junho 20, 2003

Marcelo e o «Zapping Cultural»

Anda meio mundo na blogosfera fascinado com a intrigante «capacidade de leitura» do professor Marcelo Rebelo de Sousa (questiono-me se seleccionei o adjectivo adequado). Não constituo excepção. Depois de Ricardo de Araújo Pereira, José Pacheco Pereira, Francisco José Viegas, Nelson de Matos, Fernando Gouveia, quero também retomar o tema. Proponho, todavia, um ponto de vista diverso do que têm prevalecido. Considero que estamos perante um «facto sociológico» de relevo. MRS constitui, porventura, o ponto paroxal dos tempos de «zapping cultural» que estamos a viver (a expressão, segundo sei, é da socióloga Idalina Conde). Alguns sociólogos têm chamado a atenção para o facto da multiplicação das referências e a explosão da informação ter gerado um desconcertante efeito de «info-overload», cujas consequências imediatas seriam uma espécie, mais ou menos profunda, de «zapping cultural». Qualquer cientista social já o sentiu na pele. Com um número cada vez mais elevado de publicações disponíveis, a construção de quadros (teórico-conceptuais) de referência e a revisão do «state of the art» da literatura sobre um determinado tema, têm-se caracterizado por uma crescente diminuição da profundidade analítica, em detrimento da necessidade de cobrir a extensa pluralidade de referências e debates (a qualidade cede à quantidade, a extensividade sobrepõe-se à intensidade). A sociologia não é excepção. Neste caso, poder-se-ía mesmo arriscar dizer que a «sociologia» está a ser crescentemente substuída por uma «sociografia» (no sentido da perda de profundidade). Conseguintemente, o tempo ameaça transformar-se de «condição» num «problema». Não me desejo arvorar num crítico social (ao jeito de um «zeitdiagnostiker» alemão: Simmel, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Marcuse, Bauman...), nem num fazedor de «sociologia espôntanea», mas essa questão merece, pelo menos, alguma atenção sociológica. Ray Bradbury quando escreveu a sua notável obra distópica «Fahrenheit 451» não antecipou este problema: um mundo com livros demais para que cada «resistente» pudesse decorá-lo. Não será, quiçá, despiciendo dizer que a cultura de massas está a dar lugar a uma cultura em massa. Qual a relação deste fenómeno com MRS? Bem, MRS leva esta lógica às suas últimas consequências. Ele reduz as referências às obras ao título e a uma ou outra palavra (quando é generoso)... além de denunciar o tique (pós-modernista??) de indicar obras sem um nexo de ligação entre elas (aguardo com impaciência o dia em que iremos ser presenteados pelo desconcertante professor com listas de manuais escolares, livretes de aforismas, catálogos da «La Redoute», mapas, manuais de instruções e afins publicações). Num mundo tão cheio de informação, torna-se fundamental a «selecção» da informação... MRS limita-se a bombardear-nos com dados. É pena. Uma lista, uma boa lista (criteriosa e judiciosa), pode ser um «objecto» mobilizador. MRS não é, apenas, um (des)leitor famigerado. É, antes, uma imagem daquilo em que poderemos transformar-nos. Fica a preocupação. Apesar do apontamento sociológico não resisto a reproduzir dois comentários hilariantes sobre MRS. O primeiro é de Ricardo de Araújo Pereira (Gato Fedorento), e o segundo de José Pacheco Pereira (Abrupto).

Ricardo de Araújo Pereira
"Seja qual for a remuneração que o prof. Marcelo Rebelo de Sousa aufere pela coluna «Li e Gostei», que escreve na revista «Os Meus Livros», esse é o dinheiro mais bem ganho da imprensa portuguesa. E é uma quantia que, tenho a certeza, enfurece o pobre estagiário que passa a limpo a lista de títulos a lançar no mês em curso - aliás apropriadamente publicada ao lado da coluna do prof. Marcelo - e que é tão estimulante como o texto do professor. Na coluna deste mês (referente, portanto, às leituras que fez no mês passado), ficamos a saber que, nos 28 dias de Fevereiro último, o prof. Marcelo leu e gostou de (eu contei) 57 livros, uma revista e um calendário. E da coluna não constam, como se percebe pelo título, as obras que o professor leu e não gostou. (Ideias para crónicas do prof. Marcelo em futuros números da «Os Meus Livros»: "Li e Não Gostei", "Li Até Meio e Depois Acendi a Lareira Com Eles", "Vi na Livraria e Até Me Interessou Mas Não Me Dava Jeito Comprar Nessa Altura de Maneiras Que Ficou Para Uma Próxima".) Apesar das duas páginas a que tem direito, os títulos são tantos que o professor quase não diz uma palavra sobre os livros. E, quando diz, é mesmo só isso: uma palavra. Que, normalmente, tanto pode ser aplicada ao livro em causa como a outra coisa qualquer, tal como um vinho ou um frasco de perfume. São observações do género: «De Eça de Queirós, li "Os Maias" (excepcional); de Camilo, "O Esqueleto" (inebriante); e de Aquilino, "O Romance da Raposa" (fresquinho).» Um mérito ninguém tira ao professor: valoriza o trabalho das pequenas editoras, com particular destaque, é certo, para a editorial Minerva (arrisco dizer que o professor lê tudo o que esta editora publica), mas sem deixar de estar atento à actividade de uma Editorial Maresias, da O Mirante, da Liga dos Amigos de Sesimbra e da Paróquia da Maia (juro que é verdade). Mas nem tudo é aborrecido e inútil na coluna: no número de Setembro de 2002, o prof. Marcelo fez, na minha opinião, a sua melhor sugestão de leitura de sempre e, como assim era, dedicou, não uma, mas três palavras entre parêntesis à obra em apreço: «de Maria de Lourdes Brázio Tavares Monteiro, "A Mais Honrada Aldeia do Reino" (o Fundão intimista)». Já farto (como a generalidade dos leitores, suponho) de livros sobre a dimensão mais pública e mediática do Fundão, precipitei-me para as livrarias para adquirir a obra que dá a conhecer o lado mais intimista da localidade, antes que esgotasse. E depois, evidentemente, li e gostei."

José Pacheco Pereira.
"Só agora reparei que a coluna habitual de Marcelo Rebelo de Sousa na revista se chama "Li e gostei". Na lista dos "lidos" deste mês estão sessenta e cinco livros, mais de dois por dia, incluindo o Dicionário Prático para o Estudo do Português e Gestão de Serviços. A Avaliação de Qualidade. Isso é que é "ler"! A coluna devia era chamar-se "Faço listas de livros e gosto". Ele e Os Meus Livros. Depois queixem-se da banalização da leitura."

Publicado por socioblogue em junho 20, 2003 06:23 PM
Comentários

Caro João Nogueira,

Cumprimento-o e agradeço-lhe as referências ao meu livro "A mais honrada aldeia do reino".

maria de Lurdes Tavares Monteiro

Afixado por: Maria de Lurdes Tavares Monteiro em abril 7, 2004 10:38 PM