(título roubado de Al Berto)
Há uns dias atrás, (Guerra e Pas), um dos espaços mais notáveis da blogosfera, produziu um dos posts mais honestos e bonitos que tive o prazer de ler. Intitulava-se «O Temor». Falava, entre outras coisas, das angústias recorrentes dos blogueiros, daquilo que chamava de "malaise dos blogs" e do facto da "imediatez dos Posts faz[er] dos dias séculos.. Também o Luis N. (ENE Coisas) se referiu ao tema num post recente, ao dizer o seguinte: "não é fácil manter um blogue, e todos os blogueiros o sabem, os que continuam, e os que desistem". Argumento também reproduzido por José Xavier (Satyricon) ao dizer: "depois de algumas semanas na blogosfera, que parecem anos, o cansaço torna-se evidente" [post]. Apesar da sua raridade, existem alguns artigos científicos onde as mesmas questões são abordadas, no que respeita ao trabalho científico. Entre nós, lembro-me, por exemplo, de um texto notável da antropóloga Maria Cardeira da Silva (1991), justamente intitulado «A angústia do antropólogo no momento do trabalho de campo». E qualquer pessoa que já tenha realizado exercícios etnográficos, mais ou menos complexos e mais ou menos prolongados, sabe do que a autora fala: as hesitações, as incertezas, as dúvidas, as flutuações, as oscilações, etc. No caso do mundo dos blogues, a fenomenologia da experiência quotidiana de um blogueiro passa por questões como a ansiedade do feedback, a ansiedade do post seguinte, a ansiedade provocada pela sensação de incapacidade para exprimir uma determinada imagem imagem do «eu», entre outros. Estes comentários deixam entrever a existência de uma psicodinâmica particular em
determinados tipos de blogues (aparentemente, aqueles mais sujeitos à «ansiedade do post seguinte»). Isto é, parece ser possível determinar a existência de algumas regularidades na evolução das atitudes dos blogueiros face aos seus blogues. Ao entusiasmo inicial, parece suceder uma fase onde é visível uma maior ansiedade do post seguinte (devido quer às próprias expectativas, quer à internalização das expectativas do «outro» - ou atribuídas ao «outro»). É, aliás, curiosa a menção, nestes casos, ao facto do tempo passar «a voar» (os dias, de acordo com os posts referidos, parecem «anos» ou «séculos»). Apesar desta temática, por si só, merecer uma análise mais aprofundada, há um outro aspecto - menos evidente - que intriga a minha curiosidade sociológica. De facto, há, neste contexto, uma questão que é sociologicamente interessante, mas que parece passar despercebida. Não é curioso que, ao contrário de outras formas de comunicação mediada por computador (CMC), exista uma enorme reflexividade («pensar sobre si próprio») no mundo dos blogues? Isto é, na generalidade das outras formas de CMC não encontramos tanta discussão e reflexão sobre essas formas. Com efeito, nem em CMCs imediatas (IRC, ICQ, Messenger, Chat-Rooms, etc.) nem em CMCs diferidas (Mailing-Lists, Discussion Groups, etc.), encontramos uma reflexividade tão grande. Por vezes, ela nem sequer existe. Ou seja, não é frequente encontrarmos em mailing-lists, discursos sobre as suas potencialidades e limites, sobre os «temores» associados a essas formas, etc. Por conseguinte, resta explicitar que a menção à reflexão da antropóloga Maria Cardeira da Silva não foi arbitrária: aparentemente, a reflexividade nos blogues é de tal forma profunda que se aproxima mais da reflexividade científica do que de outras CMCs. Mas que particularidades terão os blogues, no quadro das CMCs, que justifiquem esta reflexividade? O fenómeno intriga-me.
Cardeira da Silva, Maria (1991), «A angústia do antropólogo no momento do trabalho de campo», Ethnologica, Nº5.
Publicado por socioblogue em julho 7, 2003 11:09 AM