No campo da sociologia do corpo tem sido produzido, em anos recentes, algum trabalho de análise e reflexão em torno do conceito de «sobre-consciência de si» («heightened self awareness»). Essa expressão foi primeiramente desenvolvida por Drew Leder, autor norte-americano de inspiração fenomenológica, em "The Absent Body" (1990), uma das obras de referência na recente literatura sobre o corpo. A noção de «sobre-consciência de si» refere-se ao facto do corpo deter, geralmente, uma presença invisível ou ausente na nossa vida quotidiana, permanecendo num estado de infraconsciência. Essa despresença, segundo Leder, apenas é suspensa em momentos muito específicos. Mais concretamente, quando o «eu» se sente escrutinado, julgado e avaliado nas suas acções pelo olhar do «Outro». Existem
alguns conceitos sociológicos próximos ou contíguos do enunciado: penso, nomeadamente, nas noções de «hiperobjectificação do corpo» (da antropóloga prisional Manuela Ivone Cunha) e de «auto-consciência epidérmica» (do semiólogo italiano Umberto Eco).
Esta referência poderá parecer inusitada e, porventura, um tanto ou quanto irrelevante. Todavia, julgo ser possível entrever um fenómeno não muito dissemelhante no mundo dos blogues (não, obviamente corporal, mas a nível do self). Processo a que podemos chamar «sobre-consciência do eu». Com efeito, entrevê-se em muitos blogues a existência de um estado de consciência psicológico alterado dos seus autores, motivado, talvez, por uma sensação de visibilidade permanente e por estes se sentirem alvo de observação e contemplação (e, em alguns casos, de escrutínio, análise e avaliação). José Xavier escreveu agora no Satyricon que as figuras públicas na blogosfera se sentem "condicionad[a]s a ser aquilo que todos esperam del[a]s.. Se é verdade que as ditas «figuras públicas» revelam uma forma de «sobre-consciência do eu», isso não parece ser um exclusivo delas. Com efeito, se há algo que parece transparecer de boa parte dos discursos presentes na blogosfera é o facto dos bloggers ficarem muito dependentes das expectativas que projectam no outro (isto é, das expectativas que julgam que os outros têm face a si e ao que escrevem). Existem marcas discursivas - aparentemente anódinas, insignificantes ou irrelevantes - que constituem indicadores deste fenómeno. A utilização de expressões como «não sei porque falo isto», «não sou um especialista nesta matéria» e de outras formas de «auto-justificação» representam, de forma mais ou menos directa, «mecanismos de defesa» gerados pela antecipação do olhar do «outro» e constituem, de algum modo, defesas perante o escrutínio esse olhar. Assim, esse olhar é, simultaneamente, «desejado» e «receado». No discurso sociológico estas marcas também existem. São apenas um pouco diferentes: repare-se, inclusivamente aqui no Socio[B]logue, na utilização de expressões como «mas, claro, seria preciso estudar com maior detalhe estas questões» ou «mas, obviamente, os estudos sociológicos nesta área são ainda escassos». A «sobre-consciência do eu» é, sem dúvida, um dos aspectos sociologicamente mais interessantes no mundo da comunicação mediada por computador, em geral, e no mundo dos blogues, em particular. E, também, dos aspectos menos estudados. ;)
Leder, Drew (1990), The Absent Body, London: Sage.
Publicado por socioblogue em junho 29, 2003 12:02 PM