A «humildade científica» é, porventura, dos atributos mais difíceis de encontrar (e, reconheça-se, de concretizar). Há, todavia, excepções. Excepções notáveis. Num lendário artigo do repórter do jornal .Nouvel Observateur., Gérard Petitjean (publicado a 7 de Abril de 1975), o jornalista apresentava um pequeno (e notável) episódio sobre os concorridos cursos de Michel Foucault (1926-1984) no Collége de France: .Quando Foucault entra na arena, rápido, dinâmico, como alguém que se lança na água, passa por cima dos corpos para atingir sua cátedra, repele os gravadores para colocar os seus papéis, retira o paletó, acende uma lâmpada e começa, a cem por hora. Voz forte, eficaz, retransmitida por alto-falantes, única concessão ao modernismo de uma sala mal iluminada por uma luz que sobe por arandelas de estuque. Há trezentos lugares e quinhentas pessoas apinhadas, tapando o menor espaço livre [...] Nenhum efeito oratório. É límpido e terrivelmente eficaz. Sem a menor concessão à improvisação. Foucault tem doze horas por ano para explicar, em curso público, a direcção de sua pesquisa durante o ano que acabou de findar. Então, comprime ao máximo e preenche as margens como os correspondentes que ainda têm muito o que dizer quando chegaram ao fim de sua folha. 19:45. Foucault pára. Os estudantes correm para a sua escrivaninha. Não para falar-lhe, mas para desligar os gravadores. Sem perguntas. Na confusão, Foucault está sozinho.. E Foucault comenta: .Seria preciso poder discutir o que propus. Algumas vezes, quando o curso não foi bom, seria preciso pouca coisa, uma pergunta, para reordenar tudo. Mas essa pergunta nunca vem. Na França, o efeito de grupo torna qualquer discussão real impossível. E, como não há canal de retorno, o curso fica teatral. Tenho uma relação de ator ou de acrobata com as pessoas que estão presentes. E, quando acabei de falar, uma sensação de solidão total..." (Petitjean in Foucault, 2000: xi). Goste-se, ou não, do autor francês é difícil não reconhecer a humildade das suas palavras. Fica o exemplo.
Foucault, Michel (2000), Em Defesa da Sociedade, São Paulo: Martins Fontes.
Publicado por socioblogue em junho 20, 2003 10:58 AM