junho 26, 2003

«Genderlects» e a Blogosfera

Em alguma literatura sociológica e sociolinguística fala-se, por vezes, da existência de «genderlects», «genderlect styles» ou «gender specific dialects» (dialectos de género) - penso designadamente na linguista Deborah Tannen da Georgetown University. Esse conceito remete, segundo Tannen, para a existência de modos de comunicação muito diferentes entre géneros. Os dialectos de género manifestam-se de muitas formas: pessoas do sexo feminino tendem a utilizar, profusamente, mecanismos linguísticos como o uso do condicional, circunlóquios protocolares («será que é possível», «seria possível», etc.), signos de deferência, um discurso confessional e intimista, uma estética da vulnerabilidade, etc... Isso deve-se, ainda de acordo com Tannen, ao facto da comunicação feminina ser despoletada por um desejo de proximidade, intimidade, comunhão (numa palavra: compreensão); e a masculina por um desejo de status, respeito, concretização (numa palavra: admiração). Daí que «as mulheres» se foquem mais na esfera privada e «os homens» na esfera pública.

Apesar das limitações da perspectiva da autora (porventura, os estereótipos de género não são adequadamente desmontados e as generalizações pouco rigorosas), o conceito é interessante. Eu acrescentaria, ao que a autora afirma, que o processo de construção social do género envolve, não só dialectos de género, mas a constituição de gramáticas emocionais distintas, de vocabulários «gendrificados» e de léxicos emocionais particulares. Lembrei-me dos dialectos de género ontem, depois de ter recebido uma mensagem de correio electrónico deveras atenciosa da autora de um dos blogues mais bonitos da blogosfera, a Isabel Tilly do Monólogo, significativamente sub-intitulado «acontecimentos significativos do meu dia a dia». É um espaço sublime: confessional, intimista, frágil, familiar, reservado, delicado, sensível, terno e afectuoso. Enfim, «feminino». Ela ontem escreveu o seguinte: "quem ler o meu blog percebe que pertenço ao "género feminino". tenho pena que a pertença me molde o discurso (e o pensamento). alguma vez o abrupto escreveria sobre sentimentos de desamparo, falta de auto-confiança, alterações de humor? não creio...".

Eu também não. O problema, na blogosfera, é que há um claro predomínio de um dialecto de género masculino. O tema por cá não tem tido impacte, mas lá fora muito se tem falado do «blog gender gap», do «gender gap in Blogville» ou do «Venus-Mars divide in Blogville» como lhe chama a jornalista-blogger Lisa Guernsey (Lisa Guernsey's Weblog) . autora de um artigo no The New York Times sobre o assunto intitulado «Telling all online: it's a man's world (isn't it?)» (tomei a liberdade de o disponibilizar online: vale a pena ler na totalidade). Diz a autora que: ."i>Women want to talk about their personal lives. Men want to talk about anything but. So far the people who have received the most publicity (often courtesy of male journalists) appear to be the latter". Por isso, segundo Guernsey, as mulheres tendem a escrever diários e os homens a falar de temas menos pessoais (de política, economia, literatura... e sociologia; não sendo generalizável, parece ser evidente que isto acontece, em grande medida, na lusosfera). Lisa Guernsey não é socióloga. Mas podia ser.

Deambular pela blogosfera permite-nos dar conta esta ser um espaço predominantemente masculino (Socio[B]logue incluído). Com efeito, o dialecto de género prevalecente (e hegemónico) na blogosfera está mais perto dos «Sopranos» do que do «Once and Again». Esse facto, não sendo surpreendente, não deixa - ainda assim - de ser curioso.

Obrigado Isabel. Pela mensagem atenciosa e pelo Monólogo.

Guernsey, Lisa (2002, 28 de Novembro), Telling all online: it's a man's
world (isn't it?)
, The New York Times. [html]

Publicado por socioblogue em junho 26, 2003 01:51 PM
Comentários

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Cody

Afixado por: Cody em junho 8, 2004 10:31 PM