Na sequência do meu comentário-objecção ao argumento dos «dois tempos» de José Pacheco Pereira. O autor desenvolveu esse argumento nos blogues Abrupto e Estudos Sobre o Comunismo. Vale a pena ler, com atenção, o que diz. E vale a pena, também, explorar alguns dos eixos de debate induzidos por esta discussão.
"O meu problema é que lido com um caso individual, não generalizável, de um preso político, altamente motivado, numa cadeia de presos comuns, numa situação de isolamento sui generis, que tem que ser analisado como político, mas também como homem que está preso, sujeito aos efeitos e perversões da vida carcerária. Tento fazê-lo em dois capítulos do livro, um dos quais intitulado provisoriamente "estratégias contra a solidão" Quando li a literatura sobre o encarceramento e os seus efeitos, era para mim claro que alguns dos efeitos de interiorização do regime prisional aí descritos, alguns inclusive de identificação com a instituição prisional, não se verificavam dada a força de resistência psicológica do preso, fruto da sua personalidade e da motivação política e ideológica. Mas, nem tudo era assim tão simples. No entanto, mesmo aqui, tive que me defrontar com a diferença entra a situação dos presos políticos numa cadeia onde só há presos políticos (Peniche ou o Tarrafal por exemplo) e em que estes se defendem da institucionalização criando uma "contra-sociedade" na prisão (aulas, estudo em comum, caixa de solidariedade, actividades partidárias, direcção política das actividades, hierarquia própria ), com o caso de Cunhal que permaneceu longos períodos de prisão isolado. Aí não há esse efeito de "contra-sociedade" limitando os efeitos da "instituição total". Por último, a percepção do tempo vivido, sendo psicológica, é também neste caso, afectada pela importância de uma filosofia individual da acção, impregnada pela história, que corre - cá fora."
Com efeito, de acordo com os pormenores que avança, é notório que o caso de Cunhal constitui um caso singular. Mais: um caso invulgar. E, por isso, como sugere, suponho também que este será um dos raros casos em que não se observa o processo clássico de «transformação do 'eu individual' no 'eu institucional'» (Goffman) associado a instituições totais. O que este caso tem de apaixonante, sociologicamente, é precisamente a forma como mostra como determinantes específicas condicionam, decisivamente, a experiência de reclusão (neste caso, o que Pacheco Pereira designa de «filosofia individual da acção», «resistência psicológica» e «motivação política e ideológica»). Por conseguinte, constituiria uma oportunidade sociológica ímpar para o campo da sociologia das prisões e do encarceramento poder aplicar boa parte do arsenal de análises de conteúdo disponíveis no instrumentário das ciências sociais (análises categoriais, análises avaliativas, análises de co-ocorrências, análises da expressão, análises de enunciação, etc...) a materiais etnográficos/ históricos como diários, correspondência ou textos de Cunhal onde fosse mencionada, explicitamente, a experiência de reclusão. Acresce que, neste contexto, parece poder justificar-se o argumento inicial de Pacheco Pereira onde era sustentada a existência de dois tempos diversos (o dentro e o fora). Esse argumento vai, aliás, de encontro ao que, por exemplo, sustenta J. J. Semedo Moreira quando preconiza que "[a] condição de preso, ateando embora emoções diferentes, é redutível a um mínimo denominador comum de paragem do tempo, durante a qual [os reclusos] se sentem do outro lado da vida e das transformações sociais que mais tarde, quando saírem, virão a encontrar" (Moreira, 1994: 121). Nessa situação, parece então verificar-se a tal sensação recorrente de um tempo lento (senão mesmo parado ou inerte), atribuível ao facto de haver uma dissociação, parcial ou total, face à realidade exterior e de não haver uma vivência ou experiência das transformações sociais no mundo exógeno. Como diria Jean Marc Varaut: "Le monde change et on ne le voit pas changer." (Varaut in Moreira, 1994: 122).
Conseguintemente, a julgar pelo material que JPP aparenta ter já analisado, parece justificar-se a intuição inicial de JPP e, portanto, as possibilidades alternativas que levanto na minha objecção parecem não se aplicar neste caso em concreto. Ademais, no decurso da sua argumentação, JPP refere, ainda, um objecto de estudo apaixonante: a solidão no processo de encarceramento. No caso em causa, solidão forçada... Mas há muitos casos de solidão desejada. Aqui, mais uma vez, as reacções ao «fechamento» são muito diversificadas. Se muitos reclusos parecem manifestar uma preferência pelos espaços colectivos (de trabalho, convívio e recreio), falando em entrevistas, com visível consternação, da solidão, isolamento e sofrimento decorrentes do encarceramento celular; já outros revelam uma preferência por um dos poucos espaços (muitas vezes o único) que podem pessoalizar, personalizar e individuar no meio prisional: a cela. Por exemplo, um dos ex-reclusos que inquiri confessava que, para si, "a cela era um espaço de liberdade", logo acrescentando que "às vezes era um alívio quando se fechava" (Ex-recluso). Um companheiro seu, com uma atitude não muito distante, dizia: "Eu queria era estar fechado na minha cela: 'Esqueçam-me. Deixem-me ficar.' Eu não queria ver ninguém. (...) Ali estava no meu mundo com as minhas coisas: 'Quero dormir, quero comer, quero ler, quero escrever, quero descansar, quero ver televisão'. A minha cela era o meu espaço de liberdade." (Ex-recluso). [atente-se, nestes casos, ao peculiar e paradoxal facto da cela constituir, para muitos reclusos, um espaço de liberdade]. Estas constatações, remetem-nos para uma série de questões que seria pertinente explorar, de um ponto de vista sociológico, no caso particular de Cunhal. Em que medida o isolamento imposto, correspondia a uma solidão desejada? Será que o isolamento correspondia, necessariamente, a um sentimento de solidão? Será que «estratégias contra o isolamento» e «estratégias contra a solidão» podem ser tomadas como equivalentes? Que emoções surgiram, neste caso, associadas ao isolamento (angústia, melancolia, rancor, raiva, indiferença, impassibilidade, frieza, tensão, desânimo, apatia, tédio, medo, etc...)? Como é que evoluiram, no decurso do processo de encarceramento, as emoções associadas ao isolamento? Que variações apresentam? Essas questões, resultando do cruzamento de uma sociologia das emoções com uma sociologia das prisões e do encarceramento, parecem constituir bons portos de ancoragem para uma análise sociológica. Fica a proposta.
Moreira, J. J. Semedo (1994), Vidas Encarceradas. Estudo Sociológico de uma Prisão Masculina, Lisboa: Centro de Estudos Judiciários.
Publicado por socioblogue em junho 21, 2003 06:17 AM