julho 25, 2003

As Caixas de Ferramentas e os Operários

José Bragança de Miranda (Reflexos de Azul Eléctrico), autor consagrado no campo da Sociologia da Comunicação e blogger proeminente (e prolixo), dedicou, recentemente, algumas linhas esparsas a Michel Foucault. Mais especificamente, o autor debruçou-se sobre a conhecida analogia onde Foucault compara o seu trabalho com a construção de uma pequena «caixa de ferramentas» [texto].

Bragança de Miranda parece reportar-se a uma mítica entrevista do autor francês com R.-P. Droit, publicada no diário francês Le Monde, a 21 de Fevereiro de 1975. Foucault concluiu então essa entrevista sugerindo que "un livre est fait pour servir à des usages non définis par celui qui l'a écrit". Logo acrescentou: "tous mes livres (...) sont, si vous voulez, de petites boîtes à outils", exortando de seguida os seus leitores a "les ouvrir, se servir de telle phrase, telle idée, telle analyse" (Foucault, 1975: 1588).

Bragança de Miranda promove, a partir de Foucault, um exercício reflexivo onde explora essa analogia da relação entre as ferramentas (os instrumentos conceptuais ou as formulações teóricas) e os operários (os investigadores). E, como sublinha o autor, incisivamente, "há operários e operários". Concretizando: "Aqueles que estão de mãos à obra e têm a intuição suficiente para ir buscar a ferramenta certa na caixa que têm ao lado, e ao longo do trabalho vão desarrumando a caixa sem nunca perderem o sentido da ferramenta, indo com mão segura buscá-la, tacteando com certeza, sem precisar de olhar para ela. No fim do dia a caixa está toda desarrumada, e o servente de operário vai arrumar as ferramentas por espécies, tamanhos e funções, de modo a se poder continuar a trabalhar. Existem ainda outro tipo de operários que gastam o tempo a arrumar a caixa, são contra a desordem que baralha todas as ferramentas e criam sistemas para que o desarrumar seja controlado ou seja impossível. A caixa está bem arrumada... mas a obra não chega a começar. São operários... teóricos.".

As palavras de Bragança de Miranda não são somente significativas do ponto de vista da análise do trabalho dos investigadores. Com efeito, elas exemplificam, também, uma atitude que foi emergindo, sensivelmente, no último quarto de século do século XX. O que passou. Entre nós, o expoente máximo dessa atitude é, talvez, José Machado Pais, devido - primacialmente - à forma inovadora e original como utiliza as formulações teóricas e conceptuais de forma criativa enquanto instrumentos heurísticos de pesquisa. Assim, o autor contrapõe à convencional "cultura de finalidade" uma "cultura de recriação", isto é, ele suplanta a utilização da teoria numa "lógica demonstrativa (finalista)" por meio do seu uso numa "lógica de descoberta (criativa)" (Pais, 2001: 103). Essa postura «criativa» não é, todavia, pacífica. Longe disso. De facto, muitos autores olham com desconfiança para «apropriações excessivamente criativas» dos produtos do seu labor. Curiosamente, ou não, encontramos em Foucault o inverso dessa atitude. Disso é emblemática a sua célebre abertura do curso de 1976 no Collége de France, "Il Faut Defendre la Sociétè". Dizia então aos seus numerosos ouvintes: "...considero-os inteiramente livres para fazer, com o que eu digo, o que quiserem. São pistas de pesquisa, idéias, esquemas, pontilhados, instrumentos: façam com isso o que quiserem. No limite, isso me interessa, e isso não me diz respeito. Isso não me diz respeito, na medida em que não tenho de estabelecer leis para a utilização que vocês lhes dão. E isso não me interessa, na medida em que, de uma maneira ou de outra, isso se relaciona, isso está ligado ao que eu faço." (Foucault, 2000: 4) Bragança de Miranda, na sua análise dos «tipos de operários», esqueceu-se de mencionar aqueles que gostam de partilhar as suas caixas de ferramentas. Não é, porventura, difícil de perceber porquê. Não há muitos.

Foucault, Michel (1975), «Des supplices aux cellules» (Entrevista com R.-P. Droit), in Michel Foucault (2001), Dits et Écrits, 1954-1988, Volume I
(1954-1975)
, Paris: Gallimard, pp. 1584-1588.
Foucault, Michel (2000), Em Defesa da Sociedade, São Paulo: Martins Fontes.
Pais, José Machado (2001), Ganchos, Tachos e Biscates: Jovens, Trabalho e Futuro, Porto: Âmbar.

Nota Adicional 1: Bragança de Miranda (Reflexos de Azul Eléctrico) desenvolveu já o argumento que antes produzira. Voltando à caixa faz notar como esta "é ainda uma ilusão de coerência, pois a ter sentido acaba por se confundir com a totalidade da existência". Conclui dizendo: "Os que pensam poder compartilhar a caixa são teóricos da «caixa», sempre demasiado lentos quando a ocasião irrompe. Aqueles que, nesse preciso instante, estiverem juntos encontrarão as ferramentas de que estão precisados. Ou não...". É perante palavras como estas que o Socio[B]logue se sente
pequenino. Minúsculo.

Nota Adicional 2: Saiu agora o terceiro número da revista Surveillance
& Society
. É um número temático intitulado «Foucault and Panopticism Revisited». Quem se interessa pelas questões do «controlo social», do «panopticismo» e da «vigilância» encontra ali alguns artigos interessantes.

Publicado por socioblogue em julho 25, 2003 09:26 PM
Comentários

Sobre Foucault, na esperança que tenha interesse (são links):

Blogs e reality shows , O Poder Invisível

Obrigado pela atenção.
Prometeu

O Fogo de Prometeu
Neo-Illuminati

Afixado por: Prometeu em janeiro 2, 2005 03:23 PM