Ontem, José Pacheco Pereira escreveu, no seu blogue Abrupto, o seguinte: "Estou a escrever um livro (talvez acabe estas férias) que tem um problema complicado a resolver. É um livro sobre um homem que está preso onze anos, cuja vida no mundo carcerário é controlada ao milímetro, e cujos gestos possíveis e permitidos representam uma rotina imposta à força. Apitos, acender e apagar de luz, horários impiedosos. A prisão é, nos primeiros anos, uma materialização arquitectónica de uma ideia filosófica: o Panopticon de Bentham. Feita para tudo ser visto a partir de um olho central, o local último do poder. A "estrela de seis pontas". Depois de quase um ano, em que não foi autorizado a fazer nada, o homem lê, estuda, escreve, desenha e pinta. Cá fora há uma guerra, fria , mas guerra. Acontece tudo. O tempo é solto, é rápido, é o tempo da modernidade, acelerado. Como juntar num mesmo movimento tanta imobilidade e tanta rapidez?"
Comentário: Tenho estado a conduzir um estudo sociológico, nos últimos dois anos, sobre prisões e encarceramento. Permita-me, pois, caro JPP, que levante uma pequena objecção à dualidade temporal que evoca (entre o dentro e o fora). O tempo «dentro» não é «linear» (ou, se quisermos, «linearmente lento»), quando se procura fazer uma «fenomenologia da vida prisional». Com efeito, em boa parte das etnografias prisionais que li até hoje é notória a existência de diversas fases na percepção da passagem do tempo por parte de reclusos (sobretudo, em reclusos com penas de longa duração). Vejam-se, por exemplo, algumas breves passagens sobre o assunto nas etnografias prisionais clássicas "The Prison Community" (1940) de Donald Clemmer, "The Society of Captives" (1958) de Gresham Sykes, "The Felon" (1970 de John Irwin e "Stateville" (1977) de James B. Jacobs. Entre nós, consulte-se o trabalho de Moreira (1994) e de Cunha (1996, 2002). E veja-se, a título exemplificativo, o que me dizia um ex-recluso condenado a uma pena relativamente extensa (9 anos) em sede de uma «entrevista biográfica» (história de vida/ estória de vida). Segundo a sua «experiência vivida» afirmava existirem três fases distintas na percepção da passagem do tempo:
"O tempo na cadeia tem três fases. Tem a fase inicial que custa muito... de adaptação. O tempo custa muito a passar. Depois o do meio, passa-se num instante: 'O quê já passaram quatro anos...' Depois no final é a ansiedade, quando se aproxima a saída. Aí o tempo volta a ser muito lento. Mas na fase do meio nem se dá por ela passar. Não se vive, vegeta-se... A entrada custa a aceitar... A adaptação áquele ambiente, os problemas, a vida cá fora, o que se deixou, os crimes, as perspectivas de vida... às vezes pensa-se na evasão. Depois pensamos: 'Isto é uma fase de passagem... vamos lá ver se me aguento cá dentro'. É a parte mais difícil. Depois uma pessoa mentaliza-se... Passa muito rápido. Depois vem a ânsia de viver. A ânsia da liberdade." (Ex-recluso)
Assim, de acordo com este ex-recluso, no período inicial, de adaptação à prisão, de assimilação da cultura penitenciária e de internalização dos tempos institucionais, o tempo custa muito a passar ["Você não imagina como é acordar a noite inteira, olhar para o relógio e ver que só passou uma hora, às vezes meia... uma pessoa pode enlouquecer à espera do dia seguinte. É um tempo muito lento... muito lento. E custoso, obviamente." (Ex-recluso)]. Na fase que se segue, pontifica o sentimento do tempo parado e inerte, onde os rituais quotidianos são incorporados e os dias passam sem se dar conta. Na última etapa, regressa o tempo que custa muito a passar, devido à enorme ansiedade provocada pela proximidade da libertação. Ademais, esta percepção do tempo não é universal (e é, na verdade, algo teleológico argumentar que todos os reclusos passam por estas três fases) e muitos reclusos, apresentam diferentes maneiras de experienciar a passagem do tempo. As tempografias da experiência de reclusão são, por conseguinte, muito heterogéneas. Assim questiono-me porque tentar dar uma noção de imobilidade «lá dentro». Porque não dar uma noção menos linear da evolução da percepção do tempo lá dentro, com as suas flutuações, mutações, hesitações, etc...? Fica a sugestão.
Moreira, J. J. Semedo (1994), Vidas Encarceradas. Estudo Sociológico de uma Prisão Masculina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários.
Cunha, Manuela Ivone (1996), Malhas que a Reclusão Tece: Questões de Identidade numa Prisão Feminina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários.
Cunha, Manuela Ivone (2002), Entre o Bairro e a Prisão: Tráfico e Trajectos, Lisboa: Fim de Século.
Nota Adicional: Mas, claro, isto trata-se (apenas) de um trabalho exploratório de um estudante de sociologia e, por isso, os resultados que dele provém devem ser tratados com algumas reservas.
Publicado por socioblogue em junho 20, 2003 11:33 AM