Ivone Cunha, em "Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos". Mas também as que são usadas para o corte (em pacotes), para o correio. Ou as que "apanham por tabela" - são apenas cúmplices dos filhos ou companheiros. Mulheres como Maria Augusta que sabia que o filho toxicodependente traficava, mas "não podia pô-lo para fora de casa, não podia". Romper este emaranhado é tanto mais complicado quando, como foca Ivone Cunha, existe um "círculo vicioso de tráfico" que não tem só a ver com o dinheiro fácil. Os filhos menores podem iniciar-se na venda a "sequência da detenção dos pais, que por sua vez poderão reincidir no tráfico para deles retirar os filhos". E, nos bairros onde moram, as entradas e saídas da cadeia são tão frequentes que se tornaram "normais", logo, pouco recriminadas.(...)"
Aproveite-se a ocasião para recordar o admirável trabalho de Manuela Ivone Cunha no campo dos estudos prisionais em Portugal e, mais concretamente, no estudo da reclusão feminina. Primeiro, ainda enquanto investigadora do Centro de Estudos Judiciários, com a obra «Malhas que a Reclusão Tece: Questões de Identidade numa Prisão Feminina» (1996a); em seguida, com a publicação do ensaio «Corpo Recluído: Controlo e Resistência numa Prisão Feminina» (1996b), inserto na obra colectiva «Corpo Presente», organizada por Miguel Vale de Almeida; por fim, com a obra «Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos» (2002), transposição para livro da sua tese de doutoramento, orientada também por Miguel Vale de Almeida. Essa obra é, sem dúvida, uma das obras maiores da antropologia portuguesa contemporânea. Esse facto levou, o próprio Vale de Almeida, a considerar no prefácio ao livro que aquele se tratava de um "ponto de viragem na antropologia portuguesa" (2002: 14). Aliás, não será despiciendo recordar que a autora ganhou com este último livro o «Prémio Sedas Nunes de Ciências Sociais 2002», porventura, o mais importante prémio de Ciências Sociais em Portugal. Fica, portanto, a sugestão.
Cunha, Manuela Ivone (1996a), Malhas que a Reclusão Tece: Questões de Identidade numa Prisão Feminina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários.
Cunha, Manuela Ivone (1996b), «Corpo Recluído: Controlo e Resistência numa Prisão Feminina», in Miguel Vale de Almeida (org.) (1996), Corpo Presente. Treze Reflexões Antropológicas Sobre o Corpo, Oeiras: Celta Editora, pp. 72-86.
Cunha, Manuela Ivone (2002), Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos, Lisboa: Fim de Século.
No campo da sociologia do corpo tem sido produzido, em anos recentes, algum trabalho de análise e reflexão em torno do conceito de «sobre-consciência de si» («heightened self awareness»). Essa expressão foi primeiramente desenvolvida por Drew Leder, autor norte-americano de inspiração fenomenológica, em "The Absent Body" (1990), uma das obras de referência na recente literatura sobre o corpo. A noção de «sobre-consciência de si» refere-se ao facto do corpo deter, geralmente, uma presença invisível ou ausente na nossa vida quotidiana, permanecendo num estado de infraconsciência. Essa despresença, segundo Leder, apenas é suspensa em momentos muito específicos. Mais concretamente, quando o «eu» se sente escrutinado, julgado e avaliado nas suas acções pelo olhar do «Outro». Existem
alguns conceitos sociológicos próximos ou contíguos do enunciado: penso, nomeadamente, nas noções de «hiperobjectificação do corpo» (da antropóloga prisional Manuela Ivone Cunha) e de «auto-consciência epidérmica» (do semiólogo italiano Umberto Eco).
Esta referência poderá parecer inusitada e, porventura, um tanto ou quanto irrelevante. Todavia, julgo ser possível entrever um fenómeno não muito dissemelhante no mundo dos blogues (não, obviamente corporal, mas a nível do self). Processo a que podemos chamar «sobre-consciência do eu». Com efeito, entrevê-se em muitos blogues a existência de um estado de consciência psicológico alterado dos seus autores, motivado, talvez, por uma sensação de visibilidade permanente e por estes se sentirem alvo de observação e contemplação (e, em alguns casos, de escrutínio, análise e avaliação). José Xavier escreveu agora no Satyricon que as figuras públicas na blogosfera se sentem "condicionad[a]s a ser aquilo que todos esperam del[a]s.. Se é verdade que as ditas «figuras públicas» revelam uma forma de «sobre-consciência do eu», isso não parece ser um exclusivo delas. Com efeito, se há algo que parece transparecer de boa parte dos discursos presentes na blogosfera é o facto dos bloggers ficarem muito dependentes das expectativas que projectam no outro (isto é, das expectativas que julgam que os outros têm face a si e ao que escrevem). Existem marcas discursivas - aparentemente anódinas, insignificantes ou irrelevantes - que constituem indicadores deste fenómeno. A utilização de expressões como «não sei porque falo isto», «não sou um especialista nesta matéria» e de outras formas de «auto-justificação» representam, de forma mais ou menos directa, «mecanismos de defesa» gerados pela antecipação do olhar do «outro» e constituem, de algum modo, defesas perante o escrutínio esse olhar. Assim, esse olhar é, simultaneamente, «desejado» e «receado». No discurso sociológico estas marcas também existem. São apenas um pouco diferentes: repare-se, inclusivamente aqui no Socio[B]logue, na utilização de expressões como «mas, claro, seria preciso estudar com maior detalhe estas questões» ou «mas, obviamente, os estudos sociológicos nesta área são ainda escassos». A «sobre-consciência do eu» é, sem dúvida, um dos aspectos sociologicamente mais interessantes no mundo da comunicação mediada por computador, em geral, e no mundo dos blogues, em particular. E, também, dos aspectos menos estudados. ;)
Leder, Drew (1990), The Absent Body, London: Sage.
A tentação da simplificação poder-nos-ía levar a conceber o «genderlect» feminino como internamente homogéneo. Perante essa perspectiva convém esclarecer que não é. Com efeito, existe uma plêiade heterogénea de dialectos de género femininos. Embora, claro está, existam algumas características comuns e partilhadas entre si. O melhor exemplo disso é, porventura, a Ana Teles (como eu, estudante de sociologia e minha conhecida de outras andanças sociológicas). Analisar, judiciosamente, as diferenças entre os dois blogues que mantém, revela-nos, pelo menos, duas formas distintas do dialecto de género feminino e, por isso, duas formas diversas de «mostração» e de «presentação» do eu. O Lua apresenta um estilo confessional-poético. A Girl's Thoughts tem características mais descritivas-etnográficas, mais próximas do diário ou da auto-etnografia. Apresentando ambos as características que Tannen atribui ao dialecto de género tipicamente feminino, os blogues em causa revelam diferenças, no mínimo, assinaláveis. Assim, ler a(s) Ana(s), remete-me para um conhecido conceito de um dos founding fathers da fenomenologia, Alfred Schutz. Falo da noção de «finite provinces of meaning» (noção que José Machado Pais tem traduzido como «âmbitos de significado finito»). Os âmbitos de significado finito referem-se a mundos de percepção ou âmbitos de realidade (como, por exemplo, cada pessoa tem um mundo do trabalho, um mundo familiar e um mundo individual, em esferas mais ou menos isoladas entre si). Neste caso, cada blogue da Ana constitui um âmbito de significado finito; um mundo de vida com a uma «lógica interna», uma «identidade» e um «ethos». Passar de um blogue para outro implica, então, uma ruptura: um salto de descontinuidade de uma «realidade» para outra. De um âmbito de significado finito para outro. É engraçado observar a transformação ontológica entre o tom confessional-etnográfico da «Ana-A Girl's Thouhgts» e o estilo confessional-poético da «Ana-Lua». Este caso levanta-nos, assim, interrogações sociológicas importantes quanto à questão da identidade. De facto, além de haver potencialmente uma cisão entre um «online self» e um «offline self», podemos ter ainda «online selves» diversos: um «eu digital» múltiplo. Abrem-se, assim, novas perspectivas quanto à recorrente questão fragmentação do eu na tardo-modernidade. Voltando à Ana, esta constatação parece significar que numa mesma pessoa podem estar contidas formas diversas de ser feminina e de exprimir a feminilidade. A Ana dava um estudo sociológico interessante. Ou dois.
Em alguma literatura sociológica e sociolinguística fala-se, por vezes, da existência de «genderlects», «genderlect styles» ou «gender specific dialects» (dialectos de género) - penso designadamente na linguista Deborah Tannen da Georgetown University. Esse conceito remete, segundo Tannen, para a existência de modos de comunicação muito diferentes entre géneros. Os dialectos de género manifestam-se de muitas formas: pessoas do sexo feminino tendem a utilizar, profusamente, mecanismos linguísticos como o uso do condicional, circunlóquios protocolares («será que é possível», «seria possível», etc.), signos de deferência, um discurso confessional e intimista, uma estética da vulnerabilidade, etc... Isso deve-se, ainda de acordo com Tannen, ao facto da comunicação feminina ser despoletada por um desejo de proximidade, intimidade, comunhão (numa palavra: compreensão); e a masculina por um desejo de status, respeito, concretização (numa palavra: admiração). Daí que «as mulheres» se foquem mais na esfera privada e «os homens» na esfera pública.
Apesar das limitações da perspectiva da autora (porventura, os estereótipos de género não são adequadamente desmontados e as generalizações pouco rigorosas), o conceito é interessante. Eu acrescentaria, ao que a autora afirma, que o processo de construção social do género envolve, não só dialectos de género, mas a constituição de gramáticas emocionais distintas, de vocabulários «gendrificados» e de léxicos emocionais particulares. Lembrei-me dos dialectos de género ontem, depois de ter recebido uma mensagem de correio electrónico deveras atenciosa da autora de um dos blogues mais bonitos da blogosfera, a Isabel Tilly do Monólogo, significativamente sub-intitulado «acontecimentos significativos do meu dia a dia». É um espaço sublime: confessional, intimista, frágil, familiar, reservado, delicado, sensível, terno e afectuoso. Enfim, «feminino». Ela ontem escreveu o seguinte: "quem ler o meu blog percebe que pertenço ao "género feminino". tenho pena que a pertença me molde o discurso (e o pensamento). alguma vez o abrupto escreveria sobre sentimentos de desamparo, falta de auto-confiança, alterações de humor? não creio...".
Eu também não. O problema, na blogosfera, é que há um claro predomínio de um dialecto de género masculino. O tema por cá não tem tido impacte, mas lá fora muito se tem falado do «blog gender gap», do «gender gap in Blogville» ou do «Venus-Mars divide in Blogville» como lhe chama a jornalista-blogger Lisa Guernsey (Lisa Guernsey's Weblog) . autora de um artigo no The New York Times sobre o assunto intitulado «Telling all online: it's a man's world (isn't it?)» (tomei a liberdade de o disponibilizar online: vale a pena ler na totalidade). Diz a autora que: ."i>Women want to talk about their personal lives. Men want to talk about anything but. So far the people who have received the most publicity (often courtesy of male journalists) appear to be the latter". Por isso, segundo Guernsey, as mulheres tendem a escrever diários e os homens a falar de temas menos pessoais (de política, economia, literatura... e sociologia; não sendo generalizável, parece ser evidente que isto acontece, em grande medida, na lusosfera). Lisa Guernsey não é socióloga. Mas podia ser.
Deambular pela blogosfera permite-nos dar conta esta ser um espaço predominantemente masculino (Socio[B]logue incluído). Com efeito, o dialecto de género prevalecente (e hegemónico) na blogosfera está mais perto dos «Sopranos» do que do «Once and Again». Esse facto, não sendo surpreendente, não deixa - ainda assim - de ser curioso.
Obrigado Isabel. Pela mensagem atenciosa e pelo Monólogo.
Guernsey, Lisa (2002, 28 de Novembro), Telling all online: it's a man's
world (isn't it?), The New York Times. [html]
Em celebração do prémio atribuído a Machado Pais resolvi transcrever um dos pedaços mais engraçados do seu livro "Ganchos, Tachos e Biscates" (e uma das passagens mais originais do mesmo). É um trecho retirado do capítulo intitulado «Jovens Acompanhantes: 'Puta de Vida que me Fez Puta'», e fala da experiência do autor aquando de uma visita a uma casa de prostituição. É um exercício notável de sociologia criativa e de humor sociológico. Vale mesmo a pena ler:
"Os sociólogos raramente se perdem nessas ruelas do aleatório em que se corre o risco de se perder não apenas a identidade como também o futuro. Mas um dia passei pela Columbano Bordalo Pinheiro e procurei a casa. Vi homens impacientes, rondando as proximidades do edifício. Movido pela força da curiosidade decidi entrar. Mas, quando já estava defronte da porta da casa ladeei-a e segui em frente, acelerando o passo. Era a primeira vez, em toda a minha vida, que rondava uma casa de prostituição. Depois de ter caminhado uns largos metros, voltei para trás, decidido a entrar e a vencer minha própria impaciência. E entrei. A dona da casa recebeu-me e apresentou-me algumas raparigas. Fixei-me numa que fazia tranças com o cabelo, como se fizesse tranças no entrançamento que a vida é. Fazendo tranças, o pensamento é livre e todos os príncipes encantados podem passear no pensamento: Mas de que serve sonhar com príncipes, quando o que conta é o entreabrir da porta que deixa entrever um cliente qualquer, cujo único encanto é a sua predisposição a pagar? A Gabriela das tranças depressa descobriu a minha timidez e, para me desinibir, calculo, disse-me que a «comesse toda», que estava com «tusa» e outras coisas obtusas. Mais inibido fiquei ao não saber como reprimir-lhe um gesto que parecia insinuar afecto. Excessos tais baralharam as minhas convicções sociológicas. Provavelmente, no universo imaginário masculino, as prostitutas mostram-se famintas de sexo e, por isso, elas não se fazem rogadas a mostrar a sua fome. Puro equívoco. A prostituta dá-se a comer apenas por ter fome de dinheiro. A Gabriela das tranças - se a história contada não foi inventada - é mãe solteira, confessou-me, abotoando dois botões da blusa desabotoados por engano. De nacionalidade brasileira, tinha um namorado português com quem pretendia «ajuntar-se» logo que juntassem algum dinheiro. Com nostalgia recordou-me tardes em bancos do Jardim da Estrela e evocou corações e setas que inscreveram em algumas árvores do jardim, inscrições que procuravam eternizar uma relação cujo destino ali ficava traçado, nos troncos da árvore. Mas quis o destino que o destino fosse outro. E o que ficou da relação foi uma gravidez e um filho para criar, sem saber com que meios, pois todos a abandonaram, incluindo o pai do filho.. (Pais, 2001: 262-263)
Pais, José Machado (2001), Ganchos, Tachos e Biscates: Jovens, Trabalho e Futuro, Porto: Âmbar.
Apesar do pensamento e teoria sociais (ainda) ocuparem um espaço diminuto na blogosfera, regozijo com algumas das menções que por aí se fazem. João Gonçalves (Portugal dos Pequeninos) fala em Roland Barthes; Almocreve das Petas em Michel Maffesolli, Pierre Bourdieu, Mike Featherstone (e tem ligações para materiais de e sobre Jean Baudrillard e Jürgen Habermas); Pedro Mexia (Dicionário do Diabo) refere Max Weber; Bruno Sena Martins (Avatares de um Desejo) e Tiago de Oliveira Cavaco (Voz do Deserto) mencionam Michel Foucault; Rui Grilo (5minutos) alude a Richard Sennett; Francisco José Viegas (Aviz) aflora George Steiner, Jürgen Habermas e Michel Foucault. Além de não faltarem, também por aí, pessoas associadas à esfera (campo, sistema ou arena, dependendo da escola de pensamento) das ciências sociais: investigadores, professores e estudantes (de história, psicologia social, sociologia e antropologia). Falo, designadamente, de Nuno Jerónimo (sociologia, Diário Interior, Blogue dos Marretas), Miguel Vale de Almeida (antropologia, Os Tempos que Correm), José Pacheco Pereira (história, Abrupto, Estudos sobre o Comunismo), Rui Branco (história, País Relativo), Pedro Adão e Silva (sociologia, País Relativo), Miguel Cabrita (sociologia, País Relativo), Filipe Nunes (sociologia, País Relativo), Bruno Sena Martins (antropologia, Avatares de um Desejo), Ana Teles (sociologia, A Girl's Thoughts, Lua), Isabel Tilly (psicologia social, Monólogo). O pensamento e teoria sociais não são uma ausência na esfera, são uma «ausência presente». Melhor: uma (des)presença. O fenómeno intriga-me. Talvez Jill Walker e Torill Mortensen, gestores de dois dos mais relevantes blogues de investigação (respectivamente o jill/txt e o thinking through my fingers), tenham razão quando sugerem que "[academics] are so used to studying new technologies as exotic objects that they fail to see that they could be useful within academia itself" (2002: 263) [eu substituiria o termo académicos por investigadores, que podem não o ser]. Ou, porventura, estarei, de facto, a cometer as ingenuidades que o Almocreve das Petas me parece apontar. Recordando o incontornável Herberto Hélder, não será despeciendo dizer que "talvez o senhor seja mais inteligente do que eu" (Os Passos em Volta, p.12).
Mortensen, Torill e Jill Walker (2002), «Blogging thoughts: personal publication as an online research tool», in Andrew Morrison (ed.) (2002), Researching ICTs in Context, Oslo: InterMedia Report, 3/2002 [disponível online em pdf]
Das primeiras vezes que entrevistei ex-reclusos deparei-me com aquilo a que chamei nas minhas notas de «síndroma Robinson Crusoe»: quando lhes é dada a oportunidade para falarem (e, mais concretamente, para falarem sobre si) é, geralmente, difícil «travá-los», na medida em que os seus discursos fluem de uma forma deveras impressionante. Sucedem-se, então, os episódios anódinos e as historietas (estorietas?) prisionais. Isso deve-se, segundo António Pedro Dores (sociólogo especializado nas questões da reclusão), ao estarem demasiado confinados às mesmas pessoas e às mesmas histórias e, por isso, quando encontram gente exótica que se interessa pelo que dizem (como eu), tendem a auto-tematizar-se e a desmultiplicar-se em palavras até terminarem. Normalmente por exaustão (do investigador ou dos próprios). É interessante constatar a presença do síndroma Robinson Crusoe na blogosfera desde as suas variantes mais simples («a minha vida dava um poste» [se blog é blogue, post é poste, não?] e «a minha vida dava um blogue»), até às suas variantes mais sofisticadas («a minha vida dava um estudo sociológico»). Não refiro, sequer, as variantes mais especializadas, desde as mais populares («a minha vida dava um canal de televisão da sic na tvcabo», «a minha vida dava um bar de alterne»), às mais eruditas («a minha vida dava uma peça de Schönberg», «a minha vida dava um filme de Bergman», «a minha vida dava uma obra de Beckett», «a minha vida dava um ensaio de Steiner», etc.). Fazendo uma autoscopia é forçoso reconhecer que eu próprio, nos primeiros dias (que ainda não terminaram) . e apesar do meu esforço deliberado de contenção . pareço ter sucumbido à tentação. Com efeito, julgo não ter resistido (suficientemente) ao inusitado fenómeno. Por conseguinte, interrogo-me: será que estive até agora encarcerado no meu «self offline»? Fica a pergunta.
Anne Galloway do «Purse Lip Square Jaw» - o blogue de investigação que já aqui mencionei - comentou o Socio[B]logue levantando algumas questões quanto aos limites da utilização dos blogues como instrumentos de pesquisa. Vale a pena ler o que diz com atenção, na medida em que apresenta algumas limitações técnicas associadas aos blogues (que ainda não tinha visto exploradas na blogosfera), mencionando outras ferramentas de potencial interesse, designadamente wikis, twikis, blikis ou plone [consultar os websites http://www.snipsnap.org/, http://www.wiki.org/ e http://www.wikipedia.org/].
"Since João Nogueira's very interesting Socio[B]logue showed up in my referrer logs, I have been thinking about the use of weblogs for research purposes. Like PLSJ, his blog serves as a type of field diary: "Observaçoes, Reflexoes e Interrogaçoes Sociologicas." And I would agree with him that the possibilities for blogging in social research remain underexplored. But I think that there are a few technical features built into common weblog applications that limit exploration, connection, expression and communication - all of which are integral to research. For example, Blogger doesn't offer the ability to organise posts into categories like Movable Type, but even so, that type of archiving does nothing to connect posts across boundaries. I'm with Ted Nelson on this one, we are prisoners of our applications and hypertext was originally conceived as something much more flexible and beautiful. Blogs make it difficult to understand connections that are not based on discrete categories, and I also fail to see the ability of temporally linear posting to forge new connections. And so I am going to experiment. Inspired by Kurzweil- never thought I'd say that! - when I have some free time next month, I plan to install The Brain here, and have it act as a means of connecting posts to each other, and to outside pages. We'll just have to see how it works..."
Enfim, parece haver um mundo por explorar - parafraseando Huxley, um admirável mundo novo - no que respeita à utilização de inovações tecnológicas como ferramentas de trabalho. Obrigado Anne.
As potencialidades de fertilização mútua entre blogues e as ciências sociais são animadoras. Direi mais: excitantes. Por um lado, os blogues constituem um objecto de estudo interessante no que respeita à chamada CMC (comunicação mediada por computador) no quadro da Sociologia da Comunicação (e, mais concretamente, naquilo que se vem designando de Sociologia dos Espaços Virtuais ou Sociologia do Ciberespaço). Daí se explica o surgimento de alguns blogues dedicados ao estudo sociológico e antropológico do fenómeno. Explore-se o PhD Weblogs para se aceder a alguns desses interessantes blogues. Destaco, a este respeito, o «Purse Lip Square Jaw» de Anne Galloway e «Life's A Blog» de Nurul Asyikin - este último já deu, inclusivamente, origem à tese «Blogging Life - An Inquiry into the Role of Weblogs in Community Building (pdf)». Mas os blogues não constituem apenas um objecto de investigação interessante, eles abrem também oportunidades e possibilidades animadoras para investigadores: falo, claro, dos os chamados «blogues de investigação» (research weblogs). Possibilidades animadoras, em primeiro lugar, para o debate científico (quer dentro de cada disciplina, quer multidisciplinar) e para a divulgação científica. Servem, ainda, como espaços de reflexão para lançar observações e pistas de pesquisa (normalmente perdidas em notas de rodapé ou em escritos de gaveta). Finalmente, abrem possibilidades - frise-se: ainda insuficientemente exploradas - enqaunto instrumentos de suporte ou apoio à pesquisa (fico deveras estimulado de pensar, por exemplo, na possibilidade de conduzir um exercício etnográfico, com recurso ao trabalho de campo ou metodologias contíguas utilizando, embora com algumas reservas, um blogue enquanto diário de campo). No campo dos blogues de investigação quero destacar, nas áreas da história, o «Estudos sobre o comunismo» (José Pacheco Pereira), da geografia, o «UrbanGeoBlog» (W. Scott Whitlock), da sociologia, o «Purse Lip Square Jaw» (Anne Galloway) da antropologia, o «Anthroblog» (R. S. P.) e o «Os Tempos Que Correm» (Miguel Vale de Almeida) (não sendo, propriamente, um blogue de investigação, estou certo que o autor não nos deixará de presentear esporadicamente com alguns apontamentos antropológicos). Uma palavra de apreço adicional para o projecto visionário PhD Weblogs gerido pelo atencioso António Granado,projecto que procura servir de espaço de referência para os «blogues de investigação».
Nota: No contexto científico, não quero deixar de mencionar adicionalmente o ABC - Arquivo Bibliográfico para publicações Científicas: que, não sendo um blogue, é um espaço virtual com... virtualidades assinaláveis (perdoe-se a redundância).
Anthony Giddens tem proposto insistentemente o conceito de «dupla-hermenêutica» (cf. Giddens, 1992, 1994) para se referir à forma como o conhecimento proveniente das ciências sociais é apropriado pelos actores sociais, modificando as suas representações, disposições e práticas (e como, por sua vez, tais modificações precisam de ser analisadas). Ocorreu-me Giddens quando me deparei pela blogosfera (ou blogolândia segundo Guerra e Pas) com expressões como «sociedade pós-moderna» ou «modernidade» descontextualizadas ou desajustadas dos seus sentidos originais, quando se procurava falar das sociedades contemporâneas. Utilizei aqui a expressão «sociedades contemporâneas». Essa designação constitui um artifício semântico que procura não classificar explicitamente a contemporaneidade, fugindo às controvérsias e polémicas associadas a essa categorização. Porém, para além dessa denominação são por vezes utilizados, em alternativa, inúmeros termos, mais ou menos análogos, na sua designação: «sociedade de risco», «sociedade pós-industrial», «sociedade pós-tradicional», «pós-modernidade», «modernidade tardia», «tardo-modernidade», «sociedade pós-moderna», «pós-capitalismo», «sociedade da informação», «sociedade do conhecimento», «sociedade programada», «sociedade em rede», «sociedade global», «segunda modernidade», «modernidade reflexiva», «alta modernidade», «modernidade radicalizada», «hipermodernidade», «sobremodernidade», «modernidade ambivalente», «capitalismo flexível», «capitalismo desorganizado», «capitalismo avançado», «era da descontinuidade», «era dos extremos», «era da informação», «fim da história», «pós-fordismo». É, contudo, óbvio que muitas destas expressões não constituem, propriamente, sinónimos. Na verdade, algumas dessas designações são mais inclusivas, outras mais exclusivas. Umas mais analíticas, outras mais descritivas. Esta pluralidade terminológica deve-se ao facto destes termos estarem associados, de forma mais ou menos directa, a sistemas de pensamento alternativos e, portanto, a diferentes formas de conceber as sociedades contemporâneas. Por conseguinte, falar de «sociedade pós-industrial» (Daniel Bell), de «sociedade de risco» (Ulrich Beck), de «modernidade tardia» (Anthony Giddens), de «pós-modernidade» (Jean François Lyotard), de «modernidade ambivalente» (Zygmunt Bauman), de «sociedade programada», (Alain Touraine), de «sobremodernidade» (Marc Augé), de «capitalismo desorganizado» (Claus Offe, Scott Lash e John Urry), de «sociedade em rede» (Manuel Castells) ou de «fim da história» (Francis Fukuyama) não é irrelevante e remete, muitas vezes, para universos de referência distintos, debates diferenciados e filiações epistemológicas descoincidentes. Curioso é que apenas algumas destas expressões sejam alvo do efeito da dupla-hermenêutica (isto daria um estudo socio-antropológico delicioso). Ademais, a popularidade de alguns destes termos deve-se, entre outras coisas, à sua «vacuidade». Já o sublinhava Claude Grignon, sociólogo especialista nas questões alimentares. Dizia o autor que: "Les concepts «lourds», comme «mutation», «modernisation», «industrialisation» ou «urbanisation», auxquels on fait souvent appel pour rendre compte des tendances lourdes, déblaient si énergiquement le terrain vague où ils font se rencontrer la sociologie, l'économie et l'histoire qu'il serait bien étonnant qu.on puisse encore distinguer quelque chose après leur passage." (Grignon, 1986: 132). [esta passagem notável de Grignon, obscura e pouco conhecida, devo-a ao labor «arqueológico» de Luis Soares, meu amigo, colega de faculdade e companheiro de viagens sociológicas] Fica o reparo.
Giddens, Anthony (1992), As Consequências da Modernidade, Oeiras: Celta.
Giddens, Anthony (1994), Modernidade e Identidade Pessoal, Oeiras: Celta. (a tradução para o português desta obra foi feita pelo antropólogo-blogger Miguel Vale de Almeida)
Grignon, Claude (1986), «Les Modes Gastronomiques a la Française», L'Histoire, Nº 85.
Com a recente decisão do Tribunal Constitucional relativa ao novel código do trabalho, o tema voltou a surgir em força nos órgãos de informação. O debate em torno desse assunto tem sido, até agora, algo vazio, confrontacional (o último «Expresso da Meia Noite» foi disso um bom exemplo) mas, sobretudo, incompleto. Sociologicamente, considero peculiar que as mudanças na esfera do trabalho (que as há, com ou sem legislação a acompanha-las) não encontrem correspondência nos discursos dos intervenientes (autoridades, empregadores e sindicatos), ainda demasiado apegados às velhas categorias de pensamento. Acho ainda curioso que nesse debate pouco se fale da emergência de novas modelos a substituir as formas modernas de trabalho, das mudanças na ética de trabalho, da consolidação de uma nova cultura profissional, da restruturação dos tempos, e, sobretudo, dos impactes, efeitos e consequências pessoais introduzidos por essas mudanças. Com efeito, estes temas derivados, incontornáveis, têm sido sistematicamente - cronicamente - negligenciados ou secundarizados. A sociologia, e restantes ciências sociais, também têm a sua quota parte de culpas, pois mesmo aí estes temas têm sido pouco explorados. Há, contudo, excepções. Parte significativa destas questões é explorada por Richard Sennett, o reputado sociólogo norte-americano (actualmente na London School of Economics), no ensaio 'A Corrosão do Carácter: As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo' (2001), (notavelmente) prefaciado pelo consagrado Carlos Fortuna. Sennett fornece-nos, com lucidez e perspicácia, pistas fundamentais para a compreensão das mudanças, sociais e culturais, na esfera do trabalho e, sobretudo, os seus impactes sobre os sujeitos. Fica a sugestão.
Sennett, Richard (2001), A Corrosão do Carácter: As Consequências Pessoais do Trabalho no Novo Capitalismo, Lisboa: Terramar.
Na sequência do meu comentário-objecção ao argumento dos «dois tempos» de José Pacheco Pereira. O autor desenvolveu esse argumento nos blogues Abrupto e Estudos Sobre o Comunismo. Vale a pena ler, com atenção, o que diz. E vale a pena, também, explorar alguns dos eixos de debate induzidos por esta discussão.
"O meu problema é que lido com um caso individual, não generalizável, de um preso político, altamente motivado, numa cadeia de presos comuns, numa situação de isolamento sui generis, que tem que ser analisado como político, mas também como homem que está preso, sujeito aos efeitos e perversões da vida carcerária. Tento fazê-lo em dois capítulos do livro, um dos quais intitulado provisoriamente "estratégias contra a solidão" Quando li a literatura sobre o encarceramento e os seus efeitos, era para mim claro que alguns dos efeitos de interiorização do regime prisional aí descritos, alguns inclusive de identificação com a instituição prisional, não se verificavam dada a força de resistência psicológica do preso, fruto da sua personalidade e da motivação política e ideológica. Mas, nem tudo era assim tão simples. No entanto, mesmo aqui, tive que me defrontar com a diferença entra a situação dos presos políticos numa cadeia onde só há presos políticos (Peniche ou o Tarrafal por exemplo) e em que estes se defendem da institucionalização criando uma "contra-sociedade" na prisão (aulas, estudo em comum, caixa de solidariedade, actividades partidárias, direcção política das actividades, hierarquia própria ), com o caso de Cunhal que permaneceu longos períodos de prisão isolado. Aí não há esse efeito de "contra-sociedade" limitando os efeitos da "instituição total". Por último, a percepção do tempo vivido, sendo psicológica, é também neste caso, afectada pela importância de uma filosofia individual da acção, impregnada pela história, que corre - cá fora."
Com efeito, de acordo com os pormenores que avança, é notório que o caso de Cunhal constitui um caso singular. Mais: um caso invulgar. E, por isso, como sugere, suponho também que este será um dos raros casos em que não se observa o processo clássico de «transformação do 'eu individual' no 'eu institucional'» (Goffman) associado a instituições totais. O que este caso tem de apaixonante, sociologicamente, é precisamente a forma como mostra como determinantes específicas condicionam, decisivamente, a experiência de reclusão (neste caso, o que Pacheco Pereira designa de «filosofia individual da acção», «resistência psicológica» e «motivação política e ideológica»). Por conseguinte, constituiria uma oportunidade sociológica ímpar para o campo da sociologia das prisões e do encarceramento poder aplicar boa parte do arsenal de análises de conteúdo disponíveis no instrumentário das ciências sociais (análises categoriais, análises avaliativas, análises de co-ocorrências, análises da expressão, análises de enunciação, etc...) a materiais etnográficos/ históricos como diários, correspondência ou textos de Cunhal onde fosse mencionada, explicitamente, a experiência de reclusão. Acresce que, neste contexto, parece poder justificar-se o argumento inicial de Pacheco Pereira onde era sustentada a existência de dois tempos diversos (o dentro e o fora). Esse argumento vai, aliás, de encontro ao que, por exemplo, sustenta J. J. Semedo Moreira quando preconiza que "[a] condição de preso, ateando embora emoções diferentes, é redutível a um mínimo denominador comum de paragem do tempo, durante a qual [os reclusos] se sentem do outro lado da vida e das transformações sociais que mais tarde, quando saírem, virão a encontrar" (Moreira, 1994: 121). Nessa situação, parece então verificar-se a tal sensação recorrente de um tempo lento (senão mesmo parado ou inerte), atribuível ao facto de haver uma dissociação, parcial ou total, face à realidade exterior e de não haver uma vivência ou experiência das transformações sociais no mundo exógeno. Como diria Jean Marc Varaut: "Le monde change et on ne le voit pas changer." (Varaut in Moreira, 1994: 122).
Conseguintemente, a julgar pelo material que JPP aparenta ter já analisado, parece justificar-se a intuição inicial de JPP e, portanto, as possibilidades alternativas que levanto na minha objecção parecem não se aplicar neste caso em concreto. Ademais, no decurso da sua argumentação, JPP refere, ainda, um objecto de estudo apaixonante: a solidão no processo de encarceramento. No caso em causa, solidão forçada... Mas há muitos casos de solidão desejada. Aqui, mais uma vez, as reacções ao «fechamento» são muito diversificadas. Se muitos reclusos parecem manifestar uma preferência pelos espaços colectivos (de trabalho, convívio e recreio), falando em entrevistas, com visível consternação, da solidão, isolamento e sofrimento decorrentes do encarceramento celular; já outros revelam uma preferência por um dos poucos espaços (muitas vezes o único) que podem pessoalizar, personalizar e individuar no meio prisional: a cela. Por exemplo, um dos ex-reclusos que inquiri confessava que, para si, "a cela era um espaço de liberdade", logo acrescentando que "às vezes era um alívio quando se fechava" (Ex-recluso). Um companheiro seu, com uma atitude não muito distante, dizia: "Eu queria era estar fechado na minha cela: 'Esqueçam-me. Deixem-me ficar.' Eu não queria ver ninguém. (...) Ali estava no meu mundo com as minhas coisas: 'Quero dormir, quero comer, quero ler, quero escrever, quero descansar, quero ver televisão'. A minha cela era o meu espaço de liberdade." (Ex-recluso). [atente-se, nestes casos, ao peculiar e paradoxal facto da cela constituir, para muitos reclusos, um espaço de liberdade]. Estas constatações, remetem-nos para uma série de questões que seria pertinente explorar, de um ponto de vista sociológico, no caso particular de Cunhal. Em que medida o isolamento imposto, correspondia a uma solidão desejada? Será que o isolamento correspondia, necessariamente, a um sentimento de solidão? Será que «estratégias contra o isolamento» e «estratégias contra a solidão» podem ser tomadas como equivalentes? Que emoções surgiram, neste caso, associadas ao isolamento (angústia, melancolia, rancor, raiva, indiferença, impassibilidade, frieza, tensão, desânimo, apatia, tédio, medo, etc...)? Como é que evoluiram, no decurso do processo de encarceramento, as emoções associadas ao isolamento? Que variações apresentam? Essas questões, resultando do cruzamento de uma sociologia das emoções com uma sociologia das prisões e do encarceramento, parecem constituir bons portos de ancoragem para uma análise sociológica. Fica a proposta.
Moreira, J. J. Semedo (1994), Vidas Encarceradas. Estudo Sociológico de uma Prisão Masculina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários.
Anda meio mundo na blogosfera fascinado com a intrigante «capacidade de leitura» do professor Marcelo Rebelo de Sousa (questiono-me se seleccionei o adjectivo adequado). Não constituo excepção. Depois de Ricardo de Araújo Pereira, José Pacheco Pereira, Francisco José Viegas, Nelson de Matos, Fernando Gouveia, quero também retomar o tema. Proponho, todavia, um ponto de vista diverso do que têm prevalecido. Considero que estamos perante um «facto sociológico» de relevo. MRS constitui, porventura, o ponto paroxal dos tempos de «zapping cultural» que estamos a viver (a expressão, segundo sei, é da socióloga Idalina Conde). Alguns sociólogos têm chamado a atenção para o facto da multiplicação das referências e a explosão da informação ter gerado um desconcertante efeito de «info-overload», cujas consequências imediatas seriam uma espécie, mais ou menos profunda, de «zapping cultural». Qualquer cientista social já o sentiu na pele. Com um número cada vez mais elevado de publicações disponíveis, a construção de quadros (teórico-conceptuais) de referência e a revisão do «state of the art» da literatura sobre um determinado tema, têm-se caracterizado por uma crescente diminuição da profundidade analítica, em detrimento da necessidade de cobrir a extensa pluralidade de referências e debates (a qualidade cede à quantidade, a extensividade sobrepõe-se à intensidade). A sociologia não é excepção. Neste caso, poder-se-ía mesmo arriscar dizer que a «sociologia» está a ser crescentemente substuída por uma «sociografia» (no sentido da perda de profundidade). Conseguintemente, o tempo ameaça transformar-se de «condição» num «problema». Não me desejo arvorar num crítico social (ao jeito de um «zeitdiagnostiker» alemão: Simmel, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Marcuse, Bauman...), nem num fazedor de «sociologia espôntanea», mas essa questão merece, pelo menos, alguma atenção sociológica. Ray Bradbury quando escreveu a sua notável obra distópica «Fahrenheit 451» não antecipou este problema: um mundo com livros demais para que cada «resistente» pudesse decorá-lo. Não será, quiçá, despiciendo dizer que a cultura de massas está a dar lugar a uma cultura em massa. Qual a relação deste fenómeno com MRS? Bem, MRS leva esta lógica às suas últimas consequências. Ele reduz as referências às obras ao título e a uma ou outra palavra (quando é generoso)... além de denunciar o tique (pós-modernista??) de indicar obras sem um nexo de ligação entre elas (aguardo com impaciência o dia em que iremos ser presenteados pelo desconcertante professor com listas de manuais escolares, livretes de aforismas, catálogos da «La Redoute», mapas, manuais de instruções e afins publicações). Num mundo tão cheio de informação, torna-se fundamental a «selecção» da informação... MRS limita-se a bombardear-nos com dados. É pena. Uma lista, uma boa lista (criteriosa e judiciosa), pode ser um «objecto» mobilizador. MRS não é, apenas, um (des)leitor famigerado. É, antes, uma imagem daquilo em que poderemos transformar-nos. Fica a preocupação. Apesar do apontamento sociológico não resisto a reproduzir dois comentários hilariantes sobre MRS. O primeiro é de Ricardo de Araújo Pereira (Gato Fedorento), e o segundo de José Pacheco Pereira (Abrupto).
Ricardo de Araújo Pereira
"Seja qual for a remuneração que o prof. Marcelo Rebelo de Sousa aufere pela coluna «Li e Gostei», que escreve na revista «Os Meus Livros», esse é o dinheiro mais bem ganho da imprensa portuguesa. E é uma quantia que, tenho a certeza, enfurece o pobre estagiário que passa a limpo a lista de títulos a lançar no mês em curso - aliás apropriadamente publicada ao lado da coluna do prof. Marcelo - e que é tão estimulante como o texto do professor. Na coluna deste mês (referente, portanto, às leituras que fez no mês passado), ficamos a saber que, nos 28 dias de Fevereiro último, o prof. Marcelo leu e gostou de (eu contei) 57 livros, uma revista e um calendário. E da coluna não constam, como se percebe pelo título, as obras que o professor leu e não gostou. (Ideias para crónicas do prof. Marcelo em futuros números da «Os Meus Livros»: "Li e Não Gostei", "Li Até Meio e Depois Acendi a Lareira Com Eles", "Vi na Livraria e Até Me Interessou Mas Não Me Dava Jeito Comprar Nessa Altura de Maneiras Que Ficou Para Uma Próxima".) Apesar das duas páginas a que tem direito, os títulos são tantos que o professor quase não diz uma palavra sobre os livros. E, quando diz, é mesmo só isso: uma palavra. Que, normalmente, tanto pode ser aplicada ao livro em causa como a outra coisa qualquer, tal como um vinho ou um frasco de perfume. São observações do género: «De Eça de Queirós, li "Os Maias" (excepcional); de Camilo, "O Esqueleto" (inebriante); e de Aquilino, "O Romance da Raposa" (fresquinho).» Um mérito ninguém tira ao professor: valoriza o trabalho das pequenas editoras, com particular destaque, é certo, para a editorial Minerva (arrisco dizer que o professor lê tudo o que esta editora publica), mas sem deixar de estar atento à actividade de uma Editorial Maresias, da O Mirante, da Liga dos Amigos de Sesimbra e da Paróquia da Maia (juro que é verdade). Mas nem tudo é aborrecido e inútil na coluna: no número de Setembro de 2002, o prof. Marcelo fez, na minha opinião, a sua melhor sugestão de leitura de sempre e, como assim era, dedicou, não uma, mas três palavras entre parêntesis à obra em apreço: «de Maria de Lourdes Brázio Tavares Monteiro, "A Mais Honrada Aldeia do Reino" (o Fundão intimista)». Já farto (como a generalidade dos leitores, suponho) de livros sobre a dimensão mais pública e mediática do Fundão, precipitei-me para as livrarias para adquirir a obra que dá a conhecer o lado mais intimista da localidade, antes que esgotasse. E depois, evidentemente, li e gostei."
José Pacheco Pereira.
"Só agora reparei que a coluna habitual de Marcelo Rebelo de Sousa na revista se chama "Li e gostei". Na lista dos "lidos" deste mês estão sessenta e cinco livros, mais de dois por dia, incluindo o Dicionário Prático para o Estudo do Português e Gestão de Serviços. A Avaliação de Qualidade. Isso é que é "ler"! A coluna devia era chamar-se "Faço listas de livros e gosto". Ele e Os Meus Livros. Depois queixem-se da banalização da leitura."
Ontem, José Pacheco Pereira escreveu, no seu blogue Abrupto, o seguinte: "Estou a escrever um livro (talvez acabe estas férias) que tem um problema complicado a resolver. É um livro sobre um homem que está preso onze anos, cuja vida no mundo carcerário é controlada ao milímetro, e cujos gestos possíveis e permitidos representam uma rotina imposta à força. Apitos, acender e apagar de luz, horários impiedosos. A prisão é, nos primeiros anos, uma materialização arquitectónica de uma ideia filosófica: o Panopticon de Bentham. Feita para tudo ser visto a partir de um olho central, o local último do poder. A "estrela de seis pontas". Depois de quase um ano, em que não foi autorizado a fazer nada, o homem lê, estuda, escreve, desenha e pinta. Cá fora há uma guerra, fria , mas guerra. Acontece tudo. O tempo é solto, é rápido, é o tempo da modernidade, acelerado. Como juntar num mesmo movimento tanta imobilidade e tanta rapidez?"
Comentário: Tenho estado a conduzir um estudo sociológico, nos últimos dois anos, sobre prisões e encarceramento. Permita-me, pois, caro JPP, que levante uma pequena objecção à dualidade temporal que evoca (entre o dentro e o fora). O tempo «dentro» não é «linear» (ou, se quisermos, «linearmente lento»), quando se procura fazer uma «fenomenologia da vida prisional». Com efeito, em boa parte das etnografias prisionais que li até hoje é notória a existência de diversas fases na percepção da passagem do tempo por parte de reclusos (sobretudo, em reclusos com penas de longa duração). Vejam-se, por exemplo, algumas breves passagens sobre o assunto nas etnografias prisionais clássicas "The Prison Community" (1940) de Donald Clemmer, "The Society of Captives" (1958) de Gresham Sykes, "The Felon" (1970 de John Irwin e "Stateville" (1977) de James B. Jacobs. Entre nós, consulte-se o trabalho de Moreira (1994) e de Cunha (1996, 2002). E veja-se, a título exemplificativo, o que me dizia um ex-recluso condenado a uma pena relativamente extensa (9 anos) em sede de uma «entrevista biográfica» (história de vida/ estória de vida). Segundo a sua «experiência vivida» afirmava existirem três fases distintas na percepção da passagem do tempo:
"O tempo na cadeia tem três fases. Tem a fase inicial que custa muito... de adaptação. O tempo custa muito a passar. Depois o do meio, passa-se num instante: 'O quê já passaram quatro anos...' Depois no final é a ansiedade, quando se aproxima a saída. Aí o tempo volta a ser muito lento. Mas na fase do meio nem se dá por ela passar. Não se vive, vegeta-se... A entrada custa a aceitar... A adaptação áquele ambiente, os problemas, a vida cá fora, o que se deixou, os crimes, as perspectivas de vida... às vezes pensa-se na evasão. Depois pensamos: 'Isto é uma fase de passagem... vamos lá ver se me aguento cá dentro'. É a parte mais difícil. Depois uma pessoa mentaliza-se... Passa muito rápido. Depois vem a ânsia de viver. A ânsia da liberdade." (Ex-recluso)
Assim, de acordo com este ex-recluso, no período inicial, de adaptação à prisão, de assimilação da cultura penitenciária e de internalização dos tempos institucionais, o tempo custa muito a passar ["Você não imagina como é acordar a noite inteira, olhar para o relógio e ver que só passou uma hora, às vezes meia... uma pessoa pode enlouquecer à espera do dia seguinte. É um tempo muito lento... muito lento. E custoso, obviamente." (Ex-recluso)]. Na fase que se segue, pontifica o sentimento do tempo parado e inerte, onde os rituais quotidianos são incorporados e os dias passam sem se dar conta. Na última etapa, regressa o tempo que custa muito a passar, devido à enorme ansiedade provocada pela proximidade da libertação. Ademais, esta percepção do tempo não é universal (e é, na verdade, algo teleológico argumentar que todos os reclusos passam por estas três fases) e muitos reclusos, apresentam diferentes maneiras de experienciar a passagem do tempo. As tempografias da experiência de reclusão são, por conseguinte, muito heterogéneas. Assim questiono-me porque tentar dar uma noção de imobilidade «lá dentro». Porque não dar uma noção menos linear da evolução da percepção do tempo lá dentro, com as suas flutuações, mutações, hesitações, etc...? Fica a sugestão.
Moreira, J. J. Semedo (1994), Vidas Encarceradas. Estudo Sociológico de uma Prisão Masculina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários.
Cunha, Manuela Ivone (1996), Malhas que a Reclusão Tece: Questões de Identidade numa Prisão Feminina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários.
Cunha, Manuela Ivone (2002), Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos, Lisboa: Fim de Século.
Nota Adicional: Mas, claro, isto trata-se (apenas) de um trabalho exploratório de um estudante de sociologia e, por isso, os resultados que dele provém devem ser tratados com algumas reservas.
A «humildade científica» é, porventura, dos atributos mais difíceis de encontrar (e, reconheça-se, de concretizar). Há, todavia, excepções. Excepções notáveis. Num lendário artigo do repórter do jornal .Nouvel Observateur., Gérard Petitjean (publicado a 7 de Abril de 1975), o jornalista apresentava um pequeno (e notável) episódio sobre os concorridos cursos de Michel Foucault (1926-1984) no Collége de France: .Quando Foucault entra na arena, rápido, dinâmico, como alguém que se lança na água, passa por cima dos corpos para atingir sua cátedra, repele os gravadores para colocar os seus papéis, retira o paletó, acende uma lâmpada e começa, a cem por hora. Voz forte, eficaz, retransmitida por alto-falantes, única concessão ao modernismo de uma sala mal iluminada por uma luz que sobe por arandelas de estuque. Há trezentos lugares e quinhentas pessoas apinhadas, tapando o menor espaço livre [...] Nenhum efeito oratório. É límpido e terrivelmente eficaz. Sem a menor concessão à improvisação. Foucault tem doze horas por ano para explicar, em curso público, a direcção de sua pesquisa durante o ano que acabou de findar. Então, comprime ao máximo e preenche as margens como os correspondentes que ainda têm muito o que dizer quando chegaram ao fim de sua folha. 19:45. Foucault pára. Os estudantes correm para a sua escrivaninha. Não para falar-lhe, mas para desligar os gravadores. Sem perguntas. Na confusão, Foucault está sozinho.. E Foucault comenta: .Seria preciso poder discutir o que propus. Algumas vezes, quando o curso não foi bom, seria preciso pouca coisa, uma pergunta, para reordenar tudo. Mas essa pergunta nunca vem. Na França, o efeito de grupo torna qualquer discussão real impossível. E, como não há canal de retorno, o curso fica teatral. Tenho uma relação de ator ou de acrobata com as pessoas que estão presentes. E, quando acabei de falar, uma sensação de solidão total..." (Petitjean in Foucault, 2000: xi). Goste-se, ou não, do autor francês é difícil não reconhecer a humildade das suas palavras. Fica o exemplo.
Foucault, Michel (2000), Em Defesa da Sociedade, São Paulo: Martins Fontes.
Num dos seus mais conhecidos ensaios, «Marginalia», E. A. Poe (1809-1849), debruçava-se, de forma eloquente, sobre o seu fascínio pelas anotações, apontamentos e comentários com que coloria abundantemente as margens dos seus livros. Essas notas anódinas - nas suas palavras «scribblings», «pencillings» e «marginal jottings» - constituíam, em sua opinião, lembretes imprescindíveis na reconstituição do texto; embora se tornassem desprovidos de significado e ininteligíveis se separados, isolados ou subtraídos do seu contexto original. Este blogue é, também, ou sobretudo, de alguma forma, uma compilação desses «scribblings», «pencillings» e «marginal jottings» que tanto fascinavam Poe. Sociológicos, claro.