agosto 10, 2003

Deus Está nos Detalhes: Genealogia Breve (act)

Acabo de descobrir entre os textos de um novíssimo blogue, o Evorablog, um aforismo que há muito me assombra: «Deus está nos detalhes» [os autores utilizam, na verdade, uma das variantes conhecidas dessa expressão: «deus está nos pormenores»]. No Evorablog, de forma deveras curiosa, o intrigante apotegma é atribuído ao arquitecto norte-americano Frank Lloyd Wright. A primeira vez que encontrei este aforismo foi na epígrafe da estimulante obra «Mitos, Emblemas, Sinais» (1991) de Carlo Ginzburg, um dos mais notáveis historiadores italianos contemporâneos (cf. Ginzburg, 1989, 1991, 1995; Ginzburg e Poni, 1979; Grendi, 1977). Então, a paternidade do dito era atribuída por Ginzburg ao historiador de arte alemão Aby Warburg (1866-1929). Vim, mais tarde, a encontrar a mesma expressão imputada ora ao excelso escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880) («Le bon Dieu est dans le detail»), ora ao conspícuo escritor brasileiro João Guimarães Rosa (1908-1967) («Deus está nos detalhes»). Porém, na maioria das vezes com que me deparei com o aforismo supracitado, ele era atribuído ao arquitecto de origem teutónica Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969) - um dos pioneiros do movimento modernista, director da Bauhaus entre 1930 e 1933 e o criador de uma das mais famosas peças de design do século XX: a «Barcelona Chair». Não será despiciendo notar, adicionalmente, que são habitualmente utilizadas três expressões germânicas - semânticamente semelhantes, embora formalmente descoincidentes - para formalizar esse axioma: «Gott gedeiht in Details», «Gott ist in den Details», «Gott steckt im Detail». Ironicamente, nunca havia encontrado Frank Lloyd Wright entre um dos pais possíveis do dito de paternidade, ainda, indeterminada. Mas, independentemente da paternidade do aforismo, serve esta referência de pretexto para evocar Ginzburg. Carlo Ginzburg, o responsável pela introdução do «paradigma indiziario» nas ciências sociais, é, sem dúvida, um dos autores mais celebrados no campo das metodologias microhistóricas. Essa notabilidade deve-se, entre outros aspectos, ao reconhecimento e notoriedade atingidos por si atingidos por meio de obras como «Mitos, Emblemas, Sinais» (1991), «A Micro-História e Outros Ensaios» (1989) ou «História Nocturna: Uma Decifração do Sabat» (1995). É que se hoje a perspectiva micro-histórica se encontra disseminada na Europa e EUA, na realidade, ela emergiu a partir de um profícuo debate em torno das possibilidades analíticas da «microstoria». Debate que foi encetado nos anos setenta e oitenta por um pequeno grupo de historiadores italianos, oriundos do nordeste italiano (em particular de Bolonha), reunido em torno da revista «Quaderni Storici» e que englobou, além de Ginzburg, autores como Edoardo Grendi, Carlo Poni e Giovanni Levi. Essa discussão, profícua e inovadora, partiu do ensaio seminal de Edoardo Grendi «Micro-analisi e storia sociale» (1977) e do histórico programa de estudos lançado, dois anos depois, por Carlo Ginzburg e Carlo Poni no artigo «Il nome e il come: Scambio ineguale e mercato storiografico» (1979). Vale a pena conhecer Ginzburg.

Ginzburg, Carlo (1989), A Micro-História e Outros Ensaios, Lisboa: Difel.
Ginzburg, Carlo (1991), Mitos, Emblemas, Sinais, São Paulo: Companhia das Letras.
Ginzburg, Carlo (1995), História Nocturna: Uma Decifração do Sabat, Lisboa: Relógio D'Água.
Ginzburg, Carlo e Carlo Poni (1979), «Il nome e il come: Scambio ineguale e mercato storiografico», Quaderni Storici, Nº40, pp. 181-190.
Grendi, Edoardo (1977), «Micro-analisie storia sociale», Quaderni Storici, Nº35, pp. 506-520.

Nota Adicional 1. Talvez algum dos blogueiros oriundos do Campo da Arquitectura - Arquitectices, hARDbLOG ou O Projecto - nos possa ajudar a esclarecer o intrigante enigma da paternidade.

Publicado por socioblogue em agosto 10, 2003 08:16 AM
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