Num post anterior produzi algumas observações em redor da sobre-consciência do eu no mundo dos blogues. Essas observações suscitaram o interesse do Bruno Sena Martins (Avatares de um
Desejo), meu interlocutor para as questões antropológicas. O Bruno, partindo de um quadro de referência fenomenológico, questiona algumas das minhas reflexões e reformula alguns dos argumentos que avancei. Reproduzo aqui o que diz:
"Em relação à introdução em que o João reflecte sobre o corpo, gostaria apenas de acrescentar que essa «heightened self awareness» do corpo que temos/somos, não resulta apenas de processos de escrutínio por «outros relevantes» produtores de olhares passíveis de resgatar o corpo à sua costumeira infra-consciência. Na realidade, e numa perspectiva eminentemente fenomenológica, importa que o corpo possa ser analiticamente acolhido fora dos processos de apresentação do self. É nesse sentido que faço notar que, ao falarmos de eventos fomentadores de uma consciência do corpo (ou sobre-consciência), não estaremos necessariamente (ou apenas) perante uma sobre-consciência de si. Parece- me também instigante que possamos dar conta da centralidade que o corpo adquire em experiências de dor/sofrimento somático, prazer, ou experiências de privação corporal, que colocam questões que vão muito para além das construções identitárias. (Haveria ainda a considerar, como refere Miguel Vale de Almeida (1996), as evidências etnográficas em relação às distinções entre corpo e pessoa). Mas, como a introdução se dirigia para o fenómeno da apresentação do eu nos blogs em face das expectativas que sobre alguns recaem (figuras públicas), vamos a isso! Concordo quando assinalas a tensão entre um olhar do outro que é simultaneamente desejado e receado, e dos mecanismos de defesa que se concretizam em algumas expressões recorrentes. Eu apenas acrescentaria que esses mecanismos de defesa não poderão ser entendidos fora de uma articulação com aquilo que eu chamaria de Écriture blogiste. Refiro-me a um discurso dominante de matriz falocêntrica (como tu já referiste), em que um distanciamento crítico com o mundo da vida, a ironia e a auto-ironia (a que se acrescenta uma pujante e selectiva intertextualidade, que, também ela, fomenta alguma auto-referencialidade na blogoesfera ) emergem como estratégias privilegiadas. Daí, em meu ver, decorre o facto dos discursos de direita, menos comprometidos com a transformação social, se sentirem mais em casa no registo/regime dominante na blogoesfera. Um discurso distanciado e irónico é já um discurso que cria as condições da sua própria defesa.
Recomenda, ainda, para os interessados em explorar estas questões as seguintes obras:
Good, Mary-Jo e Brodwin, Paul e Good, Byron e Kleinman, Arthur, 1992, Pain as Human Experience: An Anthropological Perspective, University of California Press, Berkeley.
Lakoff, George e Johnson, Mark, 1999, Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Tthought, Basic Books, Nova Iorque.
Almeida, Miguel Vale de, 1996, Corpo presente: Antropologia do Corpo e da Incorporação, in Almeida, Miguel Vale de (org.), Corpo Presente: Treze Reflexões Antropológicas Sobre o Corpo, Celta, Oeiras.