Depois de uma breve investigação, Rui Oliveira, num esforço admirável, vem acrescentar algumas considerações de interesse no que diz respeito à questão dos termos história e estória (que aqui começara a ser debatida). Quanto à polémica entre os apologistas da diferenciação entre os vocábulos história e estória e aqueles que preconizam a manutenção do termo história como portador dos dois sentidos, Rui Oliveira apresenta a sua posição a partir de uma breve passagem de Jacques Le Goff na Enciclopédia Eunadi. Le Goff diz assim:
"A palavra "história" (em todas as línguas românicas e em inglês) vem do grego antigo historie, em dialecto jónico [Keuck 1934]. Esta forma deriva da raiz indo-europeia wid-, weid, "ver". Daí o sânscrito vettas "testemunha" e o grego histor "testemunha" no sentido de "aquele que vê". Esta concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva-nos à ideia que histor "aquele que vê" é também aquele que sabe; historein em grego antigo é "procurar saber", "informar-se". Historie significa pois «procurar». É este o sentido da palavra em Heródoto, no início das suas Histórias, que são, que são «investigações», «procuras» [cf. Benveniste 1969, t. II, pp. 173-174; Hartog 1980]. Ver, logo saber, é um primeiro problema. Mas nas línguas românicas (e noutras) "história" exprime, dois, senão três, conceitos diferentes. Significa: 1) esta «procura das acções realizadas pelos homens» (Heródoto) que esforça por se constituir em ciência, a ciência histórica; 2) o objecto de procura é o que os homens realizaram. Como diz Paul Veyne, «a história é, quer uma série de acontecimentos, quer a narração desta série de acontecimentos» [1968, p. 423]. Mas a história pode ter ainda um terceiro sentido, o de narração. Uma história é uma narração, verdadeira ou falsa, com base na «realidade histórica» ou puramente imaginária pode ser uma narração histórica ou uma fábula. O inglês escapa a esta última confusão porque distingue entre history e story (história e conto). As outras línguas europeias
esforçam-se por evitar esta ambiguidade. O italiano tem tendência para designar se não a ciência histórica, pelo menos as produções desta palavra por "storiografia", o alemão estabelece a diferença entre a actividade «científica», Geschichtschreibung, e a ciência histórica propriamente dita, Geschichtswissenschaft." (Le Goff, 1984: 158).
A partir das palavras de Le Goff, Rui Oliveira expõe, novamente, a sua posição quanto a esta questão. Preconiza, uma vez mais, que a distinção entre história e estória não tem razão de existir, na medida em que não existe nenhuma vantagem em ter dois termos monossémicos em vez de um vocábulo polissémico. Nas suas palavras: "Para mim, que entendo que as palavras não existem isoladas, mas em textos (entendendo o texto como um evento comunicativo), a polissemia de um termo não me incomoda, pois, habitualmente, o contexto comunicativo retira a ambiguidade que por vezes o termo possa ter devido aos seus vários significados. Quem entende a língua, exclusivamente, na sua vertente de sistema pode achar que a polissemia prejudica a compreensão. Esquecem-se, no entanto, que esse sistema é virtual e aquilo que pode ser ambíguo nesse sistema virtual, pode ser completamente claro num texto (aliás, isso acontece imenso nos exemplos apresentados como ambiguidades nas gramáticas que utilizam frases isoladas em que, quando se incluem essas frases em contextos reais, essas ambiguidades desaparecem. São em casos muito raros é que os termos são monossémicos. As pessoas têm a competência comunicativa («une connaissance conjuguée de normes de grammaire et de normes d'emploi» Hymes 1984:47), que lhes permite distinguir, entre outras coisas, o significado daquilo que lhe é dito. Por isso, entendo que a distinção história / estória não tem razão de existir, pois não é uma distinção essencial num contexto comunicativo. No entanto, longe estou de chamar ignorante a quem quiser usar estória, pois, se pessoalmente não a usarei, a língua não é estática e, se os seus utilizadores adoptarem a palavra, ela terá o destino que eles quiserem."
Mas, para além desse notável contributo, o autor vai mais longe no que diz respeito à etimologia do termo história, entrando em debate com a
contribuição de Carla Hilário de Almeida.
"Entre "rede" e "aquele que vê" parecia-me que para além de uma certa proximidade ortográfica (em grego), a raiz teria de ser diferente. Desde já digo que não sei muito de grego e sabendo que a Carla Hilário de Almeida sabe grego, quis perceber o porquê desta diferença de etimologia. Assim, como se vê no número 2 do anexo, encontrei na Biblioteca da FLUP um dicionário etimológico de grego, já antigo (1923), mas que me deu um primeiro esclarecimento pois em entradas sucessivas lá estavam histos e histor. Mais uma vez histor era apontado como etimologia de história. Mas, no entanto, faltava-me confirmar ainda a questão da raiz. E essa, encontrei-a na net, números 3 e 4. Tal como eu suspeitava, as duas palavras tinham raízes diferentes. Se eu conhecia a raiz de histor (wid-, weid), não sabia qual seria a raiz de histos. No entanto, o dicionário mencionado no número 2 dava-me uma pista, a palavra latina stamen. Depois de encontrar a página da net do American Heritage Dictionary, encontrei então a raiz de histos, que é sta (número 4 do anexo), o que tem lógica, pois, por exemplo, o verbo stare significa, "estar de pé, estar levantado". E, mais ainda, no número 4, no parágrafo III, lá está histos "web", "tissue". Parece-me pois que a etimologia de história estará efectivamente em histor. No número 5, uma pequena tradução de Heródoto na antologia Hélade, em que historie é traduzida por "informações". Ainda na mesma antologia a palavra historia aparece em textos de Platão e Aristóteles e é traduzida por, em ambos os casos, "investigações". Tudo isto concorda com a etimologia de histor."
Nota Adicional 1: As referências citadas por Rui Oliveira encontram-se num
ficheiro doc de anexos que o autor me enviou. Para quem quiser aprofundar a
questão encontra-se aqui disponível [historia.doc (203Kb)].
Nota Adicional 2: Nuno Dempster (Palavras & Letras), teceu algumas considerações em redor deste tópico num post que titulou «Uma história versus outra estória». Diz assim: "Li em tempos, algures, que estória seria para
suprir uma hipotética ausência de um termo equivalente à expressão short story, com a sua tipificidade narrativa, e para a distinguir do conto. Aquela em geral apresenta um desenvolvimento mais amplo no espaço e no tempo, mais ou menos extensa narrativanente, não exige, como canonicamente o conto exige, uma grande contenção na extensão narrativa e uma forte convergência para o final, um espaço e um tempo narrativos curtos (o tempo aqui muitas vezes surge aumentado por analepses), um fim inesperado. Mas história, no contexto em que é aplicada, nunca se pode confundir com História, como escreve Rui Oliveira no Socioblogue, ninguém as confundiria, e daí parecer-me inútil e não isento de pose, em português de Portugal, o emprego da palavra estória. No mais, trata-se apenas de uma escolha pessoal: a língua evolui independentemente da vontade de cada um. Hoje é sabido que os géneros se interpenetram, e, depois, para maior confusão, há quem chame contos a histórias, histórias a contos, mas também quem chame histórias a histórias, e contos, a contos, e ainda contos e romances a novelas. Não se trata de descobrir o sexo dos anjos, isto é, de saber o que é uma coisa e o que é outra num tempo em que a narrativa de ficção se apresenta cada vez mais mista, nem me refiro a países de língua portuguesa, como o Brasil, Angola e Moçambique, onde é sabido que a palavra estória é empregada com frequência. É, português, pensar alto, escrevendo e fixando melhor assim as ideias que vou apurando.". Ainda antes de o escrever já o autor havia observado o seguinte, na secção de comentários do Socio[B]logue: "Além de Guimarães Rosa, também já há bastante tempo Luandino Vieira usou o termo em Luuanda, se não estou enganado. No entanto, há uns dois anos li algures que "estória", nos escritores mais recentes, poderia ser um termo substituto da short story americana por distinção de conto (temos o termo história para isso), ambos formalmente diferentes no seu tipo de estrutura narrativa. E é curioso como, ao invés, Luísa Costa Gomes, por exemplo, intitula, como de contos, livros seus que, formalmente, seguem o desenvolvimento das short stories americanas. Já Teolinda Gersão, outro exemplo, intitula, quanto a mim muito correctamente, "Histórias de Ver e Andar", um livro de histórias que não têm de forma nenhuma a estrutura de contos. Até que ponto "estórias" será uma questão de boa consciência, ou mesmo de pose, não sei. Sei que em Portugal há histórias e há contos, correspondentes, como disse, a duas formas diferentes de narrativa curta de ficção (quanto ao desenvolvimento temporal e espacial)."
esse site socieblogue e otimo
Afixado por: Jessyca Nunes em novembro 4, 2003 03:31 PMObrigado, Jessica, pelas palavras atenciosas.
Afixado por: Socio[B]logue em novembro 21, 2003 03:09 AMum bom texto:
http://educaterra.terra.com.br/sualingua/08/08_estoria.htm
Edson
Brasil
Por gentileza, não consigo encontrar a fonte apaxnion onde indicado. Alguém pode me ajudar? Obrigada!
Afixado por: Mariangela Del Vecchio em março 21, 2004 01:55 PMEstória é estória!
História é História!
Por que preferir um vocabulario polissémico?
Apenas por nao "haver necessidade" de ter?
Nao é por necessidade que se criam as coisas apenas, mas tambem por utilidade :)
A DIFERENÇA É MUITO ÚTIL!
Excellent, that was really well explained and helpful
Afixado por: grants em julho 2, 2004 08:27 AMPQ COMPLICAR TANTO??
VCS N TEM O Q FAZER??
UHAHUHAUHAUHAU