Pego no Diário de Notícias de terça-feira. Parto em busca de uma entrevista a que dei, nesse dia, uns relances descuidados. Falo, claro, do diálogo do historiador de cultura norte-americano Peter Gay com Martin Doerry e Jen Fleischauer do Der Spiegel. Pelo caminho, deparo-me com uma brevíssima nota que me passou então despercebida. Fala de um relatório do Departamento de Justiça norte-americano. Nesse relatório, de acordo com o DN, é indicado que cerca de 5,6 milhões de cidadãos norte-americanos já tiveram, pelo menos, uma experiência prisional (2,7 por cento da população adulta, isto é, 1 em cada 37 adultos). Menciona, também, que no final de 2001 a população prisional norte-americana andava perto dos 2,1 milhões de indivíduos. Estes números parecem, talvez, pouco expressivos. Ou melhor, são apenas números - absolutos e abstractos - e, por conseguinte, não parecem dar-nos uma noção, ainda que parcial, da sua relevância. Um exercício comparativo mostra-nos, todavia, a (insólita) dimensão do fenómeno. Nos Estados Unidos, em 1997, a população prisional era de 1.785.079 indivíduos. Esse número representa uma taxa de reclusão de 648 por 100.000 habitantes. Em Portugal, de longe o país da União Europeia com a taxa de reclusão mais elevada, ela era, à mesma data, seis vezes mais baixa: 145 reclusos por 100.000 habitantes (Wacquant, 2000: 76). Porém, mesmo que expressivo, este confronto de números (e realidades) elide a complexidade da questão prisional nos EUA. Com efeito, o quadro é bem mais complexo. A sociografia da população prisional norte-americana mostra-nos que esta é constituída, primacialmente, por grupos étnicos específicos: maioritariamente negros e hispânicos. Nesses grupos populacionais - ou, pelo menos, em boa parte das suas comunidades - as percentagens de pessoas com experiências prisionais são alarmantes. Pior: assustadoras. Existe, por isso, um número considerável de investigadores que se têm procurado debruçar sobre a singular realidade prisional norte-americana. Refiro, a título exemplificativo, os casos de David Garland, Loïc Wacquant, Michael Tonry, Jock Young, Franklin Zimring, Bruce Western, David Downes, Elijah Anderson, Katherine Beckett, Marc Mauer ou Jonathan Simon. E é por isto, também, que alguns desses autores têm falado de uma «exclusive society» (Young, 1999), de uma «mass imprisonment society» (Garland, 2001) ou de uma «age of mass incarceration» (Wacquant, 2002). As expressões parecem excessivas, bem sei. Mas não são.
Garland, David (ed.) (2001), Mass Imprisonment: Social Causes and Consequences, Londres: Sage Publications.
Young, Jock (1999), Exclusive Society: Social Exclusion, Crime and Difference in Late Modernity, Londres: Sage Publications.
Wacquant, Loïc (2000), As Prisões da Miséria, Oeiras: Celta Editora.
Wacquant, Loïc (2002), «The Curious Eclipse of Prison Ethnography in the Age of Mass Incarceration», Ethnography, Nº3-4, pp. 371- 397.
Um pequeno reparo: 648 a dividir por 145 não dá seis vezes. É preciso ter mais cuidado com os números.
Afixado por: om em outubro 3, 2003 12:14 PMMea culpa. Tem toda a razão. E embora esse aspecto não altere, significativamente, o argumento apresentado, "dramatiza-o" em excesso. Fica, por isso, a nota de culpa.
Afixado por: Socio[B]logue em outubro 3, 2003 02:52 PMboa noite, estive a ler todo o seu blog e queria-lhe pedir um favor, isto claro, se tiver tempo e disponibilidade.
sou estudante de 4º ano do curso de Reabilitação e Inserção Social, no ISPA. e quero fazer a minha monografia sobre a população ex reclusa, e sobre a sua situação de inserção em mercado normal de trabalho. sobre isto, a informação nao é tao abundante como deveria. por isso mesmo peço ajuda, em termos de bibliografia que me possa recomendar em relação a este assunto. isto claro, sem lhe querer causar qualquer transtorno.
muito obrigado pela atenção.
Ps- se nao se importasse gostaria de receber resposta para o meu email: apluis@netcabo.pt
Ana Luis