julho 07, 2003

Os constrangimentos das linhas editoriais dos blogues (act.)

Guerra e Pas disse também: "Ocorre-me que podemos mudar de pele. Deixar este e criar outro. Start all over.". Ler o que escreveu remeteu-me, automaticamente, para um pensamento que me acompanha há algum tempo. Já aqui mencionei as palavras de Ted Nelson quando este preconiza que somos prisioneiros das aplicações que usamos. Mas serão essas as únicas limitações? Creio que não. Cada blogue, cada bom blogue, parece caracterizar-se, também, por uma coerência (que pode assumir muitas formas: uma «linha editorial», um «conceito», uma «lógica interna», um «modelo», uma «identidade», um «ethos», um «projecto», um «estilo» ou uma «estilização»). Daí que alguns bloggers, como José Pacheco Pereira (Abrupto; Estudos Sobre O Comunismo), Ana Teles (Lua; A Girl's Thoughts) ou o incansável Pedro Fonseca (Contra Factos & Argumentos; Bolas; Tecnosfera - além do Blogs em pt, em período conturbado de existência) sintam a necessidade de se dividir (ou multiplicar) em dois, ou mais, preferindo várias linhas editoriais, complementares ou alternativas, mas coerentes, a uma única linha pouco consistente. Daí, também, que Jorge Candeias (Trilha de Möbius; Lâmpada Mágica) ou Nuno Jerónimo (Blogue dos Marretas; Diário Interior) possuam, além de um blogues colectivo, um pessoal. Essas opções relativas às linhas editoriais, feitas conscientemente ou não, circunscrevem-nos também a determinados limites. Poderão os blogues de humor sair das suas linhas humorísticas ou sentir-se-ão na obrigação de as respeitar? Poderão os espaços de ciberjornalismo sair dos seus limites auto-impostos? Será que os lugares confessionais e intimistas podem quebrar a sua lógica? Poderão os eruditos, diletantes e os que buscam o prazer da sabedoria (e, portanto, também a sabedoria do prazer), romper a sua coerência? E os fotoblogues? E os blogues literários? Enfim, poderei eu, fazer do Socio[B]logue algo mais que um blogue de observações, reflexões e interrogações sociológicas? Questiono-me, então, se não seremos também coarctados pelas nossas linhas editoriais e, portanto, «prisioneiros» dos limites que nós próprios impusemos aos nossos blogues? É aqui que se joga a ambivalência: se a tecnologia nos oferece oportunidades, também nos estabelece restrições; se o fechamento do ethos do nosso blogue nos abre possibilidades, também nos determina limites. A questão pode parecer anódina, todavia, esses limites parecem condicionar, de forma decisiva, a forma como nos relacionamos com os nossos blogues (e, portanto, as «ansiedades» a isso associadas).

Nota adicional: O conhecimento científico é, por natureza, «precário», «provisório». Existem, porém, situações onde essa precareidade é amplificada. O texto aqui apresentado é disso um bom exemplo. Estamos a caminhar em terreno pouco explorado e, por isso, os «recursos conceptuais interpretativos» são escassos, senão inexistentes. Devido a essa inusitada escassez, o texto acima reproduzido não passa, possivelmente, de uma "especulação sociologicamente informada". Em sociologia é utilizado um pequeno conjunto de expressões depreciativas para
designar esse tipo de incursões sociológicas pouco fundamentadas: "sociologia de bolso", "sociologia espontânea", "street corner sociology", etc. O apontamento apresentado parece, então, ser ainda mais «precário» que as reflexões e observações sociológicas que aqui têm sido habitualmente produzidas. Mas, muitas vezes, a precareidade parece ser a única opção. Como agora. Contudo, essa precareidade inicial parece ter sido mitigada pelo debate que foi tendo lugar nos comentários a este texto. Nesse espaço foram-se discutindo algumas questões que corrigem e completam o argumento acima apresentado. No quadro deste debate deveras produtivo, Jorge Candeias notou que "um blogue acaba por construir-se um pouco como uma história, ou um livro. Um livro deve ter uma qualquer coerência interna para resultar, e nem todas as ideias que o autor tem enquanto escreve podem ser utilizadas na sua construção.". Clara M. pareceu corroborar essa argumentação ao indicar que "[u]m blogue acaba por construir-se um pouco como uma história e, mesmo inconscientemente (em alguns casos, pelo menos), vamos "seleccionando" o que pensamos pertencer-lhe". Foi adicionalmente constatado, por parte do Bruno Sena Martins, que "a disposição dos links de outros blogs por temas poderá contribuir para operar uma cristalização identitária daqilo que venha a ser a sua produção". Luis N., por sua vez, fez notar que "a criatividade exerce-se melhor em limites estritos". Em suma, de acordo com os resultados provisórios do debate, é necessário notar que a «identidade» de um blogue não é um estado, mas um processo (vai-se constituindo aos poucos). Ademais, essa constituição depende tanto do blogueiro, como da imagem que o blogueiro julga que o «outro» tem de si (nesse sentido, a categorização do outro pode influenciar a auto-classificação do eu). E essa identidade-processo (constituída na dialéctica entre o eu e o outro) constitui tanto uma limitação (por circunscrever aquilo que é afixável e o que não o é), como uma oportunidade (por poder estimular a criatividade). O «esforço colectivo» para aqui chegar foi, a meu ver, entusiasmante.

Publicado por socioblogue em julho 7, 2003 11:13 AM
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