julho 06, 2003

«L'Écriture Éthopoiétique» e as Entrevistas Imaginárias

Algures entre os seus trabalhos em torno da emergência histórica do cuidado de si ("le souci de soi"), Foucault debruçou-se, num pequeno texto sombrio e pouco conhecido, sobre a «l´écriture de soi», a escrita de si mesmo, na cultura greco-romana dos séculos I e II D.C.. A escrita de si mesmo caracteriza-se pela meditação, a reflexão, o pensar sobre si mesmo. Enfim, pela elaboração de um discurso sobre o eu. É por isso que Foucault lhe chama uma "écriture éthopoiétique" (2001: 1237): escrita etho-poiética significa que essa escrita é, também, uma forma de constituição do «eu». O «eu» nasce da escrita e do que se diz. São, sobretudo, duas as formas que a escrita de si mesmo assume na cultura greco-romana: a «correspondência» e os «hupomnêmata» (cadernos pessoais que servem e «aide-mémoire», contendo citações, fragmentos de obras, exemplos morais, pequenos pensamentos e reflexões, etc.).

É, aliás, curioso notar como os blogues parecem ser uma combinação dessas duas formas de escrita etho-poiética, articulando elementos da escrita para o outro e da escrita para si mesmo. Veja-se, por exemplo, como a descrição que Foucault faz da correspondência se encontra muito próxima de algumas coisas aqui discutidas a propósito da gestão de impressão e da preocupação em redor do modo como somos percepcionados pelo outro:

"Écrire, c.est donc «se montrer», se faire voir, faire apparaître son propre visage auprès de l.autre. Et, par là, il faut comprendre que la lettre est à la fois un regard qu.on porte sur le destinataire (par la missive qu.il reçoit, il se sent regardé) et une manière de se donner à son regard par ce qu.on lui dit de soi-même.. (Foucault, 2001: 1244)

Mas porquê retomar Foucault? Uma das coisas mais fascinantes no mundo dos blogues é o seu estilo retórico prevalecente, o tipo predominante de escrita etho-poiética (isto só se aplica, evidentemente, a blogues onde há um discurso sobre o eu; os fotoblogues ou os blogues de humor possuem lógicas próprias). Ler alguns blogues, não todos, lembra-me um estilo retórico característico quer dos relatos auto-biográficos, quer das entrevistas de história de vida. Quase como se estivéssemos a assistir a entrevistas imaginárias com interlocutores imaginários (o que foi, aliás, já mencionado pelo Bruno Sena Martins).

As pessoas projectam interrogações que gostariam que lhes fossem feitas sobre si e ensaiam respostas, mais ou menos elaboradas, a essas questões imaginárias ou projectadas. Mas o que estará por trás deste estilo discursivo? O que o justifica? Como interpretá-lo? Julgo que essa forma de escrever se deve, em parte, ao facto de existir, nas sociedades ocidentais contemporâneas, uma grande reflexividade das pessoas face ao seu «eu». E essa reflexividade tem sido muito marcada pela entrevista de cariz biográfico. Com efeito, o ser-se entrevistado hoje é um indicador muito forte de sucesso: de êxito. Secretamente, ou não, parte significativa dos blogueiros gostaria de ser entrevistada. Embora seja um fenómeno de interpretação complexa, não é difícil compreender este fascínio pela entrevista. Hodiernamente, as pessoas lêem e vêem muitas entrevistas. E, naturalmente, imaginam-se entrevistadas, projectam-se nos entrevistados e elaboram discursos sobre si mesmas nessas projecções. Há, obviamente, variações: há quem se imagine a conversar com a Ana Sousa Dias, com a Bárbara Guimarães, com a Judite de Sousa ou num confessionário com a Teresa Guilherme. Mas, de um modo geral, as pessoas gostam de falar de si e possuem discursos muito elaborados sobre si mesmas: o que são, o que gostam, as suas experiências de vida, os momentos marcantes, etc... O problema é que há um hiato, uma dissociação, entre os discursos que se elaboram e os meios para os exprimir ou comunicar. Nem todos têm acesso aos meios de comunicação. Nem todos possuem formas de explicitar os discursos elaborados. Parece-me, porventura erroneamente, que o sucesso dos blogues também estará relacionado com esse aspecto: as pessoas possuem, por meio de um blogue, a oportunidade de revelar os seus discursos sobre si mesmas... ou, pelo menos, sobre algo relacionado consigo mesmas. Mas, claro, isto é apenas uma hipótese. E, como tal, especulativa, pouco consistente e discutível.

Foucault, Michel (2001), «L´Écriture de Soi», Dits et Écrits, 1954-1988, Volume II (1976-1988), Paris: Gallimard, pp. 1234-1249.

Publicado por socioblogue em julho 6, 2003 10:18 AM
Comentários

Admiro a intenção que há neste blog

Afixado por: Isabella Ferreira em abril 3, 2004 03:34 PM

Great site and great information.

grants

Afixado por: grants em julho 2, 2004 08:26 AM