julho 04, 2003

Gestão de Impressão, Festinger e a Teoria da Comparação Social

Isabel Tilly ( href="http://www.isabeltilly.blogspot.com/">Monólogo) enviou-me um contributo inestimável para a interdisciplinarização do debate em torno da questão da «gestão de impressões». Ela propõe repensarmos o que até agora foi escrito à luz do trabalho do psicólogo social Leon Festinger (1919-1987) e, em particular, da sua teoria da comparação social. De acordo com ela, essa teoria "apesar de datada (tem sido reformulada e desenvolvida no quadro das relações intergrupais) parece-me manter pertinência, já que quando pensamos nos blogs, é impossível não pensar no carácter opinativo que esta forma de comunicação assume". Ocorreu-lhe o trabalho de Festinger quando começou a pensar "se a necessidade de recebermos feedbacks, não teria a ver com esta necessidade, que Festinger operacionaliza, de validarmos socialmente as nossas opiniões e aptidões ". Aqui fica um trecho textual da autoria de Doise, Deschamps e Mugny (1980), reproduzido pela Isabel, sobre Festinger e a teoria da comparação social.

"Se, para as nossas opiniões, atitudes, crenças, não possuímos a base objectiva (física) que lhes determine a validade, dependemos das outras pessoas para as validar. (...) Perante uma superfície, um indivíduo
pode pensar que ela é quebrável ou não; pode dar uma martelada nessa superfície e convencer-se de que a opinião que tinha era certa ou errada. Se uma pessoa lhe diz que a superfície é inquebrável depois de ele a ter quebrado, isso pouco efeito terá sobre a sua opinião. Inversamente, tomemos o exemplo duma pessoa que julga que se as eleições tivessem sido ganhas pela oposição no seu país, a vida seria bem melhor: se esta opinião é partilhada, então é válida, se não, não é. "Assim, onde a dependência da realidade física é baixa, a dependência da realidade social é, de modo correspondente, alta" (Festinger, 1971). Mas para validar a opinião de um indivíduo, não é necessário que toda a gente pense como ele; basta que as pessoas do grupo a que ele se refere partilhem a sua opinião. Na óptica de Festinger, quanto mais fraco é o poder da realidade física na validade das opiniões, mais aumentem importância do grupo e a pressão para comunicar. Festinger alargou a sua teoria, em 1954, integrando-lhe a avaliação das aptidões ou capacidades do indivíduo. Com efeito, as opiniões referem-se à situação em que se encontram os sujeitos e também à avaliação da sua capacidade de acção nessa situação, portanto, às suas aptidões. As aptidões de uma pessoa manifestam-se através da suas performances. Mas há casos em que não há qualquer critério objectivo de avaliação das performances. Nessas condições, a ideia que o indivíduo faz da sua aptidão depende dos outros: a ideia que um uma pessoa tem "do seu talento para escrever poesia" depende, em larga medida, da ideia que têm os outros acerca disso. Pelo contrário, a avaliação da aptidão para correr, faz-se comparando o tempo que levam várias pessoas a percorrer a distância. As principais proposições referentes às opiniões e às capacidades na teoria da comparação social, são as seguintes: 1. Existe em todos as pessoas uma tendência para avaliar as suas opiniões e as suas aptidões pessoais. 2. Na ausência de meios objectivos não sociais, as opiniões e aptidões próprias, são avaliadas, comparando-as com as opiniões e aptidões dos outros. 3. A tendência para se comparar com o outro, diminui à medida que aumenta a diferença entre o próprio e o outro, tanto nas opiniões como nas aptidões. Portanto, no interior de um determinado campo de comparação, escolhe-se de preferência, como termos de comparação, aqueles cuja aptidão ou opinião estão mais próximos.
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Retirado de: Doise, W., Deschamps, J., Mugny, G. (1980). Psicologia Social Experimental. Lisboa: Moraes Editores. (trad. port)

Publicado por socioblogue em julho 4, 2003 10:10 AM
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