julho 12, 2003

A Indústria Cultural do Livro e o Campo da Edição (act.)

Nelson de Matos (Textos de Contracapa) e Manuel Alberto Valente (Oceanos), ambos editores, trocaram recentemente algumas observações insuspeitamente contundentes sobre a «indústria editorial». Ou melhor, sobre o estado da «indústria editorial» em Portugal. No contexto da análise sociológica, o tema está longe de ser recente e desenvolveu-se, sobretudo, a partir do trabalho seminal de Walter Benjamin em torno da "obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica" e das investigações de Theodor Adorno e Max Horkheimer em redor da questão das "indústrias culturais".

Na actualidade, o tema tem sido abundantemente trabalhado no campo da Sociologia da Cultura e, mais especificamente, em três dos seus sub-campos: a Sociologia do Livro e da Leitura, a Sociologia da Literatura e a Sociologia da Edição (esferas, entre nós, representadas por autores como Maria de Lourdes Lima dos Santos, Eduardo de Freitas, José Afonso Furtado ou Jorge M. Martins). Nesses estudos e investigações tem-se tratado, entre outros fenómenos, das transformações no «campo da edição» tenderem para a transição da hegemonia de um «mercado da oferta» para o predomínio de um «mercado da procura». Com efeito, como notava Fabrice Piault, com estas mudanças "[c]orremos o risco de passar de um «mercado da oferta», em que o espaço da criação se encontra cada vez mais reduzido pelas lógicas de mercado, para um «mercado da procura», que não significa exactamente que o mercado é comandado por uma «lógica» de necessidades efectivas da clientela, mas antes que os constrangimentos próprios dos circuitos comerciais se impõem cada vez mais aos produtores e criadores" (Piault in Furtado, 1995: 83).

De facto, se a ênfase na edição tradicional se encontrava no domínio da produção, hoje ela encontra-se claramente na esfera do consumo: a distribuição, a comercialização, o marketing, a promoção, a publicidade, etc. (cf. Martins, 1999; Furtado, 1995). Adicionalmente, convirá sublinhar que os impactes desse fenómeno sobre a própria actividade quotidiana de editores e escritores não são, obviamente, negligenciáveis. Nelson de Matos e Manuel Alberto Valente parecem viver, com apreensão, estas transformações que fazem com que o livro não seja já (apenas) uma forma de arte, mas também (ou sobretudo) uma mercadoria. É por isso que se referem, com insistência, à necessidade de corresponder às novas "regras da indústria editorial", sustentando economicamente, através da venda de best-sellers e/ou livros mediáticos, a publicação de obras mais «arriscadas» ou previsivelmente «menos rentáveis». "Publica-se o que dá", diz Manuel Alberto Valente com indisfarçável desencanto e desilusão, "para poder publicar-se o que não dá". Dinheiro, entenda-se. E, decerto, não será fácil conciliar uma linha editorial consistente, por um lado, com a exigência de rentabilidade, por outro (para uma compreensão das transformações no campo da edição, consultem-se os Nº126-127 de Março de 1999 e Nº130 de Dezembro de 1999 da revista «Actes de la recherche en sciences sociales», inteiramente consagrados a essa temática).

As palavras de Nelson de Matos e de Manuel Alberto Valente parecem ser, simultaneamente, indicadores de numerosos aspectos: de uma tensão entre uma «cultura cultivada» e uma «cultura de massas»; da reorganização da esfera editorial; da pericialização do campo da edição; do desaparecimento do papel tradicional do editor (hoje, o seu «métier» encontra-se disperso e desagregado por uma rede de actores especializados e há, além do mais, um pequeno conjunto dos chamados «novos intermediários culturais» - penso, designadamente, nos agentes). Parece-me, contudo, que há um aspecto singular - inadvertidamente escondido por detrás desse nostálgico «desencanto» - que tem sido algo negligenciado pela sociologia. Refiro-me ao «declínio da imagem tradicional da profissão de editor». Há não muitas gerações atrás, o trabalho da edição era representado quase como uma forma de arte pelos próprios editores, por leitores e por escritores. De facto, o trabalho laborioso da construção de uma «linha editorial» ou de um «projecto de edição», por meio de um esforço diligente, escrupuloso e minucioso de selecção de obras e de constituição de catálogos era, também, uma arte «nobre». De prestígio. Uma das consequências das transformações no campo da edição foi o declínio dessa representação da «edição-como-uma-arte» e a sua concomitante e progressiva «substituição» pela imagem da «edição-como-um-negócio». Será, talvez, algo abusivo falar de substituição, na medida em que a referida transição esteve, e está, longe de ser linear e absoluta. Na verdade, ambas as imagens co-existem. Mas parece, ainda assim, ser incontroverso constatar a consolidação dessa imagem da «edição-como-um-negócio» (imagem que envolve uma menor «distinção» a nível das representações colectivas, por aparentemente contaminar e poluir o ideal da arte pela arte). E, assim, essa transição parece ter retirado, de alguma forma, parte do «fascínio» e «sedução» usualmente associados à actividade editorial. Quando Nelson de Matos e Manuel Alberto Valente falam do estado da «indústria editorial» em Portugal é também nisso que parecem pensar. E, creio eu, é também disso que gostariam de falar.

Martins, Jorge M. (1999), Marketing do Livro: Materiais para uma Sociologia do Editor Português, Oeiras: Celta.
Furtado, José Afonso (1995), O que é o Livro?, Lisboa: Difusão Cultural
«Édition, Éditeurs» (1), Actes de la recherche en sciences sociales, Nº126-127, Março de 1999.
«Édition, Éditeurs» (2), Actes de la recherche en sciences sociales, Nº130, Dezembro de 1999.

Nota Adicional 1: Jorge Martins, docente do Instituto Politécnico de Tomar e investigador do CIES, encontra-se em fase de conclusão da sua tese de doutoramento no ISCTE, sob a orientação de António Firmino da Costa. "Sociologia do Livro: o Campo da Mediação na Era Digital" é o título provisório da mesma. Será, indubitavelmente, uma obra fundamental para a compreensão do campo da edição na era digital.

Nota Adicional 2: Em reacção a este texto, Manuel Alberto Valente publicou uma nota no Oceanos sobre o assunto. A essa nota seguiu-se um curioso diálogo entre o escritor Franciso José Viegas (Aviz) e o editor Nelson de Matos (Textos de Contracapa), precisamente, sobre as relações entre autores e editores. O diálogo é, de um ponto de vista sociológico, extremamente interessante, na medida em que permite ter uma visão prismática do «art world» literário (a noção de «art world» foi desenvolvida por Howard S. Becker, um dos incontornáveis da análise sociológica). Isto é, permite ter alguma noção das representações, disposições e redes relacionais entre a heterogénea constelação de agentes do campo literário: entre outros, editores, autores, agentes, livreiros (veja-se, já agora, o blogue do livreiro Vincent Bengelsdorf, Bicho Escala Estantes). Entre as mensagens de correio electrónico que recebi a propósito deste texto, quero destacar um comentário atencioso de um dos autores citados no mesmo: José Afonso Furtado, um dos principais investigadores em Portugal no(s) campo(s) em questão (e, actualmente, Director da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e docente do Curso de Especialização para Técnicos Editoriais da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa). Para além de algumas observações, de carácter sociológico, sobre o texto que produzi, o autor menciona os posteriores desenvolvimentos ao seu trabalho na obra «Os Livros e as Leituras. Novas Ecologias da Informação» (Lisboa: Livros e Leituras, 2000) e o seu trabalho mais recente em torno da "temática da edição em ambiente digital, a questão da edição electrónica, os problemas levantados pelas novas formas de relação com o texto e a com a leitura tradicional (...) e pelos novos suportes de leitura.". Existem dois artigos disponíveis online da sua autoria onde estas questões são desenvolvidas: «Livro e Leitura no novo Ambiente Digital» [PDF (302Kb)] e «O Papel e o Pixel» [PDF (3305Kb)] - este último desenvolvido no quadro do projecto ciberscopio.net. Para os interessados em aprofundar o tema e em compreender melhor as ameaças, oportunidades e desafios da edição na era digital são excelentes pontos de partida. Fica a sugestão.

Publicado por socioblogue em julho 12, 2003 05:50 PM
Comentários

Simplesmente fantástico pois além de ministrar uma cadeira na Pós Graduação de Ciências Doucmentais que versa tal temática antes, o projecto da minha tese de doutoramento era precisamente a problemática da Ind Cul - o Livro e a NT's. Mas a vida fez-me parar um pouco!! E de imediato textos e obras sairam.... como este!

Afixado por: Alzira Simões em abril 9, 2004 01:45 AM

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