agosto 11, 2003

Arqueologia Linguística: Entre a História e a Estória (act.)

Em uma, mais uma, das minhas frequentes deambulações pelos empoeirados arquivos da blogosfera deparei-me com uma breve consideração, no blogue Tempore, sobre a distinção entre os termos estória e história [texto]. Diz assim: "Na minha opinião estória(s) reporta-se ao anedótico, ao pequeno relato. Julgo que a História é um composto do anterior, logo mais estrutural.". Esse tópico mereceu-me já alguma atenção num texto anterior (Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola). Porém, estando a dedicar-me a esboçar timidamente alguns procedimentos genealógicos ou arqueológicos, não resisto a retornar ao tema em causa. Há, com efeito, um debate - interessante e controverso, embora algo adormecido - sobre a distinção linguística entre os termos «história» e «estória».

Segundo a posição costumeira, a primeira expressão reporta-se ao estudo do passado das sociedades humanas ou, em alternativa, refere-se a esse próprio passado. Não será, talvez, inusitada uma consideração adicional: embora de uso corrente, o termo «história» deveria somente designar a evolução da humanidade e o passado das sociedades humanas. Com efeito, a expressão correcta para designar o estudo desse passado - a ciência histórica - será, porventura, o termo «historiografia». Já o segundo vocábulo, «estória», é utilizado na designação de textos ficcionais ou relatos narrativos. Não obstante o facto da raiz etimológica de ambos os termos ser a mesma - ambas derivam do grego «historía» por meio do latim «historîa» (talvez a Bomba Inteligente ou o Latinista Ilustre o possam confirmar ou infirmar) -, a distinção entre ambos visa acompanhar a diferenciação, de raiz anglo-saxónica, entre os termos «story» e «history».

Porém, o termo «estória» está longe de ser novo ou recente. Encontra-se, aliás, mais próximo de constituir um arcaísmo do que um neologismo. Na verdade, esse termo constitui uma expressão remota, resgatada de alguns textos manuscritos de copistas medievais portugueses - textos escritos quando a estrutura da ortografia ainda se encontrava pouco sedimentada. Surgiam então, com inusitada frequência, os termos «historia», «hestoria», «estoria», «istoria» ou «estorea»
enquanto equivalentes. Ou melhor, como grafias distintas de uma mesma expressão. Essa curiosa polissemia ortográfica foi experienciada, de igual modo, pela maioria das línguas latinas. Todavia, com o tempo, tendeu a prevalecer uma forma única na generalidade desses idiomas: o português «história», o francês «histoire», o castelhano «historia», o catalão «història» e o italiano «storia» são disso um bom exemplo. Na realidade, em Portugal, só a partir do séc. XVI cessaram essas «indecisões ortográficas». Essa estabilização concretizou-se, sobretudo, após a publicação das gramáticas de Fernão de Oliveira («Gramática da Linguagem Portuguesa», 1536) e de João de Barros («Gramática da Língua Portuguesa», 1540), os primeiros gramáticos portugueses. Essas obras contribuíram, de forma inelutável, para a fixação da língua portuguesa. Foi António Maria José de Melo Silva César e Menezes, Conde de Sabugosa, quem primeiro recuperou e propôs a adopção do termo «estória» para designar a narrativa de ficção. Fê-lo em 1912, no prefácio do seu livro «Dama dos tempos idos». Pouco depois, em 1919, seria acompanhado por João Ribeiro, afamado etnógrafo brasileiro. Quem, todavia, popularizou a expressão, reabilitando-a definitivamente, foi João Guimarães Rosa, um dos maiores vultos da literatura brasileira do século XX, ao publicar a sua obra «Primeiras Estórias» em 1962. De então até hoje mantém-se, em regime de latência, a polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos. Fica a curiosidade arqueológico-linguística.

Nota Adicional 1. A grafia dos termos em grego e latim não se encontra correcta, na medida em que não a consegui aqui reproduzir literalmente.

Nota Adicional 2. Rui Oliveira, na secção de comentários a este pequeno exercício arqueológico, produziu um breve texto onde preconiza a inutilidade da diferenciação entre os vocábulos história e estória. No quadro da sua argumentação em favor da indistinção entre os dois termos, Rui Oliveira apresenta algumas observações adicionais de interesse quanto à questão da sua sociogénese. Aqui as reproduzo: "Quanto às origens do inglês "story" e "history", são iguais às das línguas latinas, isto é, provêm ambas das mesmas palavras (grega e latina). Apenas acontece que "story" entrou no inglês através do chamado Anglo-French, em época medieval (sécs. XII-XIII), pela palavra "estorie" que no Middle English deu "storie" para acabar na actual "story". Por seu lado, "history" entrou mais tarde no inglês, pelo séc. XIV, através do Middle English "historie", vinda do Latim "historia". A natural evolução semântica que as palavras têm numa língua, levou-as aos significados actuais. De notar que a palavra grega "historia" queria significar "pesquisa,investigação"; Por sua vez "historia" deriva de "histor" que é aquele que sabe ou vê.".

Nota Adicional 3. Carla Hilário de Almeida (Bomba Inteligente) contribui, também na secção de comentários, com uma breve nota para o esclarecimento desta questão. De acordo com o que diz: "A palavra "estória" não está registada no dicionário da Academia das Ciências, facto que prova que é melhor do que se diz para aí. O dicionário de Cândido de Figueiredo tem a palavra registada como história em português antigo (whatever that means) e não lhe dá muita importância. Mas vamos lá ao que importa: história é composta de dois vocábulos - 'istos, que significa rede e roí, o verbo fluir em grego antigo - que juntos têm o bonito sentido de "uma rede que flui". À espécie de apóstrofo (') que vêem antes da palavra istos, chama-se espírito rude e trata-se do sinal de aspiração que transliterado para latim resultou num h. E o que é que estória tem a ver com isto? Nada." [ver texto original].

Publicado por socioblogue em agosto 11, 2003 12:24 PM
Comentários

Sendo eu um grande utilizador do vocábulo «estória» (que vi pela primeira vez em Portugal em textos de António José Saraiva dos anos '80), venho agradecer este vosso esclarecimento. Procurei-o na web porque vou, de novo, usar «estória», mas agora num título de artigo.
Eduardo CT

Afixado por: Eduardo Cintra Torres em novembro 7, 2003 01:14 PM

Caro Eduardo, obrigado pelo seu comentário. Boa sorte então para o artigo.

Afixado por: Socio[B]logue em novembro 14, 2003 01:27 PM

Tive azar. Escrevi o artigo com o título «Uma estória de encantar», mas no Público «corrigiram» o título para «Uma história de encantar». Saiu em 10.Nov.2003. Na versão online saíu «estória».
Esta estória fica então para a história das palavras.
Abraço,
Eduardo Cintra Torres

Afixado por: Eduardo Cintra Torres em fevereiro 19, 2004 01:53 PM

Valeu estava com sérias duvidas de como escreveria História ou Estória. Aluna da Rede pública de ensino....

Afixado por: Denise em julho 12, 2004 05:10 PM