junho 22, 2003

As Sociedades Contemporâneas

Anthony Giddens tem proposto insistentemente o conceito de «dupla-hermenêutica» (cf. Giddens, 1992, 1994) para se referir à forma como o conhecimento proveniente das ciências sociais é apropriado pelos actores sociais, modificando as suas representações, disposições e práticas (e como, por sua vez, tais modificações precisam de ser analisadas). Ocorreu-me Giddens quando me deparei pela blogosfera (ou blogolândia segundo Guerra e Pas) com expressões como «sociedade pós-moderna» ou «modernidade» descontextualizadas ou desajustadas dos seus sentidos originais, quando se procurava falar das sociedades contemporâneas. Utilizei aqui a expressão «sociedades contemporâneas». Essa designação constitui um artifício semântico que procura não classificar explicitamente a contemporaneidade, fugindo às controvérsias e polémicas associadas a essa categorização. Porém, para além dessa denominação são por vezes utilizados, em alternativa, inúmeros termos, mais ou menos análogos, na sua designação: «sociedade de risco», «sociedade pós-industrial», «sociedade pós-tradicional», «pós-modernidade», «modernidade tardia», «tardo-modernidade», «sociedade pós-moderna», «pós-capitalismo», «sociedade da informação», «sociedade do conhecimento», «sociedade programada», «sociedade em rede», «sociedade global», «segunda modernidade», «modernidade reflexiva», «alta modernidade», «modernidade radicalizada», «hipermodernidade», «sobremodernidade», «modernidade ambivalente», «capitalismo flexível», «capitalismo desorganizado», «capitalismo avançado», «era da descontinuidade», «era dos extremos», «era da informação», «fim da história», «pós-fordismo». É, contudo, óbvio que muitas destas expressões não constituem, propriamente, sinónimos. Na verdade, algumas dessas designações são mais inclusivas, outras mais exclusivas. Umas mais analíticas, outras mais descritivas. Esta pluralidade terminológica deve-se ao facto destes termos estarem associados, de forma mais ou menos directa, a sistemas de pensamento alternativos e, portanto, a diferentes formas de conceber as sociedades contemporâneas. Por conseguinte, falar de «sociedade pós-industrial» (Daniel Bell), de «sociedade de risco» (Ulrich Beck), de «modernidade tardia» (Anthony Giddens), de «pós-modernidade» (Jean François Lyotard), de «modernidade ambivalente» (Zygmunt Bauman), de «sociedade programada», (Alain Touraine), de «sobremodernidade» (Marc Augé), de «capitalismo desorganizado» (Claus Offe, Scott Lash e John Urry), de «sociedade em rede» (Manuel Castells) ou de «fim da história» (Francis Fukuyama) não é irrelevante e remete, muitas vezes, para universos de referência distintos, debates diferenciados e filiações epistemológicas descoincidentes. Curioso é que apenas algumas destas expressões sejam alvo do efeito da dupla-hermenêutica (isto daria um estudo socio-antropológico delicioso). Ademais, a popularidade de alguns destes termos deve-se, entre outras coisas, à sua «vacuidade». Já o sublinhava Claude Grignon, sociólogo especialista nas questões alimentares. Dizia o autor que: "Les concepts «lourds», comme «mutation», «modernisation», «industrialisation» ou «urbanisation», auxquels on fait souvent appel pour rendre compte des tendances lourdes, déblaient si énergiquement le terrain vague où ils font se rencontrer la sociologie, l'économie et l'histoire qu'il serait bien étonnant qu.on puisse encore distinguer quelque chose après leur passage." (Grignon, 1986: 132). [esta passagem notável de Grignon, obscura e pouco conhecida, devo-a ao labor «arqueológico» de Luis Soares, meu amigo, colega de faculdade e companheiro de viagens sociológicas] Fica o reparo.

Giddens, Anthony (1992), As Consequências da Modernidade, Oeiras: Celta.
Giddens, Anthony (1994), Modernidade e Identidade Pessoal, Oeiras: Celta. (a tradução para o português desta obra foi feita pelo antropólogo-blogger Miguel Vale de Almeida)
Grignon, Claude (1986), «Les Modes Gastronomiques a la Française», L'Histoire, Nº 85.

Publicado por socioblogue em junho 22, 2003 03:50 PM
Comentários

proponho " Sociedade de Merda"

Afixado por: Cândida em fevereiro 3, 2004 07:29 PM

Vão todos po caralho, seus filhos da puta!

Afixado por: Rita Tomásio em julho 6, 2004 11:13 AM

Gostaria de alguns comentários sobre Giddens e o funcionalismo

Afixado por: Kassandra em agosto 13, 2004 02:49 PM

Estou terminando a graduação em sociologia e, por sorte (digo sorte porque muitos de meus profs. ainda pensam em mandar pessoas e conceitos para aquele lugar), já consegui ler 70% dos autores citados, sendo que alguns foram 3 livros lidos, com excessão de Giddens, que até agora li 5. Tudo isso, ao contrário de me deixar confuso, forneceu-me uma maturidade surpreendente sobre nosso mundo e nossa vida, sendo que compreendo que temos problemas pela frente e por perto e as soluções dependem de nossas decisões quanto ao futuro no ãmbito de toda experiência humana, desde a política até o amor.

Afixado por: João Paulo Braga Cavalcante em agosto 27, 2004 03:14 AM