agosto 01, 2003

Insensatez

O trabalho sociológico, como o da generalidade das restantes ciências sociais, é esgotante. A adjectivação não é boa, bem sei. Mas justifica-se. É deveras difícil explicar a alguém, sem um grande conhecimento do campo, o investimento necessário para a produção de uma investigação empírica consistente. É necessário um trabalho moroso, persistente e cansativo de exploração bibliográfica; de construção de instrumentos de observação e recolha de informação; de recolha de informação; de análise e interpretação dos materiais recolhidos; de redacção e revisão textual. A isso, juntam-se as inflexões constantes, as reformulações contínuas, as restruturações permanentes. As semanas passam a correr. Depois os meses. Por vezes, vezes demais, os anos. O trabalho sociológico envolve uma disciplina da parte do investigador. Monástica. Austera. Intransigente. Nesse processo, nesse longo processo, vão-se acumulando inúmeras ideias peregrinas, reflexões marginais, observações periféricas, pistas de pesquisa improváveis, escritos de gaveta acidentais. Essas notações permanecem, quase sempre, na obscuridade. Por vezes, a obscuridade é injusta: quando as observações são pertinentes mas desenquadradas, desajustadas ou díssonas do objecto em estudo. Outras vezes, ela é protectora: sempre que elide cogitações insensatas que nunca deveriam sair da sombra. Reli agora alguns dos textos mais antigos do Socio[B]logue. Fico, à vez, envaidecido e embaraçado. Envaidecido com os improvisos acertados. Embaraçado com o pretensiosismo verboso. A adjectivação não é boa, bem sei. Mas justifica-se.

Nota adicional: Este texto vai ser dos embaraçosos. É inevitável.

Publicado por socioblogue em agosto 1, 2003 12:25 PM
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